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LGBTQ

Por dentro do clube queer onde é proibida a entrada de homens cis

A festa queer e inclusiva LICK cresceu de uma noite mensal para seu próprio espaço permanente. Estávamos lá na inauguração.

por Helen Meriel Thomas; fotos por Bex Wade; Traduzido por Marina Schnoor
17 Julho 2019, 2:52pm

Todas as fotos por Bex Wade.

Tem uma piada no folclore queer feminino que é assim: o que uma lésbica traz no segundo encontro? Um caminhão de mudança. Para pessoas que não sabem muito sobre ser uma mulher que curte outras mulheres, essa é uma piada sobre como as lésbicas levam as coisas a sério rápido demais, correndo para se assentar com alguém e nunca mais ficar com uma estranha. Algo que não ajuda em nada a derrubar esse estereótipo é o aumento dos aluguéis, o que forçou o fechamento de incontáveis espaços LGBTQ+, particularmente os voltados para mulheres.

Mas a paquera queer – e baladas no geral – feminina pode estar rumando para uma renascença, graças a um novo clube noturno abrindo num dos distritos de festa gay mais famosos de Londres, Vauxhall. Em três anos, a LICK foi de uma noite mensal para sua própria instalação no Fire & Lightbox Complex, sob os Arcos de Vauxhall. Mas tem uma diferença entre a LICK e outros clubes gays, como o Royal Vauxhall Tavern, o Heaven ou até o bar lésbico She. A LICK é um espaço apenas para mulheres e pessoas não-binárias – não um clube para homens gays cisgênero.

LICK queer club Vauxhall Bex Wade VICE
LICK Queer Club Vauxhall London 2019 Bex Wade VICE

Lotada uma hora depois da abertura na noite de inauguração, a popularidade da LICK prova que havia uma procura por espaços para garotas queer que não estava sendo atendida. Robyn, uma bibliotecária de 26 anos que conheci naquela noite, me disse que mesmo em baladas LGBTQ mainstream, ela se sentia deixada de lado. “Muitas vezes há um tom antimulher, que é obstrutivo para todo mundo ali.” A gerente de restaurante Alicia, também de 26 anos, concorda. “Gosto muito de ter um espaço só para mulheres, porque a comunidade gay é muito dominada por homens. E em outros clubes falta diversidade, não só de gênero, mas de diferentes culturas também.”

Quando você entra no LICK, fica claro o que os outros espaços queer em Londres não têm. DJs ao vivo tocam hip hop e dancehall nas três pistas que formam o clube, e B*Witched não aparece na playlist de nenhuma delas. É um espaço onde pessoas não-brancas são bem recebidas e se sentem visíveis; algo em que a fundadora Teddy Edwardes queria se focar quando começou os eventos e depois abriu o clube. “Quando comecei a LICK, você não via garotas dessas comunidades no Soho. Não havia um lugar para mulheres mestiças, negras e asiáticas, e nenhum lugar tocando o tipo de música que elas ouvem. Eu queria convidar um público diverso.”

LICK queer club Vauxhall Bex Wade VICE
LICK Queer Club LGBTQ Bex Wade VICE

Como em qualquer outro clube, a LICK está cheia de cantinhos para trocar saliva com estranhas e abraçar cinturas suadas. Mulheres se pegam contra as paredes dos arcos, e lugares cercando a cabine das DJS estão cheios de um tesão esplendoroso. Sem os olhares dos homens héteros presentes em outras baladas, LGBTQ ou não, as mulheres queer finalmente podem tomar o palco aqui. A abundância de mulheres e pessoas não-binárias se beijando e descendo até o chão na pista destaca como isso às vezes parece impossível em outros clubes, onde o fetichismo lésbico empurra as mulheres para as sombras e banheiros por medo de assédio ou ataque.

Igualmente, simplesmente dançar e conversar parecia curiosamente fácil. Tem uma “zona de encontros” que parece um espaço seguro dentro de um espaço seguro, onde as frequentadoras podem sentar em mesas, conhecer novas pessoas e dar uma pausa da pista movimentada. Numa era onde 9 milhões de pessoas no Reino Unido dizem que se sentem solitárias sempre ou com frequência, fornecer esse espaço, sem qualquer sutileza, parece vital. Com vista para o espaço de encontros tem um mezanino mais calmo que, estranhamente, não dava medo. Os banheiros têm absorventes grátis.

LICK queer club Vauxhall Bex Wade VICE

Monica, uma engenheira de dados de 25 anos, apontou que mesmo como uma garota hétero que não estava procurando ficar com ninguém, ela se sentia acolhida. “Me sinto tão confortável, e não estou acostumada com isso em clubes. Esta provavelmente é uma das melhores festas a que vou em anos. Nos clubes às vezes, as garotas podem ser muito competitivas entre si, mas não sinto isso aqui porque não tem homens. Eu não percebia o quanto isso mudaria a dinâmica. Não sinto pressão para impressionar ninguém. Posso honestamente ser eu mesma. E estou ajudando minha amiga a paquerar!”

Em 2015, a VICE mandou JD Samson do Le Tigre em busca do último bar lésbico dos EUA. Basta dizer que foi uma coisa meio deprê. Sabemos que o fechamento de baladas gays está aumentando não só lá, mas no Reino Unido também. Mas apesar de todos os desafios encarados por clubes gays lutando para sobreviver, parece que eles ainda não deram seu último suspiro. Pelo menos não na capital agora que a LICK abriu. A comunidade de mulheres e pessoas não-binárias em Londres merece mesmo uma alternativa para a invisibilidade, isolamento e o porão do G-A-Y. Esperamos que a LICK continue aqui por um longo tempo.

@iamhelenthomas / @Bexwade

Matéria originalmente publicada na VICE Reino Unido.

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