Imagem: ZACH GIBSON/AFP/Getty Images 

O Facebook e Instagram vão banir nacionalismo e separatismo brancos

Depois de reação de defensores dos direitos civis, o Facebook agora trata nacionalismo e separatismo brancos como supremacia branca, e vai direcionar os usuários que tentarem postar esse conteúdo para ONGs que ajudam pessoas a deixarem grupos.

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27 Março 2019, 8:33pm

Imagem: ZACH GIBSON/AFP/Getty Images 

Numa grande mudança política para a maior rede social do mundo, o Facebook e o Instagram baniram nacionalismo branco e separatismo branco de sua plataforma na terça-feira. As redes também vão começar a direcionar usuários que tentarem postar conteúdo associado a essas ideologias para organizações que ajudam pessoas a deixar grupos de ódio, a Motherboard apurou.

A nova política, que será implementada oficialmente semana que vem, destaca a natureza maleável das políticas do Facebook, que governam o discurso de mais de 2 bilhões de usuários no mundo. E o Facebook ainda precisa fazer cumprir efetivamente essas políticas se quer realmente diminuir o discurso de ódio em sua plataforma.

Ano passado, uma investigação da Motherboard descobriu que, apesar de o Facebook banir “supremacia branca” de sua plataforma, eles ainda permitiam “nacionalismo branco” e “separatismo branco”. Depois de críticas de grupos de direitos civis e historiadores, que diziam que não há diferença entre essas ideologias, o Facebook decidiu banir as três, segundo dois funcionários de política de conteúdo do Facebook.

“Conversamos com mais de 20 membros da sociedade civil, acadêmicos, em alguns casos envolvidos com organizações de direitos civis, e especialistas em relações de raça de todo o mundo”, nos disse Brian Fishman, diretor de políticas de contraterrorismo do Facebook, por telefone. “Decidimos que a sobreposição entre nacionalismo branco, separatismo branco e supremacia branca é tão grande que não podemos fazer uma distinção significativa entre elas. E isso porque a linguagem e a retórica usadas e a ideologia que elas representam se sobrepõem num grau onde não há distinção.”

Agora as redes vão banir conteúdo que inclui louvor explícito, apoio e representação de nacionalismo e separatismo brancos. Frases como “Sou nacionalista branco com orgulho” e “A imigração está destruído o país; separatismo branco é a única resposta” agora serão proibidas, segundo a empresa. Nacionalismo e separatismo brancos implícitos e codificados não serão banidos imediatamente, em parte porque a empresa diz que isso é mais difícil de detectar e remover.

A decisão foi formalmente tomada no Fórum de Padrões de Conteúdo do Facebook na terça, uma reunião onde políticas de moderação de conteúdo foram discutidas e adotadas. Fishman disse a Motherboard que a COO do Facebook, Sheryl Sandberg, esteve envolvida na formulação da nova política, assim como cerca de 30 funcionários do Facebook.

Fishman disse que os usuários que procurarem ou tentarem postar conteúdo de nacionalismo, separatismo e supremacia brancos receberam um popup que vai redirecioná-los para o site da Life After Hate, uma organização sem fins lucrativos fundada por ex-supremacistas brancos dedicada a ajudar pessoas a deixar grupos de ódio.

“Se as pessoas estão explorando esse movimento, queremos conectá-las com pessoas que podem fornecer apoio offline”, disse Fishman. “Esse é o tipo de trabalho que achamos que é parte de um programa abrangente para abordar esse movimento.”

Nos bastidores, o Facebook vai continuar usando algumas das mesmas táticas que usa para encontrar e remover conteúdo associado ao ISIS, Al-Qaeda e grupos terroristas para remover conteúdo de nacionalismo, separatismo e supremacia brancos. Isso inclui correspondência de conteúdo, que usa algoritmos para detectar e deletar imagens que foram identificadas anteriormente como contendo ódio, e vai incluir aprendizado de máquina e inteligência artificial, disse Fishman, que não elaborou como essas técnicas vão funcionar.

