Opinião

É possível tratar do Massacre de Suzano sem perversão jornalística?

A tragédia trouxe à tona o tamanho do problema do datenismo na cobertura de assassinatos em massa.

por Thiago Blumenthal; ilustrado por Vinicius Trigo
14 Março 2019, 7:36pm

Ilustração: Vinicius Trigo

O assassinato de oito pessoas na escola estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, região metropolitana de São Paulo, nesta quarta-feira (13), nos coloca diante de um proscênio teatral grego, com uma trama singular de contornos trágicos, e irrecuperáveis, a todos os envolvidos (pais, parentes, amigos, companheiros de escola). Uma escola tida como modelo terá muita dificuldade em superar a carnificina que abalou todo um país.

Tragédias desse porte chocam porque, de acordo com a dinâmica narrativa tradicional dos fatos, nos pega pela rasteira. Não dá nem para comentar no bar, com os amigos, não dá para falar de um crime assim sem engolir seco a indignação, a raiva, a incompreensão dos fatos, e num sentido mais extremo, a ridícula arbitrariedade da vida. Em momentos como esse, se pouca coisa faz sentido, parece que agora sim não temos mais salvação, acabou. Já era.

Há uma mensagem padrão quando alguém se joga na linha do metrô de São Paulo: “velocidade reduzida devido a usuário na linha”. Alguém se matou, essa é a tradução, algo infelizmente muito comum na paranoia coletiva da cidade. Para o metrô, falar em suicídio pode trazer um mal-estar aos usuários e, no limite, dar ideia. É uma estratégia que pode até ser debatida, em alguns termos mais ou menos pertinentes, mas que faz um sentido enorme: o suicídio, diria Albert Camus, é o único problema filosófico relevante.

A possibilidade de uma tendência à autodestruição é uma temática que foi muito cara a Freud ao longo de toda a sua obra, desde “Sobre a psicopatologia da vida cotidiana”. Para o pai da psicanálise, o lapso, ilustrado tão bem através dos atos falhos, constitui parte da experiência humana, parte fundamental – lapso este que pode vir na forma de uma fala mal colocada num diálogo, até um tropeço, e, mais perigosamente, a um ferimento autoinfligido, do qual se conclui que o suicídio, expressão máxima da autodestruição, é um desfecho bastante possível do conflito psíquico. Desse modo, para Freud, qualquer tentativa ou conclusão de um suicídio revela uma intenção inconsciente mascarada por um acidente casual: o lapso, o tropeço.

Sabemos que, depois de tirar as vidas de inocentes, os dois assassinos deram cabo de suas próprias vidas, em um tipo de pacto que de tão cruel parece ficcional: você primeiro. Não um suicídio per se, mas espécie de rendição heroica aos tiros dos policiais, um suicídio simbólico, supostamente o gran finale de um ato horrendo. Como então reportar algo dessa magnitude do mal?

Fácil não é. Cabe à imprensa uma cobertura informativa, sem deixar ceder aos apelos simplistas que boa parte da população demanda. Reitero que não é fácil ser imprensa nessas horas, e não há uma responsabilidade individual de qualquer repórter que está ali no front diante daquele cenário diabólico. Quando vejo um repórter da TV Bandeirantes perseguindo (este é o termo) a mãe de um dos assassinos, perguntando, em um tom entre mesquinho e cínico, se “você precisa de ajuda”, sei que ele está fazendo um trabalho que lhe foi pautado por uma cadeia jornalística que só quem é do meio entende – mas é cruel, baixo, desumano. Esse repórter cobria o caso para o programa diário de José Luiz Datena, o Brasil Urgente – noticiário que está acostumado a cobrir tragédias de pequena e de grande proporção, da idosa que foi assassinada na porta do banco ao sacar sua aposentadoria mensal, ao massacre de Suzano.

