Perguntamos a casais por que eles abriram seu relacionamento

De ter um micropênis a viver em continentes diferentes, casais não monogâmicos responderam as perguntas que os amigos têm vergonha de fazer.

por Mica Lemiski; Traduzido por Marina Schnoor
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31 Maio 2017, 10:00am

Passe por algumas bios do Tinder e logo você vai ler algo do tipo "estou num relacionamento, mas querendo me divertir!" Ou um subtexto não tão sutil, tipo "tenho um parceiro, mas temos um relacionamento aberto, então vamos transar."

Um em cada cinco norte-americanos diz que já esteve num relacionamento aberto em algum ponto de sua vida romântica. Mas o que esse "aberto" quer realmente dizer? E como essa conversa surge? Com certeza não é tão simples quanto pausar o Netflix e perguntar "então, você quer sair com outras pessoas?"

Ou será que é?

Para descobrir, a VICE falou com três casais sobre por que eles escolheram a não monogamia, que regras — se há alguma — estão envolvidas e por que isso funciona para eles.

Kasara, 24 anos, e Chris, 23

VICE: Há quanto tempo vocês estão juntos?
Chris: Fazemos três anos em outubro.

E qual a história original de vocês como casal?
Kasara: Na verdade nos conhecemos no Tinder. Naquela primeira noite, tomamos alguns drinques e fomos para a casa dele. Eu não esperava ter notícias dele depois disso, mas aí começamos a nos ver sempre. Chamávamos o que a gente tinha de "fucklationship", porque não conhecíamos termos como relacionamento aberto ou não monogâmico.
Chris: Eu queria só relaxar e curtir naquele ano em que conhecia a Kasara, porque eu não estava me divertindo muito com a minha ex.
Kasara: Eu também tinha saído de um relacionamento quando nos conhecemos, então eu gostava de manter o elemento casual. Aí, quando o Chris foi para a Austrália pela primeira vez — ele volta para visitar sua família periodicamente — acabei conhecendo alguém por quem desenvolvi sentimentos. O nome dele era Yanis, mas falei com o Chris sobre isso e ele disse: "é, tudo bem". E assim a gente foi de uma situação de relacionamento aberto para uma coisa mais poliamorosa.
Chris: Inicialmente foi um pouco estranho ela sair com o Yanis, porque eu estava longe e sentindo muita falta dela, mas também fiquei muito feliz por ela ter encontrado alguém que a fazia tão feliz quanto eu. Isso realmente abriu meus olhos sobre como fazer conexões com outras pessoas pode beneficiar um relacionamento. Quer dizer, eu não tive nenhuma conexão emocional com outra pessoa ainda, mas já tive bons encontros e "quases". Não é algo com que me preocupo muito. Estou bem contente como estou e com o que estou fazendo.

O que seus amigos e família pensam sobre seu relacionamento?
Kasara: Quando eu estava saindo com o Yanis, convidei ele para ir à minha casa enquanto o Chris estava na Austrália. Mas eu ainda estava morando com meus pais, então minha mãe me puxou de lado e disse "Você e o Chris vão morar juntos logo! Como você pode fazer isso com ele?!" E eu disse a ela que não tinha problema e que tínhamos concordado com essa situação. Então meus pais sabem, acho, mas nunca falam sobre isso.
Chris: Uma das piores experiências foi quando decidimos nos definir como poliamorosos. Foi uma fase chata na qual eu queria contar isso para todo mundo, então mencionei o assunto com meu time de vôlei e eles me zoaram sem dó. Eles disseram coisas como "Ela vai sair por aí transando com outros caras e tudo bem pra você? Você não tira nada disso". Tentei explicar que não era assim que funcionava, mas eles nunca aceitaram. Para eles, era só uma coisa estranha e engraçada que eu estava fazendo.
Kasara: Sim, quando conto para outros caras sobre meu relacionamento, assistir a cara que eles fazem enquanto lidam com isso é hilário. Eles fazem uma cara de reflexão e depois dizem "Ahh, então você e seu namorado não estão transando" e eu digo "Não, estamos sim". Aí eles fazem uma pausa e dizem "Ahh, então é uma coisa de conveniência". E eu digo "não!". Então é sempre engraçado.

