O futuro da maconha medicinal no Brasil

O cientista brasileiro Fabrício Pamplona fala como a cannabis para fins médicos já pode ser utilizada e diz que até 2020 teremos remédios à base da erva nas farmácias brasileiras.

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14 dezembro 2017, 12:00pm

Conteúdo possibilitado pela parceria com a Bem Bolado.

Fabricio Pamplona, 35 anos, é psicofarmacologista, um tipo de cientista que estuda como os medicamentos e as substâncias que agem no sistema nervoso central funcionam. Pamplona, original de Florianópolis e que hoje trabalha em um laboratório em Campinas, desenvolve medicamentos fitoterápicos à base de cannabis. Ele esteve na Expocannabis Uruguay 2017 para contar um pouco do seu trabalho e pesquisa, e conversou com a VICE sobre seu trampo e outros lances.

Foto: Débora Lopes/VICE.

VICE: Como você começou a pesquisar sobre a cannabis?
Fabrício Pamplona: Já faz bastante tempo, eu nem me lembro mais da época em que eu não pesquisava maconha e canabinoides. Eu estou nessa desde 2002, na Universidade Federal de Santa Catarina, quando o tema ainda não estava na moda. Eu fiz meu mestrado e o meu doutorado num laboratório de psicofarmacologia que o coordenador foi orientado pelo primeiro cara que começou a estudar esse tema no Brasil, que é o Professor Carlini. Então eu sou o neto do cara que começou essa parada no Brasil. Ele orientou o meu orientador, hoje ele já está com 90 anos.

E o que você já descobriu?
A cannabis age no nosso organismo porque a gente tem um sistema que faz uma coisa muito parecida com o que ela faz, naturalmente. É o sistema endocanabinoide. Então eu comecei pesquisando a fisiologia desse sistema, e não a cannabis em si. E quando eu ia para os congressos e fazia apresentações, eu era uma das poucas vozes no Brasil, principalmente naquela época, que olhava pra esse sistema e via uma oportunidade terapêutica. Eu não via dependência, problemas cognitivos, não via ansiedade, fobia, esquizofrenia, como a gente vê os chavões das pessoas que ficam repetindo esses medos.

Eu fiz uma consulta e conversei com o médico sobre ansiedade, ele me disse que pessoas ansiosas devem procurar maconha e produtos derivados que tenham uma proporção de CBD e THC de, pelo menos, 1:1. Como é isso?
Não são todas as pessoas que têm crise de ansiedade com THC, mas é verdade, sim, que um THC muito alto pode gerar esse tipo de sensação — uma ansiedade muito alta, paranoia e até psicose.

Mas é uma psicose temporária ou que acompanha a pessoa pela vida?
É uma psicose temporária, induzida pela cannabis. Então, se você parar de fumar, você para de ter [crises] e as melhores estimativas dizem que é em torno de 6% dos usuários estão sob o risco desse tipo de ocorrência. Por outro lado, o CBD ajuda a controlar isso, por isso o teu médico falou de 1:1.

“As pessoas têm medo da psicoatividade, de perder o controle. Mas esse é o pior caminho: desconhecer, proibir e não dar a liberdade para as pessoas fazerem escolha.”

E você disse que estuda o uso da planta inteira, ao contrário de quem isola os compostos, como o cannabidiol, e estuda eles separadamente.
As pessoas têm um pouco do medo de THC, embora ele tenha inúmeras propriedades terapêuticas. Com a descoberta do CBD e das suas várias propriedades terapêuticas, e como ele tem um perfil de efeitos adversos menor e se pode usar maiores quantidades com mais segurança, ele acabou se popularizando. E particularmente as variedades de plantas que produzem muito CBD — por exemplo, o cânhamo — embora tenha muitas variedades de cannabis que têm muito CBD. Isso deu vazão a essa impressão geral de que o CBD serve para tudo, tem gente até falando que o THC é o mau, que ele nem é terapêutico.

Foto: Débora Lopes/VICE.

Isso porque ele é psicoativo?
Sim, as pessoas têm medo da psicoatividade, elas têm medo de perder o controle. Mas eu acho que esse é o pior caminho possível: você ter medo, desconhecer, proibir e não dar a liberdade para as pessoas fazerem escolha.

Essa força do CBD ficou tão grande que se criou esse mito de que só o CBD isolado é terapêutico. A minha pesquisa, o que eu vou apresentar aqui na Expocannabis e os produtos que eu tenho desenvolvido na Entourage, a empresa que eu trabalho, vão radicalmente na outra direção. A gente trabalha com linhagens de plantas selecionadas, inclusive testadas em muitos pacientes nos países em que isso é possível, e a gente está produzindo produtos farmacêuticos a partir dessas linhagens, com a planta inteira. Então a gente trabalha com fitoterapia, não produtos isolados.

