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A realidade sangrenta de trabalhar com limpeza de cenas de crime

“Quando alguém está em decomposição há cinco meses, não tem muita coisa para a polícia remover. O homem tinha virado uma sopa.”

por Gwen van der Zwan; Traduzido por Marina Schnoor
27 Agosto 2019, 10:00am

Tugrul Cirakoglu. Todas as fotos: Gwen van der Zwan.

AVISO: Esta matéria contém imagens que algumas pessoas podem achar perturbadoras.

Encontro Tugrul Cirakoglu em Wehl, uma cidade no leste da Holanda, na casa de uma mulher que estava morta lá há um mês depois de cair da escada. A polícia já levou o corpo dela, agora é nosso trabalho limpar a casa.

Quando chego, Cirakoglu está do lado de fora, ocupado vestindo seu macacão de proteção descartável. Juntos, tocamos a campainha. A sobrinha da falecida abre a porta e nos deixa entrar. O fedor da casa é tão forte que fico enjoada. Cirakoglu, por outro lado, calmamente usa um esfregão para limpar uma grande quantidade de fluídos corporais no corredor. Vejo as centenas de larvas que ele está puxando com o esfregão e pergunto por que elas são tão escuras. “São larvas carniceiras”, ele explica. “Diferente do tipo que você encontra numa pilha de lixo.”

Passamos duas horas nos livrando das moscas, rasgando carpete manchado de sangue da escada e instalando purificadores de ar. É tempo suficiente para falar com Cirakoglu sobre como o homem de 29 anos começou seu serviço de limpeza – o único na Holanda especializado em “limpeza de cenas de crime e trauma”.

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Tugrul Cirakoglu.

VICE: Como você se tornou um especialista em limpeza de cenas de crime?

Tugrul Cirakoglu: Fiz mestrado em Gerenciamento de Negócios Internacionais, mas não estava conseguindo achar trabalho, então decidi começar meu próprio negócio. Com €300 no banco, comecei com a empresa de limpeza Frisse Kater [Ressaca Fresca] em 2014. Inicialmente, a empresa se focava em limpar casas depois de grandes festas. Mas quando percebi que a regra “quanto mais extremo, mais lucrativo” se aplicava à indústria de limpeza, decidi me focar em trabalhos de limpeza pesados. Passei quatro meses lendo sobre como limpar coisas como sangue e fluídos corporais na internet.

O que você aprendeu?

Principalmente que o equipamento de limpeza necessário é caro. Nos últimos quatro anos, investi €150 mil em equipamento, como desinfetantes especiais, desengordurantes, escovas, esponjas, luvas, macacões descartáveis, máscaras de oxigênio e aspiradores de pó especializados. Os aspiradores, que custam €1.500, têm um filtro especial que impede bactérias de serem jogadas de volta no ar. Você precisa deles para aspirar poeira de cadáver, por exemplo.

Como assim?

Quando um corpo fica em decomposição por muito tempo, ele começa a virar pó. Se você for limpar com uma vassoura ou um aspirador normal, um pouco dessa poeira é jogada no ar. Se você respira essa poeira, é como inalar pequenos pedaços de cadáver, o que pode levar a todo tipo de doença.

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E você conseguiu pagar por todo o equipamento?

Com certeza – ano passado fizemos €250 mil. Parei de me importar tanto com dinheiro, mas meu objetivo é fazer um milhão por ano. No momento, fico com a metade do lucro; a outra metade cobre o salário dos funcionários, aluguel de escritório, suprimentos de limpeza, combustível e impostos.

Como você determina quanto cobrar?

Trabalho com categorias diferentes. Tenho uma tabela detalhando o custo dos suprimentos e as margens de lucro para cada trabalho. Por exemplo, se você quer retirar 150 quilos de fezes de um banheiro, você está na categoria mais séria de limpeza, e provavelmente vai ter que desembolsar €3.600 por um dia de trabalho. Na categoria mais baixa, um dia de trabalho custa cerca de €1.700.

Cento e cinquenta quilos de fezes? O que aconteceu?