Por que um relacionamento poliamoroso é a melhor escolha para vocês?

Kasara: Levei um tempo para perceber, mas não sou uma pessoa monogâmica. Sempre consegui ter sentimentos por outras pessoas. Acho que ciúme não deveria ser perpetuado como a norma para os relacionamentos, como é com a monogamia.

Chris: Penso do mesmo jeito. Nunca colocamos limites nas emoções que não são o amor, não dizemos que você só pode ficar triste e feliz com uma coisa, mas na monogamia é como se só uma pessoa tivesse permissão para sentir seu amor. E amor é uma emoção tão louca, então por que não experimentar isso com várias pessoas? Poliamor é legal, gente! Não somos esquisitos.

*Lyndsay, 24 anos, e Tyler, 24

VICE: Quando a discussão de "relacionamento aberto" começou para vocês e por quê?
Lyndsay: Eu diria que foi depois de dois anos juntos, agora estamos namorando há cinco. Ele se abriu e disse que se eu quisesse transar com outro cara, tudo bem. Porque ele tira tanto prazer do meu corpo — meus peitos são enormes —, mas não consegue ter a mesma performance de alguém com um pênis maior.
Tyler: É. Estávamos passando por alguns problemas no nosso relacionamento porque ela não estava satisfeita sexualmente. Tenho um micropênis, não tem muita coisa com que trabalhar, então senti que não podia dar a Lyndsay o tipo de prazer que ela era capaz de sentir. E quero o melhor para ela, então começamos a falar sobre alternativas.
Lyndsay: Primeiro falamos sobre usar brinquedos para aumentar meu prazer, mas um pênis de plástico não é a mesma coisa que um de verdade! E descobrimos que os mais realistas tinham, tipo, uns 20 centímetros, e eu não ia aguentar isso. Ir de um micropênis para um consolo gigante não ia funcionar.
Tyler: Pensei que nada seria melhor para ela que a coisa real. Ela merece ter o mesmo tipo de prazer que tenho com ela. Por que não deixar ela ter o melhor?

Muito generoso. Mas tem um elemento de sacrifício aí? Ter um relacionamento aberto só por um lado não cria um tipo de desequilíbrio?
Lyndsay: Sinto um pouco de medo e culpa só de pensar em transar com outra pessoa, mesmo isso sendo algo que o Tyler realmente quer. Tipo, ele quer que eu tenha esse prazer. Na verdade, eu ainda não transei com mais ninguém.

Ah, então é mais uma fantasia neste ponto? Vocês estão abertos a serem abertos?
Lyndsay: Sim. Porque não quero transar com alguém e depois sentir vergonha. No momento estamos mais interessados na ideia. Estamos criando cenários e jogando com a ideia.

E quão importante é "consumar" essa fantasia?
Tyler: Para mim, desde que ela esteja feliz, não me importo se aconteça ou não. Acho que ela tem que aproveitar se realmente tentar. Tenho muitas esperanças de que ela consiga fazer isso.

Vocês acham que tem um aspecto kink aí? Tipo uma fantasia de corno...
Tyler: Comecei a pensar nisso quando tinha uns 16 anos. Eu tinha uma amiga colorida que era fascinada pelo meu micropênis, porque nunca tinha visto um como o meu. Ela fazia sexo com outros caras, mas sempre voltava para mim. Não fazíamos sexo realmente, mas ela me fazia boquetes e tudo mais, porque gostava de mim e queria ficar comigo. Então acho que isso me abriu para a possibilidade do relacionamento aberto.
Lyndsay: Na verdade, preguei uma peça nele uma vez, dizendo que estava prestes a transar com alguém. Eu estava no aeroporto e mandei mensagem para o Tyler dizendo que tinha encontrado um cara para fazer isso.
Tyler: E eu fiquei muito empolgado por ela, porque sabia que seria uma nova aventura. Acho que ter esse tipo de aventura sexual na sua vida pode ser muito bom. Já tive algumas na minha vida e quero que a Lyndsay tenha também, mas o problema é que não tenho uma performance que permite isso. Então sim, quando ela me mandou mensagem dizendo que ia transar no banheiro do aeroporto, na verdade fiquei muito feliz.

