As fotos de Alice Mann expõem a magia das jovens balizas da África do Sul

'Drummies' mostra um mundo onde jovens mulheres podem desafiar estereótipos e criar espaços positivos para si mesmas.

por Sarah Moroz; Traduzido por Marina Schnoor
04 Outubro 2018, 10:00am

Todas as fotos por Alice Mann.

O trabalho de Alice Mann é guiado pelo seu interesse em raça e comunidade. A nova série da fotógrafa sul-africana, Drummies, documenta jovens balizas com imagens que destacam o comprometimento das meninas com o atletismo e sua comunidade. Muitas membros do time, com idades entre cinco e 18 anos, vêm de lares pobres, mas seu envolvimento no esporte fornece estrutura, foco e uma mobilidade por meio de bolsas de estudos e turnês nacionais. Com uniformes de cores vibrantes bordados com lantejoulas, o olhar delas comunica determinação, disciplina e confiança – uma exibição emocionante de amor-próprio que desejamos para todas as meninas.

Drummies é a última série do portfólio de Mann focado em subculturas que afirmam de maneira positiva uma identidade coletiva. Ela já documentou membros do La Sape d'Europe, um grupo congolês que usa a moda como um meio de empoderamento, e capturou os visuais coloridos de domingo da congregação Igreja Metodista Walworth em retratos de estúdio. Ela fotografou membros de sua própria comunidade suburbana de classe alta na Cidade do Cabo e as trabalhadoras domésticas que cuidam de suas casas: as metades fornecendo uma poderosa desconstrução das dinâmicas raciais pós-apartheid. Ela recentemente foi anunciada como uma das finalistas do Taylor Wessing Photographic Prize de 2018.

Falamos com a fotógrafa sobre carisma natural diante da câmera, o poder do uniforme e dar a jovens mulheres o crédito que elas merecem.

As balizas têm de cinco a 18 anos... Trabalhar com esse espectro de idades significa níveis diferentes de constrangimento na frente da câmera?

Isso é interessante. A primeira escola em que trabalhei era de ensino fundamental: meninas de cinco a 13 anos. Trabalhar com as mais novas foi o motivo para começar o projeto. Tinha uma garotinha de cinco anos... Ela era muito sensacional. Nem precisei dar nenhuma direção; ela sabia exatamente o que queria fazer e como queria ser fotografada. Ela era muito confiante e tinha um senso muito claro de si mesma. Ver isso numa pessoa tão jovem! Trabalhar com crianças pode ser incrivelmente desafiador. Há pequenas coisas que você sempre pode fazer para melhorar uma imagem como fotógrafo, mas gosto que as pessoas sintam que há um espaço onde elas podem projetar o que querem. Fiquei muito impressionada com o senso de identidade dessas meninas tão novas. Percebi que se envolver nesse esporte melhora a confiança das garotas – elas se tornam muito empoderadas com isso.

A parte da moda parece ter um papel importante no seu trabalho. Como isso muda quando você está fotografando temas em uniformes?

Trabalho para destacar situações em que as pessoas se sintam confiantes. Gosto que as pessoas vejam as imagens que criei com elas e sintam que um momento positivo foi capturado – que sintam orgulho da imagem. Os uniformes que essas garotas usam aqui, para elas, ser uma baliza se torna uma identidade, uma identidade muito positiva, e o uniforme representa isso. Inicialmente também as fotografei com roupas normais, mas percebi que, quando estavam usando os uniformes, elas inconscientemente mudavam a linguagem corporal. Elas ficavam paradas de queixo erguido e ficavam dando chutes altos com as botas [ risos]. É como se elas fossem as garotas mais populares da escola.

Como você equilibra retratos introspectivos e cenas em grupo?

Sempre me foquei em retratos formais. Com esse trabalho, foi a primeira vez que tentei expandir isso e criar imagens com um estilo mais documental. Expandir a narrativa é uma coisa boa; ter retratos formais combinados com coisas que estavam acontecendo naturalmente foi um jeito de tentar fazer isso. Me sinto, literalmente, honrada de poder trabalhar com elas. Elas são jovens mulheres incríveis. Acredito que a fotografia é uma coisa subjetiva – gosto de pensar que meu respeito e afinidade com as pessoas que trabalho aparecem no resultado final.

