Noisey

O tiro do "fator choque" de Nog saiu pela culatra

O verso do rapper do Costa Gold no novo disco do Xamã chamou atenção, mas não por flow ou caneta: por ser apologia ao estupro.

por Amanda Cavalcanti
23 Maio 2018, 8:27pm

Na faixa "Kill You", de 2000, Eminem disse: "Shut up slut, you're causin' too much chaos / Just bend over and take it like a slut, okay Ma? / 'Oh, now he's rapin' his own mother, abusing a whore, / snorting coke, and we gave him the Rolling Stone cover?' / You goddamn right / Bitch, and now it's too late." ("Cale a boca, vadia, você está causando muito caos / Apenas se incline e aguente como uma vadia, ok mãe? 'Oh, agora está estuprando sua própria mãe, abusando de uma vadia / cheirando cocaína, e nós o demos uma capa na Rolling Stone?' / Você está certa / Vadia, e agora é tarde demais.")

Dez anos depois, em "Epar", faixa do Earl Sweatshirt, Vince Staples manda os versos: "She's kicking and screaming, begging for me to fucking stop it / Look, you know it's not rape if you like it, bitch / So sit down like a pretty ho and don't fight the shit / Or else I'll have to tie a pretty bow 'round your bloody neck." (Ela está chutando e gritando, me implorando pra parar / Olha, você sabe que não é estupro se você curtir, vadia / Então sente-se como uma boa piranha e não lute contra / Se não terei que amarrar um lenço bonito ao redor do seu pescoço sangrento.")

Desde esta terça (22), o verso de Nog, do Costa Gold, no novo disco do Xamã chamou atenção pelo seu envolvimento no mesmo tema presente nas frases de Vince e Eminem acima: o estupro. Na faixa "Preguiça", Nog declara "Agora olha só como eu virei perigoso / Xamã com Costa Gold nesse beat loco / Tira o sono / Deixa ela dormir que se ela vira eu como / Boto o cano na goela e atiro o gozo."

O fator de choque que essas letras causam no público, principalmente no horrorcore, gênero que surgiu durante os anos 1980 e foi explorado tanto por Eminem quanto por Earl Sweatshirt no início de suas carreiras, era um artifício muito usado por rappers para descrever cenas dignas de filmes de terror em suas faixas, de modo a tornar seu som quase incômodo. Nesse caso a arte imitou a vida, e a aparição de descrições de violência contra a mulher ficaram cada vez mais frequentes principalmente por causa do Eminem, cujo alter ego Slim Shady se definia pela misoginia profunda, em especial o ódio por sua própria mãe.

Não é a primeira vez que Nog tenta utilizar do artifício de choque para engrossar sua voz de autoproclamado gangsta nas letras do Costa Gold — e falha miseravelmente. O rapper já fez menção a pegar DSTs de "vadias" ("O rap tá virando pique-nique / De filha da puta, e buceta / E de brinde sífilis") em pelo menos algumas dezenas de músicas (o que rendeu até bons memes), além de se gabar de "com dez anos já dar cantada até na empregada." Ou seja, um papo que se pretende gangsta e chocante, mas acaba saindo o maior atestado de playboy possível.

A mesma coisa acontece com "Preguiça", agora já fora do ar. É impossível ter certeza de que Nog realmente pretendia fazer uma apologia ao estupro com as letras do som, mas o que é fácil de afirmar é que esses versos foram escritos do jeito mais descontextualizado e solto possível, sem dar qualquer margem à interpretação de que o rapper pretendia, além de talvez angariar (mais) fãs bolsominions, só causar espanto ou então descrever uma cena chocante e violenta numa faixa — que é, inclusive, tão fundada no bragadoccio mal feito e ego inflado quanto todas as suas outras.

escrevi anteriormente sobre interpretar quaisquer falas ou imagens em obras de arte e entretenimento como se estivessem sido faladas literalmente ou fossem automaticamente apologéticas só por estarem citando crimes ou comportamentos condenáveis. Continuo achando que esse pensamento não pode ser aplicado deliberadamente, mesmo no caso de Nog. O perigo, porém, é abrir possibilidades de ser mal interpretado ao colocar uma frase que descreve um estupro sem qualquer preocupação de construir um eu lírico e um pensamento mais complexo por trás de uma imagem tão violenta.

Ao colocar a questão de forma simplista em meio ao seu bragadoccio, Nog coloca em risco que esse discurso seja mal interpretado e passado a frente pelos ouvintes — especialmente aquela fiel base de fãs mais jovem, ali pelos 14 anos —, transformando seu som, que tinha um potencial de ser ao menos interessante, em mero disseminador de um pensamento machista e prejudicial.

Ah, fora o lance forçar a barra pra ser o Eminem brasileiro em 2018. Acho que já passamos dessa fase, né?

Leia mais no Noisey , o canal de música da VICE.
Siga o Noisey no Facebook e Twitter .
Siga a VICE Brasil no Facebook , Twitter, Instagram e YouTube .