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Como operam as seitas

Conversamos com um ex-membro de seita que comanda um centro de informações sobre cultos no UK para entender como eles sugam e depenam pessoas hoje em dia.

por Daniel Dylan Wray
10 Maio 2016, 10:00am

Ilustrações por Dan Evans/VICE.

Matéria originalmente publicada na VICE UK.

Cultos sempre serão associados aos grandes nomes. David Koresh, Jim Jones, Charlie Manson — os caras que monopolizam metade da seção de documentários do Netflix, como se fossem os únicos sociopatas megalomaníacos a agraciar uma instalação fortificada. Mas há vários outros grupos mais humildes por aí, sugando pessoas e as depenando de tudo que elas têm valor.

Ian Haworth, um ex-membro de culto, comanda o Cult Information Centre do Reino Unido desde 1987. Lá, ele e sua equipe fornecem informação, aconselhamento e assistência para aqueles que querem deixar um culto, para os que já deixaram e amigos e familiares preocupados. Falei com ele para ter uma ideia de como um culto moderno opera.

VICE: Oi, Ian. Como você acabou entrando para um culto?
Ian Haworth: Eu estava fazendo compras um dia [em Toronto] e uma senhora perguntou se eu poderia ajudá-la numa pesquisa. Concordei. Depois ela disse que eu provavelmente me interessaria pelo grupo comunitário que ela representava, dizendo "Você não acha que é hora de devolver para a comunidade, em vez de só tirar, como a maioria das pessoas fazem?" A reunião consistia de uma palestra, seguida de coffee break e um filme. Quando o coffee break começou, várias pessoas entraram na sala com todo tipo de comida. Eu tinha pago $1,50 para participar, então achei que tinha feito um bom negócio.

Aí eu decidi sair para fumar um cigarro, mas uma pessoa correu até mim e disse: "Ah, não sabia que você fumava. Pode fumar aqui, mas você já pensou em parar?" Cerca de um mês antes, meu médico me disse que eu provavelmente ia morrer aos 40 se não largasse o cigarro, então essa pessoa encontrou minha área de interesse. O curso [para parar de fumar] durava quatro dias e eles garantiam o sucesso. No final do curso, eu tinha dado todo meu dinheiro a eles, decidi dedicar minha vida ao grupo e me demiti do meu trabalho.

Foi tudo muito rápido. Como você conseguiu sair?
Virei uma pessoa completamente diferente, mas, claro, eu não sabia disso. Meus amigos sabiam, meu colega de apartamento sabia. As pessoas tinham medo de mim, tinham pena, as pessoas tinham várias emoções sobre mim mas não sabiam o que fazer. Meus colegas de trabalho ficaram chocados quando me demiti, porque eu estava indo muito bem. Quando estava trabalhando meu último mês lá, o grupo [PSI Mind Development Institution — que não existe mais] foi exposto pela mídia. Eu ainda não tinha sido programado contra a mídia, então estava aberto ao que eles tinham a dizer. Isso reativou minha mente crítica e consegui sair. Depois passei 11 meses em síndrome de abstinência pesada.

Você acredita que pessoas inteligentes e educadas têm mais chances de serem recrutadas do que pessoas consideradas instáveis, certo?
Essa ideia de pessoas perturbadas é um mito eterno. Queremos acreditar que esse é o caso, porque ninguém gosta de se considerar "vulnerável". Não uso muito a palavra vulnerável, mas digo que todos nós estamos vulneráveis às técnicas usadas por esses grupos. O falecido Dr. John G. Clark, que cito muito, disse que as pessoas mais seguras são as com problemas mentais. As pessoas mais fáceis de recrutar são aquelas com uma mente alerta e questionadora, que querem debater coisas com outras pessoas. Pegue uma pessoa de vontade forte e a coloque num ambiente de culto, as técnicas usadas vão quebrar essa pessoa muito, muito rápido. Quanto mais inteligente e saudável for sua mente, mais rápido e fácil eles vão conseguir te controlar. É uma realidade trágica.

Quais são os principais motivos para aderir e recrutar pessoas para cultos?
Os denominadores comuns são pessoas e dinheiro. Alguns podem apenas gostar do poder que têm sobre uma massa de pessoas; outros podem querer adquirir benefícios financeiros e juntar fortuna; alguns pode até ter a ambição de dominar o mundo. Aí você tem aqueles que realmente acreditam que são Deus ou algo assim. Esses geralmente têm problemas mentais. Então há uma variedade de líderes e todos podem ter motivações ligeiramente diferentes. Mas, novamente, os denominadores comuns são dinheiro e pessoas.

