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análise

Como o ativismo de esquerda mudou no Reino Unido nos últimos 15 anos

De grupos revoltosos nas ruas contra o capitalismo a militantes em campanha por Jeremy Corbyn.

por James Poulter; Traduzido por Marina Schnoor
04 Dezembro 2017, 3:50pm

Manifestação anticapitalista em Hamburgo no meio deste ano (foto por Henry Langston).

Matéria originalmente publicada na VICE UK.

Em 2002 a maioria dos protestos era contra a guerra. A ocupação do Afeganistão pelos EUA e seus aliados, incluindo o Reino Unido, começou em 2001 e muitas das mesmas potências estavam prestes a invadir o Iraque de Saddam Hussein. Meu envolvimento com ativismo começou um ano antes, participando de protestos antifascistas e contra a guerra no Afeganistão. Foi o movimento antiglobalização que me atraiu para o ativismo. Ver nos noticiários milhares de punks e anarquistas quebrando tudo em Londres como parte do Carnaval Against Capital, anos antes, tinha me feito pesquisar globalização e perceber como o mundo era um lugar escroto.

Nos anos 2000, passávamos mais tempo em ocupações que esperávamos que se tornassem centros sociais, como vários espaços ocupados na Itália que funcionavam como os centros do movimento antiglobalização lá. Isso não aconteceu, e um documento policial de 2011 recentemente liberado explica por que, descrevendo a maioria dos anarquistas como “grupos disparatados de pessoas vivendo às margens da sociedade, mudando de uma ocupação para outra e muitas vezes se envolvendo com drogas e ácool”.

Os dois maiores protestos no Reino Unido em 2002 foram contra a guerra e contra a proibição de caça de raposas. Os dois tiveram cerca de 400 mil pessoas marchando em Londres, e sou uma das poucas pessoas que participou dos dois. Na marcha contra a guerra eu era parte do bloco “No War But Class War”, no qual vários anarquistas se reuniram atrás de uma faixa de plástico que alguém tinha roubado de um supermercado e pintado o slogan com spray. Na marcha a favor da caça de raposa, me juntei a um pequeno grupo de sabotadores de caçada contraprotestando diante dos assassinos de raposa de blaser de tweed.

O movimento antiguerra era dominado pelo Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP em inglês). Membros mais velhos discursavam em quase todo protesto. As grandes manifestações contra a guerra (que não conseguiram nada em termos práticos) eram só oportunidades para o partido vender seu jornal, fazer os participantes assinarem petições e tentar recrutar mais membros. Os dias em que o SWP podia dominar o movimento social ficaram no passado, e essa é uma das mudanças mais significativas no ativismo nos últimos 15 anos. Em 2010 o partido foi acusado de encobrir estupros e assédio sexual de um dos principais membros. Desde então, o SWP se estilhaçou e é evitado pela maioria da esquerda.



O colapso do SWP não foi só o que mudou. Em 2002 o movimento antiglobalização começou a chegar ao fim. Por muitos anos, cada grande cúpula realizada por instituições globais e supranacionais como o FMI, o Banco Mundial, Organização Mundial de Comércio, OTAN e União Europeia foram alvos de protestos do movimento. Dezenas e às vezes centenas de milhares de pessoas saíam às ruas. Os participantes iam de ONGs a black blocs anarquistas. Em muitos lugares os black blocs partiam para a violência, depredando prédios de multinacionais como McDonalds e Starbucks.

Esses dias acabaram, especialmente no Reino Unido, quando poucos anarquistas se dispuseram a viajar para Hamburgo para participar dos protestos do G8 em junho. “Protestar cúpulas” não está mais no topo da lista da agenda anarquista.

(Foto por Henry Langston.)

O ativismo ambiental também decaiu, mesmo com o mundo sendo literalmente destruído por lucro. Os Acampamentos Climáticos que aconteceram alguns anos no final dos 00 não passaram para a década seguinte, parcialmente porque lutar contra a austeridade se tornou o principal foco para a maioria dos ativistas ingleses. Dito isso, campanhas contra o fracking vêm dando novo gás ao ativismo ambiental.

Mulheres e minorias étnicas são a base do ativismo no Reino Unido muito antes de eu nascer, mas suas contribuições muitas vezes são ignoradas e apagadas. Isso começou a mudar como resultado da ascensão do feminismo interseccional, uma forma de feminismo que reconhece que há múltiplas formas de opressão que se cruzam. Embora essa tendência tenha sido ridicularizada pela alt-right como guerreiros da justiça social (SJW em inglês) e “flocos de neve”, ele mudou o rosto do ativismo para melhor. Lembro que mulheres envolvidas com o movimento antiglobalização pareciam estar sempre desaparecendo, e depois eu descobria que elas tinham sido assediadas ou agredidas sexualmente por homens do movimento. Agora parece que são os homens que não respeitam mulheres que estão sendo encorajados a sumir.

Vista do topo do quartel-general do Partido Conservador em Millbank (foto by Henry Langston).

Quando milhares de estudantes invadiram o quartel-general do partido conservador britânico em Millbank em 2010, isso gerou uma onda de protestos e ações que dominariam o ativismo no Reino Unido nos anos seguintes. Protestos estudantis e a batalha contra a austeridade marcaram uma mudança significativa no ativismo. Os protestos agora tendem a ser sobre coisas que tem um impacto real no cotidiano das pessoas, como habitação, violência policial, salários e condições de trabalho, não conceitos abstratos como capitalismo e globalização. A ideia de que podemos fazer o mundo melhor voando pela Europa para participar de protestos violentos na porta das reuniões dos ricos e poderosos parecer ter morrido, provavelmente para o bem.

Mas ainda há muito a se aprender com o movimento antiglobalização. Muito esforço entrava na organização e promoção dos protestos. Os ativistas antiglobalização foram os primeiros a usar a internet. Hoje em dia, as pessoas tendem a promover um protesto criando um evento no Facebook e tuitando sem parar sobre ele para seus 250 seguidores. Nos anos 00, sites inteiros eram criados com informações sobre por que o protesto ia acontecer, onde as pessoas podiam ficar, dicas de segurança nas manifestações — praticamente tudo que você precisava saber para se juntar ao movimento. Adesivos e cartazes eram colocados por toda a cidade com o endereço do site. Era muito trabalho mas os resultados eram muito mais eficazes.

Quando eu estava protestando contra as guerras que Blair começou, o Partido dos Trabalhadores era visto como um inimigo. Em parte porque Jeremy Corbyn [deputado há mais de 30 anos e líder do Partido Trabalhista] estava nos protestos mais recentes, muitos ativistas hoje subiram no bonde eleitoral do partido. Isso pode dar em duas coisas. Se levar a uma nova geração de ativistas aprendendo o que realmente importa para as pessoas — ir de porta em porta em vez de ocupar um prédio perto de uma cúpula — então pode não ser um desastre. Ou pode acontecer de o Partido Trabalhista sugar um monte de ativistas esperançosos tentando fazer um mundo melhor e os transformar nos Blairistas de olhar vazio do futuro.

@jdpoulter

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