A série ainda está em andamento. Na verdade vou voltar semana que vem e fotografar em outra província: essas imagens são da Cidade do Cabo, na próxima vou fotografar em Joanesburgo. Quero mostrar como em todo o país o esporte afeta as meninas de um jeito positivo. Trabalhei com seis escolas e assisti algumas competições – viajando com as alunas no ônibus delas, vendo-as se arrumar. As competições são uma loucura: uma foi num estádio gigante com milhares de pessoas, com churrasco acontecendo na beira do campo. É como uma excursão de um dia. É muito legal ver todo o apoio por trás dessas meninas porque muitas vezes, jovens mulheres e seus direitos não são enfatizados.

Como você sabe que um tema é algo com que você quer se comprometer a longo prazo?

Todos os meus trabalhos são bastante intencionais. Gosto de planejar – não saio por aí com uma câmera. Quando descobri as balizas, fiquei cativada por elas e sabia que, se pudesse, eu queria investir nesse projeto. Quando começo a trabalhar em alguma coisa, faço isso por alguns anos. É importante que as pessoas se sintam completamente confortáveis quando trabalho com elas. No trabalho de todos os fotógrafos que gosto, você vê a evolução do relacionamento entre as pessoas e o fotógrafo.

Que fotógrafos você citaria que possuem esse relacionamento evidente com as pessoas?

Gosto muito de Donna Lixenberg, o projeto Imperial Courts é de puro amor, voltando várias vezes e registrando as pessoas envelhecendo. Tem um fotógrafo francês que expôs em Arles ano passado que está passando muito tempo com uma família: Mathieu Pernot. Esse tipo de coisa que é um pouco sentimental...

Como você constrói essa ternura interpessoal?

Muitas vezes, passo bastante tempo com as pessoas antes de trazer a câmera. Quando estou trabalhando, algumas pessoas querem ser fotografadas, e outras podem ser meio tímidas – não tento construir coisas que não estão ali. Trabalho com as pessoas do jeito que elas querem. E gosto de fazer as coisas de maneira muito colaborativa – é mais um diálogo. É muito importante para mim que as pessoas dirijam a si mesmas, especialmente com retratos. É mais pegar as coisas onde elas já estão e enfatizar aquele momento, em vez de criar algo que não está lá. Também é muito importante para mim, sendo uma fotógrafa branca na África, que haja um relacionamento. Não quero só fazer o trabalho e ir embora com as fotos. É importante para mim estar sempre voltando, e dar essas imagens para as pessoas – um envolvimento sustentado.

Há uma discussão aberta sobre raça com as meninas?

Estou sempre muito consciente da minha posição como fotógrafa branca. Como qualquer fotógrafo trabalhando com pessoas, nossa posição é muito importante. O que isso significa em relação às pessoas com quem você está trabalhando? Por isso tento colaborar bastante, em vez de só chegar e dirigir. Quero que as pessoas sintam que há um espaço em que elas podem me mostrar o que querem, em vez de eu mostrar algo que vejo. Não discuto raça – não com todos os treinadores por perto – mas sou muito aberta sobre minha posição e o que isso significa. Acho que é sempre uma coisa para se negociar. Para mim, é uma abordagem: como você está se envolvendo? É isso que tento levar em conta. Como você trabalha com os temas é fundamental.

Atualmente você está morando em Londres, mas você diria que a África do Sul é intrínseca para o seu trabalho?

Fiz um projeto bem longo – que também acho que vou continuar em breve – com congoleses na França e Reino Unido. Mas foco muito na África do Sul. Sou sul-africana, cresci lá, e tenho um insight do espaço. Mas agora estou no Reino Unido, então posso ver como um público ocidental vê a África do Sul – que muitas vezes é uma visão estereotipada, unidimensional e negativa. Sempre me perguntam sobre crime, por exemplo. A ideia que as pessoas têm do país e do espaço é muito distorcida – particularmente das mulheres sul-africanas e mulheres não-brancas. Elas são vistas como vítimas, sem agência. Claro que isso tem uma história muito complexa. Acho que há muitas falhas, e tento criar representações com nuances, para mostrar realidades alternativas e desafiar esses esteriótipos. Quis desafiar isso em particular com esse projeto. Há jovens mulheres criando um espaço positivo para si mesmas na África do Sul.

Esta matéria foi originalmente publicada pela i-D US.

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