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Como o vício em videogames terminou com o meu casamento

*Laura precisou botar fim no relacionamento que durou oito anos devido ao isolamento social de seu companheiro em um jogo online.

por Laura; conforme dito para Giovanna Breve; ilustrado por Luiza Formagin; fotos por Victor Luccas Frey
08 Março 2018, 6:38pm

*Os nomes citados na matéria foram alterados.

Eu tinha 19 anos e o Ricardo 20 quando nos conhecemos em uma balada, no interior do Rio Grande do Sul. Tranquilo, não gostava de beber e tinha vários amigos, ele era uma pessoa caseira, que jogava videogame por hobby, ia à academia, estudava e trabalhava numa indústria há anos. Inteligente, amava o que fazia. Logo no primeiro ano de namoro, decidimos morar juntos e anos depois nos casamos.

No começo foi uma época muito boa, apesar de ser uma vida sem luxos; tínhamos que trabalhar muito para conseguir as coisas. As coisas começaram a mudar no terceiro ano de empresa, quando mudaram meu cargo e precisava fazer viagens que duravam mais de uma semana. Por outro lado, comecei a ganhar mais do que o Ricardo e isso começou a afetar o nosso relacionamento. Ele tinha o pensamento machista, de que o homem tinha que ganhar mais do que a mulher, e nem gostava da ideia da gente sair de casa comigo dirigindo.

Eu nem sei em que momento que o negócio não tinha mais solução.

O primeiro sinal de que tinha algo errado foi quando Ricardo disse que não queria mais sair de casa. Também parou de ir ao supermercado e até mesmo deixou de sair com os sobrinhos que ele amava tanto. Começou a dar desculpas e percebi que eram mentiras, que foram ficando cada vez mais frequentes: um dia estava com dor de cabeça, depois não queria mais sair com a família, outro dia só ficava no quarto, depois parou de comer e até tomar banho. Eu nem sei em que momento que o negócio não tinha mais solução.

Mas o real motivo era outro: a sua obsessão por RuneScape, um MMO aparentemente inofensivo que está aí desde 2001.

Fotos: Victor Luccas Frey.

Percebi que deveria fazer algo sobre o vício quando o Ricardo começou a ter um problema físico, um “tique nervoso” que o fazia ficar tremendo a cabeça de forma involuntária. Era visível de que aquilo não estava fazendo bem pra ele.

Fomos atrás de ajuda. O neuro disse que o problema era algo comportamental e precisava passar no psicólogo; no consultório, o psicólogo não podia recomendar remédios; por fim, fomos ao psiquiatra.

Em todas as consultas eu o acompanhava. Quando eu mencionava o game, meu ex me interrompia. Ele nunca admitiu o vício, achava que estava nervoso com as coisas da vida, e a culpa sempre era outra coisa, como o estresse e não ter dinheiro

Um dia, consegui ficar sozinha com o psiquiatra e expliquei sua relação com o jogo online. A partir daí, o doutor decidiu mudar o tratamento de estresse para dependência. E novos problemas começaram a surgir.

Ninguém está preparado para tratar o vício em jogo.

Depois de receitar vários remédios, Ricardo começou a ficar chateado porque os efeitos colaterais eram fortes. Alguns dias dormia muito, outros não conseguia dormir ou não ia ao banheiro. Numa última tentativa, o psiquiatra indicou injetar botox para paralisar o nervo da cabeça dele, para acabar com a tremedeira involuntária, mas ele recusou, achou caro e não fez o procedimento. Ninguém está preparado para tratar o vício em jogo.

Ricardo chegou a fazer a faculdade, mas acabou trancando para continuar jogando. Durante esse período, perdeu vários amigos, deixou de ir ao futebol, academia e a gente não saia mais. O vício chegou no seu clímax depois de três anos — nessa época, ele até trocava o almoço para ir pra casa jogar.

Sua vida se resumia em jogar RuneScape online e trabalho. Na empresa, chegou ao ponto de inventar histórias para não trabalhar, dizia que se sentia doente, mas eu sabia que ele estava jogando. A prática começou a ficar frequente, chegando até a falsificar atestado médico para ficar em casa.

Antes de jogar a toalha, decidi pedir ajuda para o Erick, melhor amigo de infância do Ricardo. O amigo foi umas dez vezes em casa, até que desistiu. Quando a gente recebia o Erick e a esposa dele, meu ex-marido não saia nem para receber o próprio amigo. Tínhamos que ir até o quarto onde ele jogava, botar umas cadeiras e ficar conversando. E ele não parava de jogar, mesmo enquanto falava com a gente.

