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O primeiro encontro das mulheres das organizadas

Debaixo de fumaça, trezentas torcedoras uniformizadas do Brasil inteiro se reuniram no Pacaembu, em São Paulo, para reivindicar mais espaço nas arquibancadas.

por Leonor Macedo; fotos por Larissa Zaidan
04 Julho 2017, 6:38pm

Faz quase 30 anos que transformei os degraus duros de cimento das arquibancadas brasileiras no lugar onde eu queria estar — em especial, aqueles pintados de amarelo no Pacaembu, de onde vi o Corinthians ser campeão muitas vezes e perder outras tantas. É nesse ponto da cidade de São Paulo que meu coração sempre bate mais forte; é meu mapa afetivo.

Foi no meu amor pelo Corinthians que cresci e foi a festa na arquibancada (por onde anda? Um beijo, festa na arquibancada!) que me levou a uma torcida organizada, onde conheci um espaço de luta na segunda metade dos anos 1990. Naquela época eu já acreditava que, ao mudar o futebol, a gente poderia mudar o mundo, mas eu não tinha ideia de que o caminho era tão espinhoso. Logo dei conta que essa luta, para a mulher, é dobrada.

Bonde feminino da Torcida Jovem Ponte, de Campinas. Foto: Larissa Zaidan/ VICE

Até então, já tinha sofrido machismo no estádio. É machismo quando um cara do seu lado fala absurdos à menina contratada pela Federação para dançar na beira do campo. (E não seria machismo a Federação contratar uma menina para dançar à beira do campo?) É machismo quando alguém do seu lado xinga a bandeirinha de vagabunda ou quando chamam a gandula de gostosa. Quando te cobiçam e te assediam por estar de shorts na arquibancada em um dia de calor. É machismo quando o seu clube não lança uma camisa para mulheres que tenham as mesmas cores e o mesmo emblema do seu clube. Enfim, eu já tinha sofrido uma série de machismos sem ao menos me dar conta disso.

Torcedora da Pavilhão 6, do Remo, no Pará. Foto: Larissa Zaidan/ VICE

E também já tinha reproduzido machismo. Já tinha julgado uma mulher pelo seu short curto na arquibancada. Já achei que não se podia ir com qualquer roupa ao estádio. "Ah, a mulher tem que se dar ao respeito", já pensei.

Tudo isso vem do fato de o futebol ser um território masculino, feito por homens e para homens; a mulher parece ter sempre que se adequar a isso se ali quiser permanecer. E não é assim com o mundo?

Na torcida organizada não é diferente e não foi comigo. Tive que provar dobrado que entendia de futebol aos caras e, para as minas que estavam naquele lugar há mais tempo, precisei mostrar que cheguei ali porque amava o Corinthians, e não por causa de macho.

Torcedora corintiana com o filho. Foto: Larissa Zaidan/ VICE

Havia naquela quadra da organizada salas onde o acesso para mulheres era proibido. Mulher, por exemplo, não podia entrar no Departamento de Bandeiras, onde fica o patrimônio da torcida (bandeiras, faixas, instrumentos). Nas reuniões em que se falava sobre o Corinthians, as mulheres não eram convidadas, uma ou outra participava de soslaio, mas nunca pedia a palavra. Discutir assuntos internos da torcida, então, só aqueles para falar da logística de uma festa ou de arrecadação de donativos para alguma instituição de caridade.

Integrante da Torcida Jovem Chapecoense. Foto: Larissa Zaidan/ VICE

Eu não me importava em participar disso, mas não queria só isso. Queria, também, balançar uma bandeira de bambu um dia. "Será que é pesada?", "Será que consigo?", "Será que não vou enrolar?", eu pensava. Mas ali mulher não podia. Eu queria ir a alguns jogos ditos perigosos com a torcida, mas mulheres são vetadas. Até as maiores de idade. Até as que sabem se defender sozinhas. Até as que nunca levantaram a mão para alguém. Até as que são mais fortes que um moleque da linha de frente. Não importa.

Eu não queria só cortar tomate para o vinagrete da festa, eu queria participar das reuniões sobre o Corinthians e, quem sabe, derrubar o presidente do clube com alguma ideia que eu dei. Eu queria ser torcedora ali.

Representante da torcida antifascista do Santos. Foto: Larissa Zaidan/ VICE

Não dá para dizer que não consegui. Durante os anos em que atuei na torcida e transformei aquilo na minha militância, fui muito além das organizações das festas, mas porque suei dobrado para mostrar o meu valor como torcedora do Corinthians. Fosse um homem, o esforço seria muito menor.

Lembrei de tudo isso subindo a praça Charles Miller no dia 10 de junho, quando fui fazer essa matéria para a VICE Sports e trocar experiências com mulheres de outros times, de outras torcidas e outras arquibancadas. Vi um monte de ônibus encostado, com as minas vestidas com as cores dos seus clubes, e me emocionei. Eram quase 300 ali no I Encontro Nacional de Mulheres de Arquibancada.

Flamenguista integrante da Urubuzada. Foto: Larissa Zaidan/ VICE

Aquele encontro começou a ser organizado em um grupo de WhatsApp, mas foi escrito muito antes: quando mais mulheres passaram a questionar e a querer mais. Quando percebemos que somos sócias-torcedoras ativas de nossos clubes em um número tão grande quanto os homens.

Temos ideias para além do Departamento Social de uma torcida e da área administrativa dos clubes. Temos força e fôlego para bater um bumbo na bateria de uma arquibancada e cantar os 90 minutos. Podemos balançar a bandeira do nosso time muito alto e pendurar faixas. Nosso lugar também é no Conselho das instituições, sem precisar que se crie um setor feminino para opinarmos entre nós mesmas. Queremos somar forças, de igual para igual. E vamos.

Torcedora da Torcida Jovem Ponte. Foto: Larissa Zaidan/ VICE

Ainda que muitas torcidas e clubes tenham parado no tempo, há torcedoras no Brasil empurrando a vida em frente. Conheci até uma menina muito mais nova que eu e que cuida do patrimônio de sua torcida lá em Belém do Pará.

Ao ouvir aquelas mulheres do Encontro, vi o quanto ainda precisamos avançar e sair do discurso de que estamos ali porque o "presidente da torcida deixou" ou porque "os caras me apoiaram". Mas entendi também o quanto já transformamos a nossa própria realidade e conquistamos. E me parece um ponto sem volta; a luta agora é daqui para a frente para mudarmos o futebol e depois o mundo. Nosso fio desencapou e ninguém vai escapar do choque.

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