É. Em maio recebemos uma ligação de uma imobiliária que precisava limpar 150 quilos de cocô de um banheiro. Os vizinhos do apartamento estavam reclamando do cheiro. A privada da pessoa morando naquele apartamento entupiu em algum momento, mas em vez de fazer alguma coisa para consertar, o cara continuou cagando ali. Primeiro ele encheu toda a privada, depois o chão em volta. No final das contas, ele só agachava na porta do banheiro e cagava ali mesmo. O banheiro ficou cheio de merda, e a porta do quarto dele era do lado. A imobiliária não viu problema dele continuar morando no apartamento, então ele estava lá no dia da limpeza, lendo um jornal como se nada estivesse acontecendo.

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Do lado de fora da cena de limpeza.

Esse foi seu trabalho mais extremo até agora?

Não, já tivemos vários trabalhos bizarros. Dois anos atrás, pegamos o trabalho de limpar a casa onde um homem obeso mórbido estava se decompondo há cinco meses até a família perceber que ele não estava atendendo o telefone, então eles foram até a casa com a polícia. Quando alguém está em decomposição há tanto tempo, não tem muita coisa para a polícia remover. O homem tinha virado uma sopa. Os policiais disseram que o cheiro era tão horrível que eles vomitaram assim que entraram na casa. Aí eles abriram as portas da varanda para deixar ar fresco entrar, e os hóspedes do hotel do outro lado da rua fizeram check out mais cedo porque o fedor era insuportável.

O que vocês encontraram chegando lá?

Como o cara era muito pesado e ficou ali muito tempo, seus fluídos corporais e larvas tinham se espalhado por uns dez metros quadrados. O chão e a camada abaixo tiveram que ser removidos. Os fluídos penetraram no concreto e ficaram pretos, toda a cozinha foi danificada. O senhorio nos contratou porque queria alugar a casa para outra pessoa. Esse trabalho caiu na categoria mais séria.

Limpamos todo tipo de coisa – esfaqueamentos, tiros. Teve um caso onde a pessoa foi atacada dentro de casa com um machado. O machado penetrou direto na cabeça dele, e os tecidos do cérebro ficaram espalhados na parede. E teve uma mulher que se esfaqueou dezenas de vezes durante um surto psicótico. Foi muito sangue pra limpar.

Mas a coisa mais intensa que já encontrei foi limpar os restos de uma pessoa que teve uma hemorragia gastrointestinal. Com sangramento no estômago, tinha muito sangue e fezes.

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Screenshot do canal do YouTube de Cirakoglu.

Isso aconteceu recentemente?

Seis meses atrás, tivemos um homem de 32 anos que teve uma hemorragia gastrointestinal e continuou vivo na cama por um mês, deitado na própria urina, sangue e fezes. Ele estava doente demais para levantar. Aí ele sofreu outra hemorragia estomacal. Ele morreu disso alguns dias depois. A pior parte é que esse cara não morava sozinho. Os colegas de apartamento só foram ver como ele estava uma semana depois que ele morreu, porque sentiram um cheio estranho. Ninguém notou que ele estava sofrendo por cinco semanas seguidas. Eles eram todos viciados. Quando estávamos trabalhando lá, um dos colegas de apartamento entrou e perguntou se podia ficar com o notebook do morto. Ele nem conseguiu esperar a gente terminar.

Como você limpa uma superfície ensanguentada?

Você tem que esfregar bastante. Tudo depende da situação – se o sangue está num material não-poroso, dá pra limpar. Mas em superfícies porosas como madeira, temos que remover tudo. Quando se trata de um cadáver, a pergunta é sempre: vamos ter sorte? O corpo começou a vazar de maneira contida, ou vamos encontrar o caos total?

Que efeito esse trabalho teve em você?

Desde que entrei pro ramo, comecei a reconhecer a natureza podre da humanidade. O fato de pessoas serem mortas não me choca – isso acontece desde o começo dos tempos. O que me surpreende é como a solidão e problemas de saúde mental são comuns na Holanda. Sempre somos retratados como um país bonito e feliz. Mas como alguém pode ter 150 quilos de fezes num banheiro? Como outra pessoa está morta em sua casa há cinco meses e ninguém se importa?

Esses casos te fazem perceber como a Holanda é um dos países mais individualistas do mundo. Também já limpei a casa suja de advogados e médicos de sucesso. Eles choram pra mim da sala sobre como são solitários. Não tenho problemas com sangue ou sujeira. Mas ver e sentir a solidão e a tristeza intensas... isso me deixa mal.

Matéria originalmente publicada pela VICE Holanda.

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Tradução do inglês por Marina Schnoor.