Motherboard

Tirei uma Soneca numa Startup de Cochilinhos

Achei que o negócio era piada, mas, quando cheguei lá, vi que os caras levavam bem a sério. Tive que provar.

por Sarah Jeong
05 Outubro 2015, 8:18pm

Crédito: Sarah Jeong

Não dava para enxergar muito bem através da vidraça fosca da porta, mas, lá dentro, o escritório parecia todo escuro. Será que estavam abertos? Girei a maçaneta e, para minha surpresa, a porta se abriu. As luzes estavam baixas. Três cabines brancas, acolchoadas e reluzentes, encontravam-se no meio da sala; Brandon, o proprietário, estava sentado atrás de uma escrivaninha, no canto. Não havia dúvidas: eu estava mesmo em uma startup de cochilos.

A Doze SF gerou burburinho nas redes sociais na semana passada. "Chegamos ao ápice das startups", uma pessoa tuitou em tom crítico. "No mundo da tecnologia, já não dá mais para saber o que é paródia", disse outra.

Eu havia agendado um horário no site da Doze SF na noite anterior; meu maior receio era marcar cedo demais, não acordar a tempo e perder meu compromisso com o cochilinho. Foi uma semana puxada. Cobri um julgamento em Sacramento e tinha que acordar às 4h ou 5h da manhã todo dia para conseguir pegar o trem a tempo. Estava muito, muito cansada e, confesso, fiquei empolgada para enviar a fatura de um cochilo ao Motherboard.

Para a alegria do pessoal que mantém esse site, a Doze está em promoção — um cochilo de 25 minutos, que tem preço tabelado de US$ 20, sairia de graça. Digitei o código promocional, selecionei o horário do meio-dia e, no dia seguinte, apareci no cruzamento da New Montgomery com a Market Street, em São Francisco, na Califórnia, pronta para a minha experiência de naninha.

A Doze fica no décimo-segundo andar do edifício Hobart — um típico prédio histórico de São Francisco, lindo, repleto de detalhes em mármore e bronze no interior.

Enquanto caminhava nos corredores do décimo-segundo andar, eu me preparava para descobrir que a Doze era, na verdade, uma pegadinha.

Não era.

Crédito: Sarah Jeong

As cabines de cochilo da Doze são esquisitas. Eu nunca tinha visto nada igual — mas, mais tarde, Brandon contou que tanto o Google quanto o Facebook têm cabines do tipo em seus locais de trampo. E ele não estava brincando. A Doze não é piada mesmo.

Brandon — que não sabia, na hora, que eu era jornalista — ficou com um pé atrás em relação ao bafafá online que sua empreitada incitou. Depois que começaram a falar da Doze — em um tom de desdém e incredulidade —, ele publicou uma nota no site da empresa. "A questão é simples: um pouco de sono durante o dia é a forma ideal de lidar com estresse e cansaço. Estudos comprovaram essa premissa diversas vezes. Seja um contador ou um barista, nosso objetivo é deixar a opção mais acessível a todos."

A página acrescenta que a Doze não é financiada por capital de risco, nem investidores-anjos. Não passou por uma encubadora, nem fez crowdfunding. Nas palavras dele, parece mais uma lojinha de esquina, de família, do que uma startup.

Por outro lado, nunca tirei um cochilo numa lojinha de esquina.

Brandon me conduziu às cabines e me mostrou como funcionavam. São poltronas grandes, macias e reclináveis, com apoio de braço, aninhadas dentro de domos. A estação tem uma abertura na frente. Quando você entra, um painel desce rolando sobre a abertura, para isolá-lo do resto do mundo. Lá dentro, a cabine é mais confortável do que parece. Tem fones de ouvido com cancelamento de ruído e um painel de controle ao lado do assento permite com que você ajuste a inclinação, a música e até mesmo a leve vibração da poltrona.

