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Motherboard

‘Tudo É Energia’: Como os Senhores do Tempo Veem o Mundo

“Eles viajam pelo tempo."

por Steven Melendez
02 Janeiro 2015, 1:00pm

​Crédito: Shutterstock

No começo da tarde do primeiro domingo desse mês, no salão de festas do Hotel Pennsylvania, em Nova Iorque, Sean David Morton mencionou, casualmente, que ele consegue viajar no tempo.

Morton, um radialista com cabelos castanhos e revoltos e um rosto jovial que reflete sua energia contagiante, disse que aprendeu a prática com monges budistas, em sua temporada em um monastério perto do Monte Everest, no Nepal.

"Eles são, para todos os efeitos, Time Lords ("Senhores do Tempo", em tradução livre, uma raça alienígena do seriado Doctor Who que tem o poder de viajar no tempo)", disse Morton. "Eles viajam pelo tempo."

Usando os conhecimentos que aprendeu no treinamento, Morton disse que conseguiu viajar 100 anos no futuro, onde ele descobriu que as atuais guerras no Oriente Médio irão enfraquecer a economia americana e aumentar a crise interna do país — isso sem mencionar uma guerra devastadora com a China.

"A China vai virar um buraco cheio de fogo e fumaça", disse Morton para o público da New Life Expo. O Canadá e os Estados Unidos irão se fundir em uma União Norte Americana e adotarão a bandeira de Gadsgen.

Mas os sobreviventes da guerra e seus descendentes irão passar por uma revolução espiritual. De seu ponto de partida em New Omaha, em Nebraska, Morton disse que viu os homens do futuro vestidos em túnicas brancas feitas de um material chamado "eletroseda", que ampliaria seus poderos psíquicos. Os computadores faziam parte de sistemas com bolas de cristal e fontes de água corrente, disse Morton, e, como ele me disse mais tarde, os humanos eram guiados por uma "figura messiânica chamada Emmanuella".

O que é mais impressionante talvez seja o fato de Morton, que se pronunciou várias vezes durante a conferência de três dias, só ter mencionado suas viagens no tempo no final de uma palestra de uma hora, no último dia do evento. Morton, havia, segundo ele, alcançado uma proeza tematizada por todos os grande escritores de ficção científica do século passado; e, ainda assim, ele mencionou a história tão descontraidamente quando um outro radialista lembraria de um show do Aerosmith que ele assistiu antes deles ficarem famosos.

Quando eu perguntei para Morton por que ele não havia falado da experiência com mais empolgação, ele pareceu confuso com a pergunta, e respondeu, em outras palavras, que viajar no tempo não é grande coisa.

"É muito fácil viajar no tempo quando você usa a visão remota", ele disse, explicando que ele já deu um curso de visão remota antes de 2001, com o objetivo de prever o estado de Nova Iorque em 2015. Ninguém previu as Torres Gêmeas, mas todos previram "inundações terríveis", ele disse.

"EXISTEM DOIS MANTRAS UNIVERSAIS — O PRIMEIRO É 'EU POSSO ESTAR ERRADO', E O SEGUNDO É 'A-HA!'

Morton faz parte do grupo dos palestrantes do evento que apresentaram, de forma confiante e despretensiosa, uma visão de mundo intricada, fascinante, e completamente não-ortodoxa. Mesmo com toda essa convicção, os palestrantes pareciam mais abertos a aceitar o ponto de vista dos outros do que a maioria das pessoas no público.

"É preciso respeitar o fato de que você está abrindo sua mente para todas as possibilidades", disse Mark Becker, que organiza a New Life Expo desde 1990 e publica uma revista com o mesmo tema desde 1981. "Existem dois mantras universais — o primeiro é 'Eu posso estar errado', e o segundo é 'A-ha!".

Becker, que ainda tem os cabelos longos como na capa de seu guia de exercício Basic Yoga and You, lançado nos anos 70, abriu o Centro de Cura Natural Serenity de Manhattan, que, segundo ele, oferecia yoga e comidas naturais antes delas se tornarem moda.

"Mesmo que você não seja um fã de posição de lótus, você pode ficar fascinado com as centenas de ervas, cascas de árvores e sementes disponíveis na loja", lê-se em uma crítica da loja escrita em 1977 e publicada na The New York Times.

