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Sexo

Minha criação evangélica quase acabou com a minha vida sexual

Uma ex-evangélica conta como a "cultura da pureza" fez com que ela e outras mulheres desenvolvessem pavor de sexo e transtornos mentais.

por Josiah Hesse; Traduzido por Marina Schnoor
07 Novembro 2018, 6:54pm

Pai e filha num baile da pureza em Colorado Springs, Colorado, 2008. Foto por Marvi Lacar/Getty Images.

Na década de 1990, garotas adolescentes evangélicas recebiam uma mensagem muito confusa: se for virgem quando se casar, você vai ter uma vida sexual muito melhor. Castidade feminina sempre foi um tropo opressivo do Cristianismo, mas nos EUA do final do século 20, toda uma indústria de livros, convenções, “anéis de pureza” e bailes estranhos de pais e filhas emergiu, celebrando as virtudes da abstinência feminina – e os perigos da sexualidade para mulheres.

Conhecida hoje como “cultura da pureza”, isso era um sistema meticulosamente criado de regras e jogos mentais visando conter a libido de adolescentes cristãs. Um dos livros mais populares desse fenômeno, I Kissed Dating Goodbye, já foi reconhecido pelo próprio autor, Joshua Harris, como uma contribuição para o trauma psicológico em uma geração de leitoras.

Quando Linda Kay Klein era uma adolescente crescendo no meio oeste dos EUA nos anos 90, ela estava completamente saturada na cultura da pureza, onde o mais simples pensamento, sensação ou toque de um garoto não só podia destruir o valor próprio dela, mas ameaçar o valor próprio dele.

“Na cultura da pureza, as garotas geralmente são vistas como se incitassem escolhas sexuais nos outros, pelo jeito como se vestem, como andam e como falam”, Klein diz hoje, refletindo sobre sua infância. “Então as garotas podem ser criticadas não só por seu próprio comportamento sexual, mas também pelo comportamento que podiam incitar em homens e garotos da comunidade.”

Enquanto Klein e outras meninas foram ensinadas que qualquer pensamento, sensação ou ação sexual pré-marital eram manifestações de uma influência pecaminosa satânica (seus cérebros adolescentes associando permanentemente sexo com destruição), elas também ouviam incessantemente que se continuassem virgens em todos os sentidos, suas camas de casal seriam um paraíso sexual, satisfazendo completamente os dois parceiros.

Acontece que quando você diz para meninas que seus corpos são campos minados turbulentos e imprevisíveis de pecado, isso pode levar a uma vida sexual nada saudável quando elas forem adultas.

No final de sua adolescência, a visão de mundo de pureza de Klein implodiu com um escândalo sexual envolvendo o pastor jovem de sua igreja e uma jovem congregante. Mesmo depois de fugir da cultura evangélica para estudar numa faculdade de artes liberal, Klein descobriu que o mundo de vergonha e misoginia de que ela tinha escapado geograficamente ainda estava marcado em sua mente.

Ataques de ansiedade, paranoia, se coçar até sangrar e até fazer testes de gravidez (quando ela ainda era virgem), consumiam Klein até o ponto do desespero. O único consolo que ela encontrou foi se conectar com outras sobreviventes da cultura de pureza, cujas histórias de vergonha sexual espelhavam as dela, a levando por uma jornada de 12 anos de entrevistas, terapia e eventualmente um livro de memórias, PURE: Inside the Evangelical Movement that Shamed a Generation of Young Women e How I Broke Free [PURA: Por Dentro do Movimento Evangélico que Humilhou uma Geração de Jovens Mulheres e Como Escapei, sem tradução].

Falei recentemente com Klein sobre seu novo livro, o movimento de cura entre as sobreviventes, e o papel da cultura da pureza nas audiências de Kavanaugh.

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VICE: Energia sexual parece quase inevitável dentro do corpo de qualquer pessoa jovem, então como foi a sua experiência crescendo na cultura da pureza?
Linda Kay Klein: Enquanto eu me desenvolvia como uma pessoa sexual, experimentei medo, vergonha e ansiedade sexuais tremendos. Mas me disseram que isso era OK, porque sexualidade era algo vergonhoso, de que você devia ter medo e ficar ansiosa.