Créditos: Sarah Jeong

Entrei na cabine e, na mesma hora, Brandon fechou a porta. Coloquei os fones de ouvido e apertei o botão para iniciar os meus 25 minutos de paz e calmaria. "Estação de energia ativada. Aproveite o MetroNap [MetroCochilo]", uma voz feminina sussurrou em meus ouvidos, e uma música relaxante começou a tocar. Parecia um misto de Portishead e música de elevador. Funcionou.

Comecei a tirar fotos clandestinas do interior da cabine. Nenhuma saiu boa. Afinal, eu estava dentro de uma cabine escura, onde deveria estar dormindo.

Guardei o celular e fechei um pouco os olhos. A vibração nas costas estava agradável. Quando abri os olhos novamente, dez minutos haviam se passado. Fiquei nervosa. Onde foi parar minha horinha de cochilo? Estava certa de que não havia dormido, mas os minutos foram embora. Chequei o celular e enviei uma mensagem para o editor. "Estou escrevendo da cabine de cochilo. Essa história de cochilo é 100% real."

"Não é possível", ele respondeu.

Verifiquei o painel de controle para saber quanto tempo me restava. E se eu pagasse por mais 25 minutos e enviasse a fatura ao Motherboard? Em nome do jornalismo, claro.

Dentro do confinamento sereno da cabine de cochilo, comecei a pensar em todos os cochilos meia-boca que eu já havia tirado. Na faculdade, eu usava os quarenta minutos entre Responsabilidade Civil e Processo Civil para deitar no alojamento, ligadona por conta do excesso de café, tentando não pensar no quão estressada estava. Nem sempre funcionava.

Em que estilo de vida o agendamento de cochilos faz sentido?

Durante a contagem regressiva da cabine, uma luz vermelha começou a acender lá dentro. Ou será que havia luzes suaves o tempo todo? Já não conseguia mais me lembrar. Ficavam vermelhas, depois brancas. Minha cadeira retornou à posição vertical. Meu cochilo chegara ao fim.

Permaneci estirada, ao passo que encarava, arrasada, o timer sem tempo. Foi estranho imaginar que Brandon não estava muito distante da estação. Meu tempo sentada, sem querer sair, pareceu uma eternidade. Lembrei que precisava escrever o artigo e abri o domo.

"Conseguiu relaxar?", perguntou Brandon, sentado em sua escrivaninha, sorridente. Respondi que sim, e perguntei se poderia tirar algumas fotos da cabine. Ele assentiu e deu risada. Brandon não parecia achar a cabine esquisita — para ele, representa apenas mais uma amenidade da indústria da tecnologia que ele trazia ao mundo.

Conversei um pouco com ele antes de me despedir e deixar o edifício Hobart. Lá fora, um grupo de rapazes que vestia moletons idênticos, estampados com logos, caminhava sem rumo, indeciso quanto ao local de almoço. Passei por eles e corri até a estação para pegar o trem rumo a East Bay.

No trem, sentei-me ao lado de um jovem de camisa de flanela e calça jeans, que estava apoiado na janela, corcunda, ostentando fones de ouvido com cancelamento de ruído. Seus olhos estavam fechados.

A Doze não fez o menor sentido para mim. Em que estilo de vida o agendamento de cochilos faz sentido? Existem mesmo pessoas que trabalham dez, doze horas por dia, desesperadas por sono, mas com receio de tirar cochilos no escritório, onde os chefes podem ver? Parece exagero — mas, até aí, também não sou o tipo de pessoa que leva o laptop ao banheiro para tentar desenvolver um código de programação sentada no vaso.

Assim como as lavadeiras e gestores de pensões que fizeram a festa com a Corrida do Ouro da Califórnia, talvez a Doze não seja tão ridícula quanto os sinais dos tempos em que vivemos agora, sob a tirania da produtividade.

Foi uma reflexão presunçosa, que desenvolvi enquanto me apressava para chegar em casa; para escrever o artigo o mais rápido possível.

Tradução: Stephanie Fernandes