Uma reportagem entitulada "O Assunto da Cidade", publicada na The New Yorker em 1984, afirmava que Becker havia ensinado figuras importantes como Erica Jonge e a atriz Carol Lynley, explicando que suas aulas de "Yogaeróbica", que misturavam yoga tradicional e exercícios aeróbicos, eram motivo de desconfiança entre os praticantes mais conservadores.

Becker disse que queria tornar a yoga acessível para todos, incluindo membros de seitas que eram, na época, contra a prática.

"Eu quero abrir um centro de yoga sem túnicas laranjas, que católicos e judeus possam frequentar sem que seus padres e rabinos digam 'o que você está fazendo?'", disse ele, explicando suas razões para abrir o centro Serenity.

Becker me contou que os yogis diziam que a parada de mão e de ombro traziam, literalmente, uma nova perspectiva do mundo.

"Quando estamos de cabeça para baixo, vemos o mundo invertido, da mesma forma que outra pessoa pode vê-lo, e é nesses momentos que você tem as sensações de 'A-ha' e de 'Eu posso estar errado'", disse ele.

Ele disse que algo parecido acontece coma troca de ideias que ocorre na New Life Expo, que ocorre três vezes ao ano em Nova Iorque.

Audrey Light Language, uma mulher nascida no Queens que diz se comunicar com seres evoluídos e que descarta seu sotaque de Nova Iorque para falar a linguagem mística (origem de seu último sobrenome), falou em um painel moderado por Morton.

Faziam também parte do painel Stephen Popiotek, que faz meditações guiadas e se comunica com seres extraterrestres; Marge Ptaszek, uma estudante do "Livro do Conhecimento", que os fiéis acreditam vir do mesmo plano astral da Bíblia e do Alcorão; a famosa astróloga novaiorquina Diana Brownstone; e Thunder Cloud, um pesquisador que afirma ter desenvolvido imagens holográficas que podem fazer de tudo: desde reduzir o consumo de energia dos celulares quando utilizado como imagem de fundo a mudar o sabor de bebidas quando utilizado como porta-copos.

"É tudo uma coisa só — é tudo energia", disse-me Audrey Light Language quando eu perguntei sobre o respeito que ela e outros palestrantes tinham pelas crenças dos outros. "Algumas pessoas não querem expressar isso de uma forma religiosa ou espiritual; tudo faz parte de um campo quântico, então você também pode pensar nisso dessa forma, não faz diferença."

No seu caso, ela diz que começou a se comunicar com seres espirituais depois de ler livros esotéricos na biblioteca da sua cidade. Em passeios à biblioteca com seus filhos, ela começou a ler livros sobre espiritualidade e vida após a morte, física quântica e arquitetura antiga; enquanto isso, seus amigos gostavam de leituras mais leves.

"Eu não tinha com quem conversar sobre esses interesses", ela disse, até que os seres começaram a se comunicar com e através dela, oralmente e através da psicografia, fazendo com que suas mãos se movessem sem que ela as pudesse controlar.

"Você é uma sacerdotisa antiga", os seres diziam, uma representante de Isis em uma vida passada. "E eu pensei, 'o quê?'"

Mas no fim ela aprendeu a se comunicar com o que ela chama de "seres de luz".

"O termo 'seres de luz' é diferente do termo que usei no final [do painel], quando eu falei na Linguagem da Luz", ela disse. "O nome deles não pode ser traduzido, porque não há uma palavra em inglês para definir o que eles são."

OS HELICÓPTEROS NEGROS COMEÇARAM A APARECER NESSA ÉPOCA, TAMBÉM

Popiotek, o outro médium do painel, teve uma experiência parecida, e disse que começou a se comunicar com seres extraterrestres no final da adolescência e no início da idade adulta.

"Os helicópteros negros começaram a aparecer nessa época, também", ele disse em uma apresentação, afirmando que seres menos benevolentes estão trabalhando com a "elite das sombras" para dominar o mundo e desacelerar a evolução da consciência humana.

"Muitos dos metais pesados que eles estão jogando nos rastros de fumaça deixados por aviões servem para desacelerar a produção de novos filamentos genéticos", ele disse, se referindo às substâncias químicas que são supostamente lançadas na atmosfera por aviões de alta altitude."Somos como insetos sendo pulverizados por essa elite das sombras."

Popiotek diz que já se comunicou com os espíritos elementais do bismuto, alumínio e outros metais presentes nesses rastros químicos.