Também pedi ajuda da mãe do Ricardo para tira-lo do quarto. Fizemos até o impensável para agrada-lo; compramos uma televisão gigantesca, um console de última geração e vários jogos que não eram online. Eu, que até então não era de videogame, cheguei a aprender só para jogar com o Ricardo. Mas a gente jogou por apenas dez minutos, porque ele queria voltar para RuneScape, mesmo todos insistindo muito para ele ficar. Tanto eu, quanto a família e os amigos, todos fizeram de tudo para ajudá-lo.

Naquels últimos anos, sinto que perdi muita coisa da minha juventude.

Naqueles últimos anos com o Ricardo, sinto que perdi muita coisa da minha juventude. As pessoas não me chamavam mais para nada, com medo de que o Ricardo fosse também e ficasse transtornado. Na verdade, o que acontecia na maioria das vezes é nem mesmo saíamos de casa, e assim fui me tornando refém das suas pressões psicológicas.

Certa vez, fomos convidados para uma formatura de uma amiga nossa. Pedi muito pro Ricardo e ele finalmente topou. Era uma festa chique — e muito importante para mim, pois eram raros os eventos sociais em que confirmássemos presença —, então fui ao salão e aluguei um vestido. Mas na hora de ir, o Ricardo alegou uma dor de cabeça súbita e anunciou que a gente não ia. No fim, saí pronta do salão e fui direto para casa. Enquanto me desarrumava e tirava a maquiagem que fiz para ir à formatura que não fui, meu ex-marido passou a noite toda jogando.

Fotos: Victor Luccas Frey.

Depois de três longos anos tentando ajuda-lo, decidi que não iria mais deixar que ele acabasse com a minha vida junto com a dele. Eu sabia que não queria mais essa situação para mim.

O estopim veio numa segunda-feira a noite. Como todas as semanas, eu tinha uma reunião de trabalho, mas dessa vez Ricardo estava diferente. Avisei que estava de saída e ele falou que eu não iria. Curiosa, perguntei se ele teria outra programação para a gente, que até faria questão de ficar em casa — mas se os planos envolvessem ele ficar jogando a noite toda, eu iria à minha reunião.

Friamente, ele apenas continuou me impedindo de sair. Começamos a discutir e ele me acusou de ser obcecada por dinheiro. A reação natural de qualquer pessoa seria de raiva, mas naquele dia, eu também estava diferente — me mantive calma. A situação o deixou ainda mais tenso. Muito bravo, Ricardo pegou o notebook, arrumou algumas coisas e foi passar a noite no único outro lugar que teria abrigo: na casa da sua mãe. Quando estava de saída, dei um ultimato: “Se você sair por essa porta, eu não vou te aceitar de volta”. Ele foi embora.

Conversei com meu chefe sobre o fim do casamento, ele arranjou um advogado para o divórcio e até orientou os outros funcionários a despistar o Ricardo toda vez que ele ligava na empresa me procurando. Nessa época, ele voltou a morar com a mãe e me ameaçava através da advogada, dizendo coisas do tipo "vou te matar, vou sumir com você". Precisei fazer um B.O e uma medida protetiva contra meu então futuro ex-marido. Eu achava, e até hoje, que ele não faria algo brutal, mas decidi ficar longe e deixar que a advogada resolvesse da melhor forma.

A empresa me ofereceu um cargo em uma outra unidade a 150 km da nossa cidade. Fiquei meses exilada sem ver meus amigos e familiares, e minha vida deu uma reviravolta. Ainda choro só de lembrar desse período.

No dia do divórcio as duas pessoas tem que ir lá assinar o documento, minha amiga foi me representar pra surpresa do meu ex-marido, que esperava me ver.

Com o divórcio feito, eu só chorava. Era um momento emocionante, porque eu tinha me livrado daquela vida, o que era algo estranho e bom ao mesmo tempo.

Desde o dia que saiu de casa, nunca mais vi Ricardo. Hoje, só sei dele por terceiros, como a família dele e os sobrinhos que são meus afilhados. Soube que foi morar em outro país, mas sei que continua jogando. O videogame que comprei pra ele está com um dos meus sobrinhos.

Fotos: Victor Luccas Frey.

Depois de um ano divorciada, fiz várias amizades. Foi quando conheci o Breno. Começamos a sair, decidimos ficar e acabamos namorando. Minha surpresa veio quando descobri que ele era... desenvolvedor de jogos e tinha uma empresa de games!

Não era possível! Mas deixei o medo de lado e sempre deixei claro para ele que não admitia trocar uma vida saudável e para fica jogando. Eu contei minha história para o Breno, e ele entendeu. Disse até que, às vezes, se cansa de jogar.

Ainda bem.

Atualmente, Laura está casada com Breno e estão de mudança para o Canadá, onde o desenvolvedor irá estudar e vão tentar uma nova vida no país.

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