Então eu achava que se me sentia ansiosa, era porque estava em pecado. Depois que me tornei adulta, deixei a comunidade evangélica e rejeitei as mensagens de vergonha sexual. Com 20 e poucos anos, eu ainda era assombrada por vergonha e medo sexuais profundos, que acabaram controlando minha vida.

"A ansiedade era implacável, e o único jeito de controlar minha respiração era fazendo um teste de gravidez – mesmo não tendo feito sexo"

O que aconteceu quando você se tornou adulta e decidiu que queria fazer sexo?
Quando eu chegava perto de fazer sexo, o medo se tornava insuportável. Eu acabava tendo o que meu namorado chamava de “surtos”. Eu tinha 20 e poucos anos, um namorado de muito tempo que eu amava, e ainda assim, se chegávamos perto de fazer sexo, eu começava a surtar. Também tenho eczema, que fica pior com o stress, então quando eu chegava perto de fazer qualquer coisa sexual, eu começava a me coçar até sangrar, ficava uma pilha, chorava. O que definitivamente acabava com o clima.

A ansiedade era implacável, e o único jeito de controlar minha respiração era fazendo um teste de gravidez – mesmo não tendo feito sexo. Eu precisava de um sinal externo que dissesse: "a comunidade que você deixou, mas ainda está desesperada para agradar, não vai descobrir como você chegou perto de perder sua pureza – que significaria perder seu valor aos olhos dela".

Você passou 12 anos entrevistando várias mulheres que também cresceram na cultura da pureza. O que você aprendeu com isso que não sabia na sua própria experiência?
A principal coisa que descobri é que não estava sozinha. Por muito tempo pensei que eu estava arruinada, que nunca teria um relacionamento saudável, e quando comecei a falar com garotas que cresceram no grupo jovem da minha igreja, e elas me contaram que estavam passando pelo mesmo que eu, foi um momento de a-há, porque elas me contaram o que estavam pensando e sentindo na época, e isso espelhava minhas experiências. E essas histórias me fizeram perceber que eu não estava sozinha. Não só isso, mas perceber que o que eu estava experimentando não era culpa minha – não era meu pecado, minha psicose. Era algo que me foi ensinado que estava causando minha ansiedade.

Quando comecei a fazer as entrevistas, falei com algumas amigas da minha cidade que tinham crescido na mesma cultura de pureza que eu, mas acabei falando com pessoas do país inteiro. Algumas delas ainda eram virgens e estavam comprometidas a viver uma vida sexualmente pura, em alguns casos elas nem beijavam, porque estavam guardando isso para o altar. Algumas eram casadas e tinham esperado para fazer sexo depois do casamento. E ainda assim muitas delas, quer continuassem sendo evangélicas ou tivessem deixado a igreja, casadas, solteiras, fazendo sexo ou praticando abstinência, todas experimentavam a mesma vergonha, medo e ansiedade sexual que eu. E também estavam experimentando manifestações físicas dessa ansiedade, de um jeito que lembrava transtorno de estresse pós-traumático.

"Minha experiência de começar a chorar sempre que me aproximava do sexo também era muito comum entre elas"

Como era essa experiência para elas?
Algumas tinham uma ansiedade discreta que seus amigos e a família não percebiam. Algumas eram incapazes de fazer sexo com os maridos. Algumas foram hospitalizadas por ataques de pânico com associação ao sexo. Algumas pessoas tinham encontros e se sentiam paranoicas de que estavam sendo seguidas, com medo de que alguém descobrisse que elas eram criaturas sexuais. Ou vasculhavam suas casas procurando aparelhos de gravação, com medo de que seu casamento estivesse sendo observado e descobrissem que elas estavam transando.