"É possível se comunicar com esses espíritos elementais, da mesma forma que podemos nos comunicar com nossos guias ou anjos". E, segundo ele, esses espíritos não estão nada contentes com o jeito que estão sendo utilizados.

Como Morton, Popiotek prevê uma era de conflito e maior fluxo de energia psíquica. Popiotek me disse que ele tirou essas conclusões a partir de uma "perspectiva xamânica e uma perspectiva mediúnica"; já as previsões de Morton são baseadas em escrituras maias e suas experiências com viagem no tempo.

"É como os hemisférios do cérebro, direito e esquerdo, se comunicando", disse Popiotek, notando que ambos os métodos chegam ao mesmo resultado.

Ele afirma que costuma usar métodos intuitivos para verificar a autenticidade das previsões de outros sobre o futuro do planeta.

"É como se a verdade tivesse uma vibração" ele disse. "Existe uma diferença entre a verdade e a mentira, a ilusão."

UM DOS PALESTRANTES DO EVENTO, QI FEILONG APARECEU RECENTEMENTE NO PROGRAMA AMERICA' GOT TALENT, DA NBC, ONDE ELE PAROU O PONTEIRO DOS SEGUNDOS DE UM RELÓGIO COM A MENTE

Algumas vezes, com a ajuda de técnicas de "programação onírica", ele vê as respostas para perguntas importantes quando dorme, e, em outras, ele checa alguns fatos com os seres que convoca.

"Se eu quero perguntar algo, costumo pedir para receber uma confirmação em um certo período de tempo" ele disse. "Peço para meus guias e anjos."

Becker também disse que ele sempre avalia as afirmações de outros — intuitivamente e espiritualmente.

Um dos palestrantes do evento, Qi Feilong, apresentado como mestre de kung fu e monge Shaolin, apareceu recentemente no no programa America's Got Talent, da NBC, onde ele parou o ponteiro dos segundos se um relógio com a mente, quebrou palitinhas de madeira usando apenas uma nota de 20 dólares, e recebeu vários chutes do apresentador Nick Cannon em suas partes íntimas, sem sentir nenhuma dor.

Na primeira noite do evento, ele repetiu o feito com palitinhos de madeira e convidou um membro do público para chutar suas partes íntimas, proposta que ela recusou com muita educação. Em outras apresentações, Qi fez jornais pegarem fogo do outro lado do salão, enquanto membros do público os seguravam.

Apesar de ilusionistas fazerem coisas parecidas constantemente — o ponteiro de um relógio pode ser parado com um imã escondido, palitos de madeira podem ser quebrados com um toque furtivo, e um jornal pode ser aceso com alguma reação química misteriosa— Qi atribui seus feitos à sua energia espiritual.

"Eu sei que o que ele faz é verdade", dis Becker. "Isso só mostra como tudo é energia."

E é claro que algumas das afirmações proferidas na New Life Expo devem ser sujeitas à uma investigação empírica.

"Você simplesmente manda uma mensagem para o seu celular, o segura do lado de um copo de água, bebe essa água, e no final tem os mesmos efeitos que teria se tivesse tomado algum remédio", explicou Thunder Cloud, um físico quântico cujos longos cabelos loiros inspiram piadas sobre "estrelas do rock" vindas de outros palestrantes, sobre o funcionamento de suas invenções holográficas.

E, de forma ainda mais abstrata, a astróloga Diana Brownstone enfatizou que suas previsões são baseadas na interpretação da posição das estrelas e dos planetas.

"É tudo matemática", ela disse. "Tudo está planejado astronomicamente, a partir de onde os planetas estarão."

A interpretação desse trânsitos, e os conselhos informais que Brownstone dá, são a parte artística de seu negócio.

"Eu sempre tento dar diferentes variáveis, para mostrar como tudo pode acontecer", ela disse.

E, como os céticos afirmam há muito tempo, essas ambiguidades dificultam o trabalho de testar a veracidade das previsões de um astrólogo ou médium.

Muitos astrólogos previram que Mitt Romney ficaria satisfeito com o resultado das eleições presidenciais de 2012, afirmou Morton durante um painel, argumentando que eles não estavam necessariamente errados.

"No final, perder o deixou mais feliz do que se tornar o presidente dos Estados Unidos", concluiu Morton.

Tradução: Ananda Pieratti