Datena conduz seu Brasil Urgente como um maestro da barbárie diária que é o Brasil. Entrega o que o público quer, e o público vai jantar contente com sua dose de violência já bem assimilada em seu inconsciente – e a produção de seu programa parece torcer para tragédias de maior e maior proporção (ou vão falar do quê?). A velha pergunta do ovo ou da galinha: o público criou Datena, ou Datena criou o público? O apresentador da Band, no caso, é apenas um exemplo, ainda que o maior, de muitos outros que recheiam a nossa TV aberta. Quando seu repórter constrange a mãe do assassino, que mal sabia dos acontecimentos, visivelmente atordoada pelo calor das informações, naquele torpor que sentimos quando o mundo se desmorona, esse repórter está fazendo seu trabalho, atendendo a uma expectativa de uma audiência (e de sua chefia) que, a meu ver, respondendo a pergunta do ovo e da galinha, foi condicionada socialmente a ir ao circo e esperar que o acrobata se estrebuche no chão, que o mágico não encontre o coelho dentro da cartola, que caia a saia da dançarina – ou que ela seja comida pelos leões. Mais ou menos como no conto kafkiano “Na Galeria”, que também se passa num circo, onde perspectivas de um mesmo ato variam entre o heróico e o profundamente triste.

A chamada “era da informação” exponenciou esse fenômeno a uma proporção quase insuportável. Como tudo é ao vivo, como tudo está na ponta de nossos dedos em nossos smartphones naquele exato instante, também nos acomodamos a querer mais e mais informação a cada dez minutos. Há uma regra antiga dos primórdios do jornalismo online que dizia que nenhuma manchete pode ficar no ar por mais de dez minutos. É preciso virar, precisamos de mais informação. Esse princípio ficou no passado, mas a dinâmica não mudou muito de lá pra cá: segue-se o modelo da televisão, em que precisamos tirar informação, muitas vezes das profundezas da perversão – moral e jornalística. O famoso “ao vivaço” da TV chegou ao jornalismo online.

Exibir à exaustão as imagens da matança, os rostos (mascarados ou não) dos assassinos, subir o volume dos gritos de horror dos adolescentes. Se você abriu os portais na quarta-feira, deparou-se com uma das frases mais surradas do jornalismo online “Vídeo mostra” logo no topo, entre avaliações psicológicas prematuras e quase absurdas, como “obsessão por games” – isso merece um capítulo à parte: como a mídia não entende absolutamente nada de videogame. Lembro-me do caso bastante simbólico de terem associado um outro assassino adolescente a seu avatar no Facebook: o protagonista do jogo Assassins’ Creed.

Inverte-se, assim, uma equação humana básica, daí a perversão jornalística: corre-se o risco de transformar o assassino num herói, não no sentido de que o leitor, ou a audiência da TV, vá aplaudi-lo, mas o personagem (como chamamos em jornalismo) ganha um destaque enorme, e um tanto quanto esquisito – e perverso – a ponto de ele ter sido o ponto alto do dia. Em outras palavras, a mídia encontrou o seu grande protagonista que fez brilhar nosso dia chato com sua munição, com seu fogo, com seu instinto assassino.

Este texto não tem o propósito de ensinar ninguém a fazer jornalismo, nem necessariamente é um julgamento moral aos profissionais de imprensa que fazem seus corres diariamente para trazer informações à sociedade. Não cabe também à VICE tirar o dela da reta. Na importante matéria sobre os chans, de Marie Declerq, o veículo foi criticado por expor os frequentadores dos fóruns. Acho fundamental reportar esse universo dos chans, ainda mais no presente contexto. Trata-se de um mundo que boa parte da população não tem conhecimento algum. Contudo, e contudo sempre, paira a questão do teto de vidro. A VICE busca esse equilíbrio diariamente, diante do espanto que mora lá fora. Esse texto, portanto, é mais um estímulo para que pensemos melhor como todos nós, imprensa e leitores, somos sugados por uma ordem que perdeu totalmente o norte. Dirá o sensei em um vilarejo em Kyoto, diante de um general cruel que pretende cortar a sua cabeça: você não percebe que está diante de um homem que pode ser trucidado num piscar de olhos?

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