E vocês testam os produtos no Brasil mesmo?
Eu falei que a gente está partindo de linhagens já usadas, né? Então nós pesquisamos em países em que isso já está desenvolvido. Na Holanda, por exemplo, há linhagens que são mais populares em pacientes que sentem dor, outras que são mais utilizadas por quem tem insônia, linhagens para pacientes com epilepsia, etc. A gente parte dessas linhagens e desenvolve medicamentos. O estágio que a gente está agora é o de fazer a tecnologia de extração, que está sendo desenvolvida junto com a Unicamp. Os testes regulatórios para testar o medicamento se iniciam no ano que vem.

Foto: Débora Lopes/VICE.

Em quem os produtos serão testados?
A parte pré-clínica — o que eu acho um total absurdo —, como a Anvisa exigiu que a gente ainda fizesse, [terá] testes em animais. Essa parte pré-clínica vai ser feita em Florianópolis, no CIENP (Centro de Inovação em Medicamentos de Florianópolis). Na sequência, uma empresa de Campinas de testes clínicos de segurança. Essa é a fase 1. A fase 2 será em hospitais. Eu não posso falar nomes, mas os maiores hospitais de São Paulo vão estar envolvidos nessa pesquisa.

Você acha que esse estudo vai abrir portas para a maconha medicinal no Brasil?
Então, a maconha medicinal já é regulamentada no Brasil desde março de 2016.

Mas ela funciona na prática?
Muita gente não sabe disso, mas já é possível usar CBD e THC desde março de 2016. Não há nenhum empecilho para prescrever, para usar ou para fumar a flor.

Qualquer médico pode prescrever?
Sim.

Mas qual a dificuldade?
O que falta: pessoas que consigam importar e exportar flores para o Brasil. Hoje também é muito restrito o número de pessoas que podem cultivar. Tem pessoas que têm autorização salvo-conduto para cultivar para si mesmas ou para os familiares, e uma associação, na Paraíba, que tem autorização para cultivar para os seus membros. Esse é o cenário no Brasil.

Nós fomos os primeiros a conseguir importar a planta in natura. Eu tenho 10kg de maconha no laboratório. São flores de alta qualidade, padronizadas em grau farmacêutico. A nossa safra vem do Canadá.

Foto: Débora Lopes/VICE.

Qual o perfil dos usuários de maconha medicinal no Brasil?
A maioria são pacientes epiléticos, com epilepsia refratária, ou seja, que não respondem a outros medicamentos, e na maioria crianças e adolescentes — que tomam produtos de cânhamo com alto teor de Canabidiol (CBD).

O que essas crianças e adolescentes usavam antes?
Toda sorte de medicamentos neurológicos. Antiepiléticos variados. No estudo que eu vou mostrar hoje, as crianças tomam entre 4 e 7 tipos de medicamentos por até dois anos para chegar à conclusão de que nada funciona. E aí, mais da metade responde ao Canabidiol. Mas esse não é o único perfil de pacientes de maconha medicinal no Brasil. Também tem adultos, tem pacientes de dor, pacientes de esclerose múltipla, câncer e AIDS. Todos esses precisam de THC, não precisam de CBD. Aí a questão é achar a dose.

Por que eles precisam só do THC?
O THC é o analgésico principal. É ele que alivia os efeitos da quimioterapia, é o THC que dá fome.

Quando teremos os seus produtos na farmácia?
Minha previsão, a partir de agora, é para 2020.

E o cultivo pessoal, você acha que vai rolar?
São três vertentes de cultivo, né? O cultivo pessoal, o cultivo associativo e o cultivo industrial — em larga escala. Minha opinião pessoal é que o autocultivo é importante para as pessoas, elas precisam ter a liberdade de fazer isso. Não acho que são todas as doenças que se beneficiam disso. Doenças neurológicas que exigem muitas doses e que exigem um controle muito fino da dose, eu acho que é um risco fazer o uso dessa maneira. O intermediário entre o industrial, larga escala, entre o produto registrado e o cultivo pessoal é o cultivo associativo – que consegue ser regulamentado, um pouco mais padronizado, e ter esse controle de dose. Para mim, o autocultivo serve para alívio de dor, conseguir dormir melhor e serve, eventualmente, para ansiedade. Hoje tem essa discussão de que o CBD é mais seguro que o THC, e eu acho que deve vir uma regulamentação sobre o autocultivo, sim, mas talvez ele não seja o suficiente para todo mundo. Meu chute que é que entre 10 e 15% das pessoas têm a disponibilidade para fazer o autocultivo, por causa do investimento financeiro, a curva de aprendizado e o tempo que o cultivo demanda. Para mim, é preciso ter uma regulamentação que permita o cultivo em larga escala.

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