Minha experiência de começar a chorar sempre que me aproximava do sexo também era muito comum entre elas. Assim como o teste de gravidez entre pessoas que não estavam fazendo sexo. E elas também tinham os mesmos pensamentos que eu, que eram as únicas pessoas experimentando isso, que devia ser culpa delas porque elas tinham pecado. E quando eu dizia que elas não eram as primeiras pessoas me contando essa história, que eu também passei por tudo isso, assim como outras, dava para ver no rosto elas começando a separar a si mesmas do que estavam experimentando. Eu ouvia na voz delas que elas tinham descoberto uma coisa: não sou o problema, o problema é o que me ensinaram.

"Eu ouvia na voz delas que elas tinham descoberto uma coisa: não sou o problema, o problema é o que me ensinaram"

Uma pesquisa recente mostrou que 48% dos evangélicos brancos gostariam de ver Brett Kavanaugh nomeado para a suprema corte, mesmo se ele tiver cometido o abuso sexual de que é acusado. Para você, parece que a cultura evangélica julga mais a sexualidade feminina que homens que estupram?
Essa estatística é muito triste, e mesmo assim, não estou tão surpresa quanto gostaria. Quando era menina, lembro de me ensinarem que homens e garotos são sexualmente fracos, que somos menos sexuais que eles, então era nossa responsabilidade “proteger nossos garotos” nos vestindo, andando, falando e fazendo tudo mais do jeito certo, para garantir que eles não tivessem nenhum pensamento sexual ou tomassem qualquer ação sexual fora do casamento.

Se uma atividade sexual consensual acontecia, garotos e homens eram tratados como se tivessem sido os prejudicados, enquanto as garotas e mulheres eram tratadas como se tivessem errado. Violência sexual nunca era mencionada. Quando minhas entrevistadas tinham passado por isso, elas me disseram que a questão era abordada como se tivesse sido sexo consensual. Ouvi muitas histórias de homens confessando que tinham cometido violência sexual e a igreja os tratando como se eles tivessem sido levados a isso, cedido momentaneamente a sua fraqueza, em vez de terem cometido um crime que pode traumatizar alguém para o resto da vida. Também ouvi muitas histórias de sobreviventes sendo considerada pelo menos parcialmente responsáveis pela violência que sofreram. Por exemplo, uma das minhas entrevistadas me disse que a primeira pergunta que seu pai pastor fez a ela quando ela contou que tinha sido estuprada coletivamente foi “O que você estava vestindo?”

O jeito como o Dr. Blasey Ford tem sido tratado por muitas pessoas é muito familiar. Esse tratamento diz para jovens mulheres e outros sobreviventes: “Se você dar queixa do que aconteceu, muitas pessoas não vão acreditar em você, e na verdade você será humilhada e atacada”. E a estatística de que você mencionou diz a elas: “Mesmo se você provar que o que disse é verdade, muitas pessoas não verão isso como um problema grande o suficiente para mudar alguma coisa”.

E, infelizmente, a realidade é que muitos sobreviventes que falam abertamente sobre o que passaram sabem disso. Mas dão queixa mesmo assim, porque também sabem que é assim que você cria mudança, que quanto mais histórias são contadas, mais difícil é negá-las. E que, num nível pessoal, contar sua história é um passo para a cura. Quanto mais contamos essas histórias, menos poder elas têm sobre nós, e menos poder as vozes que querem nos silenciar terão sobre nós.

Depois de lançar esse livro para um público secular e fazer entrevistas com pessoas que não cresceram nessa cultura, você viu as pessoas ficarem chocadas que isso aconteça na casa de milhões de americanos?
Muita gente ficou surpresa, mas geralmente, quando entro nos detalhes da cultura, muita gente percebe que também aprendeu a associar medo, vergonha e ansiedade com o sexo.

Há esse choque com quão extremo e sem desculpas essas coisas são discutidas dentro da cultura da pureza – mas quando nos aprofundamos nisso, muitas mulheres foram criadas com a mesma mensagem central: você é pura ou impura, digna de amor ou impossível de amar, com base na sua vida sexual. É algo que nossa sociedade ensina, além da cultura evangélica. Ensinamentos sobre pureza estão por toda parte, só recebem um nome diferente. Desequilíbrio entre os gêneros e controle sexual são questões globais, e também têm raízes na cultura americana. São apenas coisas exacerbadas no movimento da pureza.

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