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Acolher minorias no mercado de trabalho precisa ser uma realidade

Em SP, conhecemos um café que contrata pessoas indicadas por ONGs e mostra como o mercado pode se beneficiar dessa troca.

por Amauri Eugênio Jr.
07 Fevereiro 2019, 9:00am

A chef Mônica Lemos e o garçom e refugiado sírio Sulaiman Mohamad. Fotos: Larissa Zaidan/VICE

Fica na rua da Consolação, região central de São Paulo, um café que vai além da decoração e aparência descoladas. Basta trocar uma ideia com os funcionários do Trampolim Startup Café para sacar que o conceito do lugar tem um quê de responsabilidade social e diversidade.

Instalado nas dependências de um hotel que antes abria apenas para os hóspedes tomarem café da manhã e ficava fechado por 20 horas, o estabelecimento tem como um dos principais focos promover contratações de pessoas que precisam de uma nova chance profissional ou reconstruir as suas respectivas vidas. "Não queríamos que fosse só mais um negócio para visar apenas o lucro, mas que também tivesse impacto social”, descreve João Clímaco, gerente da casa.

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O Trampolim Startup Café. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Para ser possível colocar em prática o conceito do Trampolim, a equipe envolvida no projeto recorre ao auxílio de ONGs voltadas à inclusão social para a escolha dos funcionários, como o Centro Social Menino Jesus, a Afrobusiness, a Estou Refugiado, entre outras. A mesma lógica é aplicada ao cardápio: boa parte dos pratos é fornecida por pessoas indicadas pelas mesmas ONGs.

Ainda que cada trabalhador do Trampolim tenha a sua própria trajetória, o espírito cooperativo vem à tona e eles ajudam um ao outro a evoluir em âmbitos pessoal e profissional. “A gente vê que eles acabam se unindo muito mais do que nas equipes convencionais – cada um tem a sua particularidade para contar. Os refugiados, por exemplo, ensinam outros idiomas – há pessoas aqui que falam francês, espanhol e inglês”, destaca Clímaco.

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A chef Mônica Lemos, 50. Foto: Larissa Zaidan/VICE

De acordo com a chef Mônica Lemos, 50 – que entrou no café com ajuda da ONG Afrobusiness –, ainda que os refugiados cheguem desconfiados, o acolhimento os ajudam a se soltar a ponto de parecer que estão há um bom tempo aqui. “Posso te dizer que somos muito amigos. Vir para o refúgio é uma situação muito delicada e o recomeço é ainda mais difícil. Todos nós nos tratamos com muito respeito e deixamos [de lado] o que eles não gostam de falar sobre. Mas eles vão se abrindo aos poucos e contando sobre as vidas deles.”

Sentindo na pele

No Brasil há pouco mais de três anos, o sírio Sulaiman Mohamad, 28, dá sinais claros de que está adaptado ao país. Falando português perfeitamente compreensível e correto, ainda que com sotaque carregado, ele relata ter trabalhado em outros restaurantes até ter chegado lá, onde está há quase um ano. E volta e meia os clientes questionam sobre a vida no seu país de origem. “Eles me perguntam sobre como está lá. Algumas sabem que [o país] está em guerra e que está difícil para estudar e trabalhar, e falam para eu me sentir bem-vindo ao Brasil.”

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A líder de cozinha Fabiana Caitano de Lima. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Fabiana Caitano de Lima, 36, é líder de cozinha e atua há 15 anos na área gastronômica. Entrou no Trampolim logo quando o café abriu, por meio da parceria da casa com o Centro Social Menino Jesus, e tornou-se líder de cozinha com o passar do tempo. “[Entrar] aqui foi muito bom, pois tenho chance de crescimento. Desde quando vim para cá aprendi muita coisa e surgiram várias oportunidades. Estou conquistando muitas coisas por meio do trabalho aqui.” Ela é também fornecedora do espaço, uma vez que o Pudim da Fabi, criação dela que leva paçoca na composição, é um dos destaques do cardápio.

A chef Mônica chegou a ter o próprio bufê há alguns anos, mas faliu em virtude de diversos problemas à época. Após esse episódio, ela chegou a trabalhar em call center e com reservas de passagens de empresas aéreas até começar a fazer alimentos para fornecer em festas. E assim foi até ter descoberto o trabalho da instituição. E a relação vai além do emprego atual. “O meu filho é jovem aprendiz por meio da ONG, estou aqui e continuo fazendo eventos para eles.”

Próximos passos

Uma das características em comum de Mônica, Fabiana e Sulaiman é a vontade de crescer profissionalmente. A chef, por exemplo, fez cursos de hotelaria e de panificação desde quando entrou no Trampolim, está estudando inglês e pretende ir além. “Quero continuar o curso de gastronomia e construirei novamente a minha cozinha industrial.”

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O refugiado sírio e garçom Sulaiman Mohamad, 28. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Fabiana fez curso de cozinha internacional e está fazendo outros em cozinha oriental e de panificação. Todavia, os planos dela vão muito além de onde ela está, como o objetivo de fazer faculdade de gastronomia. Preciso aprimorar os meus conhecimentos e serei mais reconhecida no mercado de trabalho e no hotel por conta da faculdade.”

Já Sulaiman quer voltar ao ponto em que parou na Síria, onde trabalhava como designer de interiores – ele precisou deixar a carreira de lado por causa da situação sociopolítica no país. “Eu gostaria de voltar a estudar aqui e pretendo fazê-lo em alguns meses. É só terminar as aulas para aprender português e começar a estudar em [alguma] faculdade.”

Mais sobre o Trampolim Startup Café na página do Facebook.

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