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Esses fotógrafos documentaram a lendária cena punk de Nova York

Do Blondie aos Ramones, conversamos com Roberta Bayley e GODLIS para descobrir o que tornava o CBGB tão especial.

por Nicole DeMarco; Traduzido por Marina Schnoor
21 Janeiro 2019, 9:00am

The Dictators (1976) e Blondie (1977). Fotos por GODLIS.

Nos 45 anos desde que o CBGB abrir suas portas no Bowery, em Nova York, a lenda do clube não desapareceu da memória coletiva. Talvez graças às muitas fotos icônicas, muitas vezes tiradas por Roberta Bayley e David Godlis, que parecem suspender a cena punk de Nova York no tempo — como aquela da jovem Patti Smith fumando um cigarro entre os shows, ou dos Ramones acocorados num beco próximo. Se entrasse no CBGB entre 1975 e 1978, provavelmente você seria recebido pela Roberta, sentada em seu posto perto da porta onde ela recebia os $3 de entrada. Ocasionalmente, ela tirava fotos dos amigos se apresentando — gente como Richard Hell e seus Heartbreakers, Talking Heads ou o Blondie — muitas vezes publicadas na Punk Magazine, onde ela era a fotógrafa-chefe.

Em 1976, Roberta recebeu David Godlis (a.k.a. GODLIS) na porta da balada e os dois fotógrafos se tornaram amigos. Depois de se mudar de Boston para Nova York, onde GODLIS estudou fotografia com Nan Goldin, ele ficou fascinado com a cena underground do CBGB. Tudo isso é bem documentado no livro dele History I s M ade at Night, publicado ano passado. “Nos anos 70, as pessoas percebiam Nova York não como um lugar em que elas queriam estar. Mas posso te dizer que todo mundo que frequentava o CBGB naqueles dias realmente queria estar ali”, ele diz. “Elas sabiam que algo estava acontecendo. Não dava pra não saber... Você não tinha garantia de quanto isso ia durar e tinha uma sensação de que você não ia querer perder.”

Roberta Bayley at CBGB's
Roberta Bayley, 1977. Foto por GODLIS.

Falamos com Roberta e Godlis, que mora em St. Marks até hoje, para descobrir o que tornava fotografar a casa de shows icônica de Nova York tão irresistível.

Como vocês se interessaram por fotografia?
Roberta Bayley: Fiz algumas aulas no colegial, quando eu tinha 15 ou 16 anos, e aprendi a revelar na minha própria sala escura. Eu gostava de fotografar, mas não era uma coisa séria e não estudei isso. Fiz faculdade em São Francisco e o departamento de fotografia era muito popular. Todo mundo queria ser fotógrafo. No começo, eu vendia fotos muito barato. Eu não via o ponto de fazer fotos que eu não poderia vender, o que é idiotice pensando agora. Hoje, quero morrer pensando que eu poderia ter mais umas dez mil fotos, especialmente de certas situações. Fiz muitas com o Blondie, porque eles eram fáceis de fotografar e viajei com eles. Fico feliz de ter parado quando parei quando vejo o Godlis, ele tem milhares e milhares de rolos de filme e eu não saberia o que fazer com eles.

David Godlis: Comprei uma câmera em 1970, quando tinha 18 ou 19 anos — uma Pentax Spotmatic. Eu tinha assistido Blow-Up – Depois Daquele Beijo, provavelmente alguns anos antes, uma história sobre um fotógrafo descolado. Então arranjei uma câmera. Era só um hobby, acho. Eu fazia aulas de literatura inglesa e pensava em ser escritor, mas disso, fui para a biblioteca e comecei a pegar livros de fotografia. Tecnicamente eu não podia fazer o curso de fotografia, mas convenci o professor de que queria aprender a trabalhar numa sala escura em vez de mandar minhas fotos para revelar numa farmácia, então ele me deixou ficar. Aí fui para a Imageworks em Boston. Eu era o cara que estava fazendo fotografia de rua. Eu fazia isso em Boston e pensei: “Acho que tenho que sair para o mundo pra fazer isso. Chega de estudar”. Então fui para Nova York. E aconteceu que Nova York também era a cidade do The Velvet Underground e chegando lá, achei essa cena que era meio baseada nisso.

Heartbreakers at CBGB's
The Heartbreakers, da esquerda para direita: Walter Lure, Johnny Thunders, Richard Hell e Jerry Nolan (1976). Foto por Roberta Bayley
Ramones at CBGB's
Ramones (1977). Foto por GODLIS

Como vocês conheceram o CBGB?
RB: Cheguei em Nova York em abril de 1974 vinda de Londres, onde morei por uns dois ou três anos. Eu não conhecia ninguém. Simplesmente cheguei aqui. Comprei uma passagem só de ida. Uma pessoa me perguntou “O que você quer fazer aqui?” Sabe, quando você é nova todo mundo quer te mostrar a cidade, e então eu disse que queria ver o New York Dolls. E acontece que esse cara, o Dave, não só tinha sido o cara do som deles na turnê pela Europa, mas também morava em cima do Club 82, onde o Dolls tocaria na semana seguinte. Quando vi David Johansen pela primeira vez ele estava usando um vestido, sapato de salto alto e peruca. Aí comecei a conhecer as pessoas da cena. Vi o Television no Max's com Patti Smith. Não muito depois disso, conheci o Richard e começamos um relacionamento. Isso foi quando o Television estava fazendo uma residência no CBGB e Terry Ork, o empresário, disse “Você pode ficar na porta?” Tinha umas 20 pessoas lá. As bandas estavam procurando um lugar onde pudessem tocar regularmente, aprender a se apresentar num palco, na frente do público, aprender a fazer um show. Faz sentido quando você pensa nisso. É como os Beatles no The Cavern Club.

