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Rejjie Snow fala sobre os filmes (e funks irlandeses) que inspiram sua sonoridade transcontinental

Após anos de expectativa, o rapper irlandês chega com seu disco de estreia ‘Dear Annie’.

por Emily Manning; Traduzido por Thiago “Índio” Silva
19 Fevereiro 2018, 12:00pm

Foto: Jalan and Jibril Durimel

Matéria originalmente publicada na i-D US.

Ao longo do verão de 2008, não teve como escapar da “The Steady Song” do Republic of Loose. Na Irlanda, ao menos. O coletivo de funk-rock nativo de Dublin lançou a faixa no final de junho, bombando pelos próximos três meses no top de singles irlandeses, com seu groove pululante, gancho contagiante e letra divertida, garantindo sua presença nas rádios ao longo do verão.

Já fazia uns bons dez anos que não pensava em “The Steady Song”, isso até ouvir o incrível disco de estreia de Rejjie Snow, Dear Annie, que tem seu lançamento oficial marcado para hoje pela 300 Records. No lado B do disco, “The Steady Song”ressurge como “Charlie Brown”. No lugar de Isabel Reyes-Feeney (que alternava versos engraçadalhos com Mick Pyro na faixa original) temos Anna of the North. Rejjie cria harmonias divertidas ao lado da parceira de Tyler the Creator, dando uma energia sem igual ao tributo com versos seus novinhos em folha.

“Era um som que eu amava e curtia quando era moleque”, disse Rejjie ao conversarmos em Nova York no começo desta semana. A ideia original era que fosse apenas um cover divertido: “Mas aí os caras da gravadora ouviram, Mick do Republic of Loose ouviu, e decidimos colocar no disco. Talvez as pessoas não entendam, mas tá tudo bem”, afirma, rindo.

Trata-se de uma repaginada fiel ao som funkeado original, o toque de Rejjie completamente alinhado com o mundo colorido criado pelo rapper em Dear Annie. Ao longo de impressionantes 20 faixas, o dsico mistura boom-bap, acid rap, riffs descontruídos de jazz e toques soul. “Charlie Brown” é uma excelente referência às raízes irlandesas de Rejjie em um disco que foi criado entre Londres, Los Angeles e Nova York.

Nascido Alexander Anyaegbunam, Rejjie cresceu em Drumcondra, no norte de Dublin. De pai nigeriano e mãe irlandesa-jamaica, o rapper afirma “Sempre me senti mega irlandês e sinto orgulho de onde vim”. Ele fala com admiração a respeito de figuras políticas irlandesas como Michael Collins e Bobby Sands (que liderou uma greve de fome de prisioneiros durante os conflitos de 1981), dando um toque dublinense único a clipes de rap em seu excelente “Flexin”. Mas – sendo parte de uma população negra pequena em um país menor ainda – “Sempre me senti diferente também”.

Imagine você o choque cultural que foi ter mudado para a Flórida aos 16 anos de idade e para a Georgia no ano seguinte, com uma bolsa de estudos como jogador de futebol pela Savannah College of Art and Desig. “Eu me sentia uma ovelha negra de fato, mas que experiência”, comenta. “Aquilo abriu minha mente para as mais variadas culturas”. Rejjie saiu da SCAD após um ano e meio, quando as músicas que subia no YouTube começaram a chamar mais atenção e o pessoal da Rocket Management, de Elton John, entrou em contato. “Meio que queria ter continuado lá”, confessa. “Fui ali para jogar bola, mas em meio a todo o processo, descobri que gosto mesmo é de fazer filmes”.

O cinema, Rejjie revela, “é provavelmente minha maior fonte de inspiração”. A instrumentação encorpada de Dear Annie (fruto do trabalho de mestres como Kaytranada, Cam O’Bi e o vencedor do Grammy e colaborador de Kendrick, Rahki) é evocativa como a trilha de um filme. Após se mudar para Los Angeles, Rejjie começou a criar sons inspirados no cinema Blaxploitation dos anos 70. “Me impressionei com aquele visual e quis criar sonoridades que se encaixassem naqueles filmes. Era nisso que eu pensava – nas imagens, na estética”. Estas faixas, por sua vez, integram outro disco, um que Rejjie comenta que nem chegará a lançar. Espero que lance, levando em conta que Isaac Hayes já ganhou um Oscar com seu opus funk “Theme From Shaft”.

Por mais que as batidas flutuantes e melodias viajandonas de Dear Annie pareçam teatrais, seu conteúdo lírico se inspira na vida de Rejjie. “Cresci muito nos últimos quatro, cinco anos, e o disco trata muito disso. Sobre viver coisas – amor, morte. Isso tudo se juntou ao material organicamente, não precisei forçar nada. Tudo veio naturalmente”, explica. “O processo é simples: viva sua vida e viva coisas diferentes”.

Ao mesmo tempo, porém, Rejjie tem sentido a pressão da fama. Seu EP de estreia, Rejovich, saiu em 2013 (superando até Kanye West na parada de hip-hop do iTunes, mesmo que por pouco tempo). Um convite direto de Madonna para tocar em sua Rebel Heart Tour o colocou em evidência mais uma vez dois anos anos depois, enquanto isso, a expectativa só crescia. Sua série de singles, verdadeiras pedradas, e o lançamento da mixtape The Moon & You só fizeram de Dear Annie um disco ainda mais aguardado. Talvez por isso mesmo sua gravadora tenha optado por uma nova abordagem: ao longo do último mês, a 300 Records lançou dois EPs, espécie de prévias com quatro faixas de Dear Annie cada. O primeiro começa com o single tranquilão “Egyptian Luvr”; o segundo vem com “Rainbows” – com influência de Pharrell.

Cabe mencionar que Aminé soa muito confortável cantando por cima dos synths de Kaytranada em “Egyptian Luvr”, bem como Joey Bada$$ e Jesse Boykins III deram seu toque em “Purple Tuesday” de The Moon & You, faixa de destaque da mixtape.

“É engraçado”, diz Rejjie, “porque você escuta o material e pensa que tem uma ligação profunda ali, mas a maior parte das participações nem foi feita cara a cara”. Fato é que que Young Thug, parceiro de gravadora de Rejjie, devia ter participado de “Egyptian Luvr”. O rapper afirma, sincero, “Adoro trabalhar com diretores e estilistas, juntando esses mundos diferentes. Mas é complicado pra mim expor minhas emoções com outros artistas por uma hora ou duas”, explica. “Gosto de construir tudo com alguém que conheço, caso contrário, prefiro fazer tudo sozinho”.

Um ponto de vista válido, mas e Archy Marshall, que ele conhece há anos e ainda manda um salve em “Rainbows”? “Ele é um cara divertido de se trabalhar e já fizemos coisas juntos, mas os arquivos estão todos com ele!”, comenta Rejjie, aos risos. “Talvez ele lance isso algum dia”. Por enquanto, Rejjie só segue surfando a onda.

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