A BANCA DE BOLSONARO

Ricardo Salles: o ministro que pode ser o primeiro "ficha suja" do governo Bolsonaro

Na série que apresenta os ministros do presidente eleito do Brasil, a VICE conta a história do dono da pasta do Meio Ambiente.

por Fernando Cesarotti; ilustrado por Cassio Tisseo
04 Janeiro 2019, 3:02pm

Ilustração: Cassio Tisseo

O governo empossado para “mudar tudo isso aí” e acabar com a corrupção tem em seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, o mais forte candidato a inaugurar a condição de “ficha suja” dentro do ministério. Isso porque o advogado de 43 anos, filiado ao Novo, foi condenado há menos de duas semanas, em primeira instância, à perda dos direitos políticos por improbidade administrativa durante sua passagem pela Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo, entre 2016 e 2017.

A Lei da Ficha Limpa proíbe pessoas com condenação em segunda instância de se candidatar, mas não de ocupar cargos de confiança como um ministério. A sentença saiu no último dia 19, quando Salles já havia sido nomeado ministro pelo presidente Jair Bolsonaro. O juiz Fausto José Martins Seabra, da 3ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, considerou Ricardo Salles culpado de favorecer empresas de mineração ao alterar mapas de zoneamento do plano de manejo da Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Tietê, que envolve 12 municípios da região metropolitana de São Paulo, inclusive a capital.

Segundo a peça, as ações do então secretário beneficiavam empresas mineradoras e prejudicavam a sustentabilidade da região. Além disso, Salles foi acusado de perseguir os servidores que prestaram depoimento ao MP. Condenado à perda dos direitos políticos por três anos, o ministro vai recorrer da decisão; se a condenação não for revertida, ele se torna automaticamente um “ficha suja”. Bolsonaro avisou que não queria condenados por corrupção em seu ministério, mas, no caso de Salles, como a ação não fala em enriquecimento ilícito, o presidente enxergou motivação política e decidiu mantê-lo no cargo.

Justo ele que entrou na política em 2006 como fundador de um movimento chamado Endireita Brasil, criado para tentar tirar o estigma ruim que a direita amargava nos anos de sucesso do governo do PT. Filiou-se ao então PFL, hoje Democratas, para tentar uma vaga na Câmara Federal, sem sucesso. Quatro anos mais tarde, fracassou de novo, agora em busca de um lugar como deputado estadual. Aproximou-se do PSDB e foi secretário particular de Geraldo Alckmin, com a função de cuidar da agenda do governador. Mudou para o PP e, por indicação do partido, foi nomeado secretário, numa passagem controversa e marcada por polêmicas.

Ricardo Salles nunca escondeu ser um conservador, defensor do Estado mínimo e de pautas como a proibição do casamento de pessoas do mesmo sexo. Neste ano, agora pelo Novo, tentou mais uma vez o cargo de deputado federal, e de novo gerou polêmica: em seu cartaz, relacionava o seu número de campanha, 3006, ao calibre de armas geralmente usadas no campo, e falava abertamente em agir “contra a esquerda e o MST”. O cartaz rendeu uma bronca pública do partido e foi insuficiente para dar a Salles um mandato, mas serviu para colocar o advogado paulista no radar de Bolsonaro.

Em sua posse, na última quarta-feira, Salles deixou claro: o negócio é desburocratizar, simplificar procedimentos, levar para o setor público a eficiência da iniciativa privada. Falou que o Brasil seguirá no Acordo de Paris, que prevê ações para tentar reduzir o ritmo do aquecimento global, mas espera contrapartidas financeiras de entidades internacionais, garantindo que o país tem feito sua lição de casa em conservação do meio ambiente.

O Cadastro Ambiental Rural, em que os proprietários rurais declaram que parte de suas terras é de preservação e não pode ser desmatada, agora ficará a cargo do Ministério da Agricultura, o que mostra que a pasta do Meio Ambiente, na prática, só existe pra gringo ver. Vale lembrar que o presidente falou durante a campanha em juntar o ministério com a Agricultura, e só foi demovido da ideia por setores do governo que temiam retaliações internacionais em acordos sobre o clima e em negociações comerciais.

A discussão de políticas ambientais no Brasil já provocou até assassinatos, como o de Chico Mendes, provavelmente a primeira grande liderança ambiental brasileira, o homem que colocou a palavra “ecologia” no vocabulário do brasileiro e mentor de Marina Silva. Também já causou muita celeuma política — a própria Marina deixou o governo Lula e o PT justamente por discordar as políticas ambientais — nos bastidores, ela era questionada por Dilma Rousseff, então ministra da Casa Civil e “mãe do PAC”, pela demora do Ministério do Meio Ambiente em conceder licenças a obras de grande porte, como a usina de Belo Monte.

Para um governo que fala abertamente “contra o politicamente correto” e que já mostrou disposição de mexer com terras indígenas e assentamentos quilombolas, Ricardo Salles é o ministro ideal. Já para o meio ambiente em si, tem tudo para ser um enorme desastre ecológico.

Nome: Ricardo de Aquino Salles
Idade: 43
Ministério: Meio Ambiente
Formação: Bacharel em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo
Partidos: PFL/DEM-PP-Novo

Acompanhe os perfis de todos os ministros do Brasil na série A Banca de Bolsonaro. Novos textos às terças e sextas-feiras.
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