A nova política é uma mudança significativa na abordagem antiga da empresa para separatismo e nacionalismo brancos. Num documento interno de treinamento de moderação, obtido e publicado pela Motherboard ano passado, o Facebook argumentavam que nacionalismo branco “não parece estar sempre associado com racismo (pelo menos não explicitamente)”.

A matéria incitou críticas de organizações de direito civil, história negra e especialistas em extremismo, que insistiram que “nacionalismo branco” e “separatismo branco” muitas vezes são simplesmente fachadas para supremacia branca.

“Acho que é um passo, e um resultado direto da pressão colocada sobre o Facebook”, disse Rashad Robinson, presidente de campanha do grupo Color of Change, a Motherboard por telefone.

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Cartazes na sede do Facebook em Menlo Park, Califórnia. Imagem: Jason Koebler

Especialistas dizem que os movimentos de nacionalismo e separatismo brancos são diferentes de outros movimentos separatistas, como o movimento separatista basco na França e Espanha, e os movimentos separatistas negros do mundo, considerando a longa história da supremacia branca sendo usada para subjugar e desumanizar pessoas não-brancas nos EUA e no mundo.

“Quem diferencia nacionalistas brancos de supremacistas brancos não tem qualquer entendimento sobre história da supremacia branca e nacionalismo branco, que são historicamente interligados”, disse Ibram X. Kendi, que venceu o National Book Award de 2016 por Stamped from the Beginning: The Definitive History of Racist Ideas in America, a Motherboard ano passado.

Heidi Beirich, chefe do Projeto de Inteligência do Southern Poverty Law Center (SPLC), disse a Motherboard ano passado que “nacionalismo branco é algo que pessoas como David Duke [ex-líder da Ku Klux Klan] e outros pensaram que soaria menos ruim”.

Mesmo que os especialistas em direitos civis com quem a Motherboard falou concordem que nacionalismo e separatismo brancos são indistinguíveis da supremacia branca, essa decisão provavelmente causará polêmica tanto nos EUA, onde a direita acusa o Facebook de ter um preconceito contra conservadores, e no mundo, especialmente em países onde políticos abertamente nacionalistas brancos encontraram muitos seguidores. O Facebook disse que nem todos os grupos com que eles falaram acreditavam que deveria haver uma mudança em suas políticas.

Vimos que isso estava se tornando uma questão, onde eles tentavam normalizar o que estavam fazendo dizendo 'Não sou racista, sou nacionalista', e tentar fazer essa distinção.”

“Quando há uma variedade tão grande de pessoas envolvidas, você vai ter uma variedade de ideias e crenças”, nos disse Ulrick Casseus, especialista em grupos de ódio da equipe de políticas do Facebook. “Algumas pessoas não concordam que nacionalismo e separatismo brancos são inerentemente sobre ódio.”

Mas o Facebook disse que a maioria dos especialistas consultados acreditavam que nacionalismo e separatismo brancos estão intimamente ligados ao ódio organizado, e todos os especialistas com quem eles falaram acreditam que nacionalismo branco expresso online tem consequências no mundo real. Depois de falar com esses especialistas, o Facebook decidiu que nacionalismo e separatismo brancos são “inerentemente sobre ódio”.

“Vimos que isso estava se tornando uma questão, onde eles tentavam normalizar o que estavam fazendo dizendo 'Não sou racista, sou nacionalista', e tentar fazer essa distinção. Eles até chegam a dizer 'Não sou supremacista branco, sou nacionalista branco'. Mesmo dizendo isso, essas pessoas também têm discurso e comportamentos de ódio”, disse Casseus. “Eles estão tentando normalizar isso e baseado no que vimos e com quem falamos, determinamos que essas ideologias estão ligadas ao ódio organizado.”

A mudança veio menos de dois anos depois que o Facebook esclareceu internamente suas políticas sobre supremacia branca, depois dos protestos de Charlottesville em agosto de 2017, onde um supremacista branco matou a contramanifestante Heather Heyer. Isso incluía fazer uma distinção entre supremacia e nacionalismo que especialistas em extremismo viam como problemática.