Você estima que há entre 500 a 1.000 cultos no Reino Unido atualmente. Eles estão ascensão?
Sim. Se alguém é recrutado por um culto, essa pessoa — entre outras coisas — vai começar a recrutar mais pessoas. Seja formal ou informalmente, elas obedecerão as instruções do grupo de como fazer isso. Então cada pessoa recruta outras, e você tem o crescimento exponencial dessa organização. Aí você tem lutas pelo poder e divisões internas. Assim surgem novos grupos, de diferentes partes do mundo, criando ramificações no Reino Unido, e esse é um fenômeno que está crescendo.

Ilustração: Dan Evans/VICE.

Vocês já se infiltraram em reuniões de cultos para conseguir informação
Não, isso seria um erro. Nunca recomendamos participar de nenhuma reunião desses grupos, porque as técnicas que eles usam funcionam em qualquer um, incluindo eu.

O que geralmente faz um membro querer sair de um culto e procurar a sua ajuda?
Como os cultos usam técnicas de controle mental no recrutamento, essas pessoas têm a mente controlada pelo grupo. Sem controle dos processos de pensamento normais, a pessoa fica comprometida e não pode mais avaliar as situações criticamente. Você se torna outro. O que geralmente acontece é que algo reativa sua mente crítica. Pode ser algo que você vê ou ouve que não deveria dentro do grupo; pode ser algo que alguém diz — quando você está recrutando ou pedindo dinheiro. Se você é programado para achar que as pessoas são más e serão hostis com você, mas alguém acaba sendo gentil e simpático, isso te causar uma perturbação.

Durante esse período, o que os cultos fazem para tentar trazer o membro de volta?
Isso varia. Quando está num culto, você é programado para pensar que o grupo é o começo e o fim, e que quem sai dele vai sofrer horrivelmente. Então você, como membro do culto, vai achar que é uma boa ideia tentar contatar ex-membros para trazê-los de volta. Então não é incomum ver pessoas serem perseguidas.

As técnicas são sempre psicológicas, ou você já encontrou casos de ameaças e violência física?
Já tive que lidar com pessoas que saíram de cultos e morreram. Lembro de um caso que estava para ser julgado — o governo estava de olho nesse grupo em particular, possivelmente para tentar remover seu status de fundação de caridade — e a testemunha-chave, um ex-membro do grupo, foi encontrado enforcado num poste. Alguns dizem que foi assassinato, outros suicídio. Eu não sei ao certo.

Conheci um rapaz do Canadá que fugiu de uma organização e ficou bastante abalado. Normalmente só converso com as pessoas por telefone, mas me ofereci para encontrar com ele pessoalmente. Ele estava na universidade e tinha muito trabalho pela frente porque estava começando suas provas, então eu disse: "Bom, posso encontrar alguém para falar com você pelo telefone uma ou duas vezes por semana, enquanto você faz suas provas, só para garantir que você está bem" Ele concordou, então aconteceu o seguinte: Depois das provas ele foi encontrado com a garganta cortada de orelha a orelha e, novamente, alguns disseram que tinha sido assassinato, outros, suicídio. A polícia disse que foi suicídio. A família sugeriu assassinato. Você pode dizer que toda família diria isso, mas o pai dele era médico e disse que não havia sangue o suficiente no local para ter sido suicídio.

Se os cultos estão em ascensão no Reino Unido, o que poderia ser feito para controlar isso? Que medidas preventivas poderiam ser aplicadas?
Quanto mais cedo o governo perceber que os cultos estão por toda parte, mais poderá ser feito para combater o terrorismo. Não apenas os grupos terroristas que operam no exterior, mas também aqueles que estão radicalizando as pessoas dentro do país. Se soubermos as motivações e ações desses cultos, talvez isso seja muito mais eficiente para tentar ajudar as pessoas a voltarem da Síria ou outros países. Assim elas podem voltar para casa, voltar ao normal e ser uma grande fonte de informação.

Ex-membros de culto são grandes fontes de informação. Pessoas presas como extremistas podem ser trazidas de volta à realidade, então muito pode ser feito nessa área. Acho que muito pode ser feito em termos de educação pública nesse sentido; mas tudo começa com o governo reconhecendo o que está acontecendo. Acho que há necessidade de um programa educacional para ajudar a sociedade britânica a se conscientizar sobre como cultos operam, no que prestar atenção e, portanto, o que evitar, e como ajudar membros atuais e ex-membros a voltarem para a realidade.


Tradução: Marina Schnoor

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