DG: Vi no The Village Voice que tinha esse lugar estranho. Fui lá pensando “Parece um lugar legal pra conferir”. O Bowery era muito vazio na época. Não tinha nada acontecendo exceto postos de gasolina e hotéis baratos, e “deve ser esse o lugar” — o lugar com um toldo na frente. Entrei e a primeira pessoa que encontrei provavelmente foi a Roberta. Nova York tinha lugares profissionais, onde bandas com contratos com gravadoras tocavam, mas o CBGB parecia algo fora disso, diferente. E isso me interessou. Eu trabalhava como assistente na época, mas sempre levava minha câmera pra todo lado. Eu não esperava tirar fotos. Não era considerado legal e artístico tirar fotos de astros do rock, e esse pessoal não era astros do rock, mas era algo diferente. Era uma cena.

Patti Smith at CBGB's
Patti Smith (1976). Foto por GODLIS
CBGB's
Da esquerda para a direita: Arthur Kane, Dee Dee Ramone e Richard Loyd (1977). Foto por Roberta Bayley

O que tinha na atmosfera do CBGB que o tornava um lugar tão incrível para tirar fotos?
RB: Tirei fotos de todas as bandas que eu gostava, mas não do resto. Não tenho muitas fotos do Blondie lá porque os shows estavam sempre muito lotados. Por isso tenho fotos boas ao vivo dos Ramones, porque não tinha ninguém assistindo os shows deles no começo. O palco ficava todo cercado pelo público. Você sabia. Você tinha essa sensação de quais eram as bandas legais e quais bandas não eram tão legais. E a gente gostava das pessoas das bandas não tão legais. A gente só não gostava das bandas delas.

DG: Eu era um grande fã do Robert Frank e seu livro The Americans. Foi uma grande influência pra mim. Uma foto ficou na minha mente, de um bando de garotos sentados em volta de uma jukebox numa loja de doces nos anos 1950, e eu meio que queria tirar uma foto assim das pessoas que frequentavam o CBGB. Era um grande tema, seja o jeito como as pessoas pareciam ou se vestiam, o visual do lugar, tinha alguma coisa especial toda noite. Você estava mijando no banheiro masculino e pensava “Talvez eu devesse tirar uma foto disso?” Era algo muito fácil e natural sob o disfarce de ser esquisito e estranho, sabe? E quando você superava isso, não era tão estranho, era a coisa mais natural, por isso todo mundo adorava. Ouvir os Ramones não parecia algo louco. Eles soavam exatamente com o que você queria ouvir e você não ia ouvir isso em nenhum outro lugar.

Virginia at CBGB's
Virginia Mason no banheiro do CBGB (1976). Foto por Roberta Bayley
Talking Heads at CBGB's
Talking Heads (1977). Foto por GODLIS

Quando vocês tiraram essas fotos, vocês imaginavam que ainda estariam falando delas tantos anos depois?
RB: Não. Quer dizer, teve uma grande calmaria entre o meio dos anos 80 e meio dos 90, quando aparecia uma matéria aqui e ali, mas a coisa era quase ignorada. Foi logo quando saiu Mate-me p or Favor, foi quando fiz minha primeira exposição numa galeria. Eu nunca tinha vendido uma impressão pra ninguém antes. Quando o Nirvana estourou? No começo dos 90? Isso também ajudou, porque eles faziam referência a essas bandas. Mas não, na época, não achei que ainda estaria falando sobre isso, e com certeza não achava que faria dinheiro com isso. Ou que teria exposições em museus ou algo assim. E mesmo assim, em se tratando de arte e vendas, ainda é uma batalha contra a correnteza – fotografia de rock.

DG: Não. Nunca achei que eu publicaria um livro. Mas quando os anos 1980 chegaram e o Sex Pistols implodiu, as mortes de Sid Vicious e Nancy afundaram o punk rock e o transformaram na New Wave, e ninguém queria fazer um livro com essas fotos. Aí as pessoas começaram a me ligar tipo: “Essa cena nos anos 70, achamos que o Nirvana foi influenciado por ela”. E eu tentando convencer as pessoas de que era uma cena interessante! Isso se tornou história, acho. E ao mesmo tempo, uma coisa que nunca foi claramente definida, que era exatamente o que aconteceu no CBGB, isso foi quando Mate-me p or Favor saiu. E o livro esclareceu que essa coisa em Nova York tinha acontecido antes da coisa na Inglaterra, e que as duas cenas eram importantes. Acho que todo mundo ali queria que isso durasse muito tempo. Eles queriam que sua música durasse muito tempo, ou seja lá o que eles estavam fazendo. Na cabeça das pessoas, o que passa como nostalgia era simplesmente o que estava acontecendo ali. Foi como se um raio tivesse caído aquele lugar. Tinha tantas ideias e coisa interessantes acontecendo ali toda noite. Quando eu estava fazendo meu livro, tudo que tive que fazer foi colocar os discos pra tocar – Television, Richard Hell – e tudo voltava à minha mente.

Blondie at CBGB's
Blondie (1977). Foto por GODLIS
Richard Hell and Elvis Costello
Richard Hell, Elvis Costello e Robert Quine nos bastidores (1978). Foto por Roberta Bayley
No Wave Punks
No Wave Punks, da esquerda para direita: Harold Paris, Kristian Hoffman, Diego Cortez, Anya Philips, Lydia Lunch, James Chance, Jim Sclavunos, Bradly Field, Liz Seidman (1978). Foto por GODLIS
Hilly Kristal
Hilly Kristal, o dono do CBGB (1977). Foto por GODLIS
CBGB's
CBGB (1977). Foto por GODLIS

Matéria originalmente publicada na i-D US.

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