Você não se sente ciumento ou inseguro com isso?

Tyler: Me sinto confortável comigo mesmo, então só fiquei empolgado mesmo. Me aceito do jeito que sou. Ainda temos uma boa vida sexual, independente do meu tamanho.

Daniel, 42 anos, e Regina, 39

VICE: Há quanto tempo vocês estão juntos?
Regina: Estamos juntos há seis anos e meio, e casados há quatro.

Há quanto tempo vocês têm um relacionamento aberto? E como tomaram essa decisão?
Daniel: Regina e eu ficamos juntos exclusivamente por um ano, antes de começarmos a frequentar festas com outros casais. Somos swingers.
Regina: Mas logo no começo, discutimos coisas como nossas histórias sexuais e de relacionamentos. Ele já tinha sido casado, eu também, e já tínhamos saído com várias pessoas ao mesmo tempo. Numa era de Tinder e sites de encontro – que foi como nos conhecemos – você pode sair com várias pessoas simultaneamente e não é necessariamente como se você fosse não monogâmico, mas sim não exclusivo, e sinto que isso é quase um precursor para eventualmente ser não monogâmico.

O que atraiu vocês para o estilo de vida do swing?
Daniel: Uns cinco anos atrás, minha ex-mulher disse que tinha se apaixonado por outro homem. Mas ela me ensinou a lição mais profunda: não importa quem você seja, seu parceiro pode acordar um dia e se apaixonar por outra pessoa. E isso não é culpa de ninguém. Percebi que meu próximo relacionamento precisava ser aberto porque eu não tinha mais o desejo de controlar minha parceira. E controle é apenas uma ilusão.
Regina: E para mim, sexo nunca foi uma grande problema. Nunca tive nenhuma experiência sexual ruim, felizmente. Para mim, conhecer novas pessoas é excitante, não tenso ou assustador. Então o swing pareceu a escolha certa.

Existe infidelidade num relacionamento aberto?
Regina: Sim. Se você cruza um limite que vocês dois tinham concordado, isso seria muito ruim.

Então quando vocês estão no mundo ou numa festa de swing, como é seu processo de seleção? Vocês dois têm que concordar com uma determinada pessoa?
Regina: Na verdade, posso te dar um exemplo da outra noite. O Daniel foi para um bar e uma garota perguntou pra ele "O que você faria comigo se pudesse?" E ele não sabia o que dizer! Aí ele me mandou uma mensagem dizendo "ela quer saber se tenho seu consentimento". Essa mulher estava pedindo minha permissão para transar com meu marido! E eu respondi "só se você realmente estiver interessado nela". Então liguei para ele no dia seguinte e disse que precisava de atenção. Eu disse "Só quero que você diga, honestamente, que se divertiu muito ontem, mas que ninguém se compara a mim". E ele riu e disse "Meu deus, claro. Mal posso esperar para chegar em casa". E esse é o ponto crucial. Depois de ouvir ele dizer isso, ouvir o tom de voz dele, foi a coisa mais honesta e carinhosa que já me disseram. Estava tudo certo.
Daniel: Exato. Fazemos swing porque é uma grande adição às nossas vidas, não porque sentimos falta de alguma coisa um com o outro. Tudo isso é um bônus. Swing é apenas outro benefício.

*Os nomes foram mudados.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Canadá.

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