O Facebook também fez discretamente outras mudanças internas na mesma época. Uma fonte, com conhecimento direto das deliberações do Facebook, disse depois da reportagem da Motherboard que o Facebook tinha mudado seus documentos internos para dizer que supremacia racial não era permitida no geral. A Motherboard garantiu o anonimato para a fonte poder falar sinceramente sobre as discussões internas do Facebook.

“Tudo foi reescrito para, em vez de dizer que nacionalismo branco era permitido enquanto supremacia branca não era, agora qualquer supremacia racial não era permitida”, a fonte disse ano passado. Na época, nacionalismo branco e nacionalismo negro não violavam as políticas do Facebook, a fonte acrescentou. Um porta-voz do Facebook confirmou que eles fizeram essa mudança ano passado.

A nova política não vai banir nacionalismo e separatismo brancos implícitos, que Casseus disse serem mais difíceis de detectar. Eles também não vão mudar as políticas já existentes da empresa para movimentos separatistas e nacionalistas no geral; conteúdo relacionado com movimentos de separatismo negro e o movimentos separatista basco, por exemplo, ainda serão permitidos.

Qualquer política de rede social só é tão boa quanto sua implementação e aplicação. Um relatório recente da ONG Counter Extremism Project descobriu que o Facebook não removeu páginas pertencentes a grupos neonazistas conhecidos depois do atentado de Christchurch, Nova Zelândia, este mês. O Facebook quer garantir que a aplicação de suas políticas seja consistente no mundo todo e de moderador para moderador, uma razão para a política não banir expressões implícitas e codificadas de nacionalismo e separatismo brancos.

David Brody, advogado do Lawyers' Committee for Civil Rights Under Law que fez lobby no Facebook pela mudança de política, disse a Motherboard por telefone que “se há um certo tipo de conteúdo problemático que realmente não é passível de fiscalização em escala, eles preferem escrever suas políticas de um jeito que podem fingir que isso não existe”.

Keegan Hankes, analista pesquisador do Projeto de Inteligência do SPLC, acrescentou: “Uma coisa que continua a me surpreender sobre o Facebook é a falta de vontade deles de reconhecer que mesmo se o conteúdo não é explicitamente racista ou violento, eles precisam pensar sobre como seu público está recebendo essa mensagem”.

Com certeza é uma mudança positiva, mas você tem que pensar no contexto: que eles deveriam ter feito isso logo no começo.”

A proibição do Facebook de nacionalismo e separatismo brancos demorou para acontecer, e especialistas com quem a Motherboard falou acreditam que o Facebook foi muito lento para agir. A Motherboard publicou documentos mostrando a distinção problemática do Facebook de supremacia e nacionalismo em maio do ano passado; o Lawyers' Committee escreveu uma carta crítica para o Facebook em setembro. Nesse meio tempo, a antiga política do Facebook continuou valendo.

“Com certeza é uma mudança positiva, mas você tem que pensar no contexto: que eles deveriam ter feito isso logo no começo”, Brody disse a Motherboard. “Quanto crédito você ganha por fazer o que deveria ter feito em primeiro lugar?”

“É ridículo”, acrescentou Hankes. “O fato de ter levado tanto tempo depois de Charlottesville, por exemplo, e depois dessa última tragédia, para chegar numa posição onde, claro, nacionalismo e separatismo brancos são eufemismos para supremacia branca.” Ele disse que vários grupos estavam fazendo lobby com o Facebook sobre essa questão, e estavam frustrados com a resposta lenta.

“Parece que a única vez em que você consegue uma resposta séria dessas pessoas é quando acontece uma tragédia”, ele acrescentou.

A Motherboard trouxe essa crítica para Fishman: Se o Facebook só agora percebe que a visão acadêmica comum é que não há distinção entre supremacia branca e nacionalismo branco, por que essa não era a visão antes?

“Eu diria que achamos que acertamos dessa vez”, ele disse.

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