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Ciganos Sequestradores de Crianças! (Não Estão Vindo Pegar Seus Filhos)

O medo histérico e infundado de ciganos que roubam bebês se espalhou pela Irlanda semana passada, o que levou a polícia a tirar os filhos de duas famílias romani.

por Brian Whelan
07 Novembro 2013, 3:20pm


Maria e o casal cigano que toma conta dela.

O medo histérico e infundado de ciganos que roubam bebês se espalhou pela Irlanda há algumas semanas, o que levou a polícia a tirar os filhos de duas famílias romani. No final das contas, a polícia era a única sequestradora de crianças na história, que foi o ápice de anos de crescimento do sentimento antiromani que políticos – e, às vezes, a imprensa – preferiram perpetuar do que prevenir.

Há tempos, a comunidade romani vem fazendo o papel de bode expiatório da Europa. Essa é a última minoria que políticos respeitáveis podem atacar abertamente. Apesar do legado negro da Porajmos, quando os nazistas exterminaram mais de 1,5 milhões de romani durante a Segunda Guerra Mundial na Europa, repetir insultos centenários a essa cultura nunca se tornou um tabu.

Essa rodada de ódio aos cigano começou semana retrasada na Grécia, onde uma criança – Maria – loira e de olhos azuis, foi encontrada morando com ciganos que não eram seus pais biológicos. Imediatamente, o antiquíssimo mito dos ciganos sequestradores renasceu. Pais de crianças loiras desaparecidas fizeram fila para dizer que tinham encontrado uma nova esperança com o caso, que agora acreditavam que ciganos poderiam ter pego suas crianças. Uma ideia tão desacreditada quanto o libelo de sangue contra os judeus – de que eles usavam crianças cristãs em rituais – mas que as pessoas adoram repetir de vez em quando.

Foi confirmado que a criança criada pelos ciganos na Grécia era realmente romani, que seus pais eram da Bulgária e que sua mãe entregou a guarda dela porque a família era muito pobre. No entanto, é improvável que isso diminua o ritmo da narrativa antirromani que se espalha pelo continente. A história veio logo depois que Francois Hollande, o presidente da França, revelou seu lado maligno ao deportar os pais e irmãos de uma garota romani. A menina foi tirada à força de seu ônibus escolar por policiais quando o pedido de asilo da família foi negado. Depois de protestos, as autoridades ofereceram à garota a chance de retornar à França sem os pais, que já haviam retornado à Sérvia. Na Inglaterra, o jornal Mail deixou toda a nação alerta sobre seis – sim, seis – sem-teto romani que tinham sido levados do Reino Unido de volta para a Romênia, só para ter a ousadia de retornar e morar num parque público.

De volta à Irlanda, com sua história infeliz de preconceito contra nômades, o pânico gerado pelos eventos na Grécia gerou vergonhosas 24 horas. Duas crianças ciganas foram tiradas dos pais pela polícia, mantidas na delegacia durante a noite e obrigadas a fazer testes de DNA para provar que pertenciam aos pais.

A “pista” que a polícia irlandesa seguiu veio do jornalista da TV3 Paul Connoly, que recebeu uma mensagem de um estranho no Facebook alertando: “Há uma garotinha loira de olhos azuis vivendo numa casa romani em Tallaght”. Anteriormente, Connolly tinha feito uma reportagem tosca sobre a comunidade romani. Sua investigação frustrada de uma hora não conseguia identificar nenhuma ligação entre ciganos e o crime organizado, e foi considerada uma “vergonha para a TV3”. Talvez por isso a polícia devesse ter considerado as informações do repórter com um pouco mais de ceticismo. Apesar de os pais terem apresentado passaportes e certidões de nascimento, os polícias levaram as crianças. (Uma coisa interessante: a casa da família em questão tinha câmeras de segurança e plástico protegendo as janelas, mas a imprensa internacional não se deu ao trabalho de bater na porta deles e perguntar que tipo de ataques justificavam essas medidas de segurança.)

Em Athlone, outra cidade da Irlanda, a dica de um cidadão preocupado levou a polícia a tirar um garoto de apenas dois anos de sua família, obrigando o menino a passar a noite na delegacia e fazer um teste de DNA – o garoto também tinha a pele mais clara do que os pais.


Uma marcha do orgulho romani em Budapeste semanas atrás. (Foto cortesia de Redjade.)

O extermínio nazista do povo romani não os coloca acima de suspeitas, mas o limite para aceitar denúncias sobre minorias perseguidas deveria ser mais alto. O Irish Daily Star chamou a operação da polícia de “um completo desastre” na primeira página do jornal na quarta-feira passada – muito antes da polícia devolver o menino – mas outro jornal no Reino Unido não teve vergonha de estampar a machete: “'Maddie' Encontrada na Irlanda” (uma referência a Madeleine McCann, uma menina inglesa desaparecida em Portugal em 2003).

Infelizmente, o que aconteceu na Irlanda semana passada não é o pior crime cometido contra a comunidade romani nos últimos anos. Apenas dois meses atrás, ultranacionalistas húngaros foram presos depois de assassinar famílias romani em suas próprias casas durante 14 meses. A vítima mais jovem tinha apenas cinco anos. Em Belfast, socialistas e anarquistas montaram guarda em frente a casas romani em 2009, quando suásticas foram pichadas nas paredes e cenas violentas fizeram 100 pessoas deixarem a cidade.

Antes de lidar com ataques vindos da Garda Síochána, a polícia irlandesa, os romani húngaros tiveram que defender suas casas da Magyar Garda – vigilantes de extrema-direita que me deram um soco na cabeça uma vez, depois que um membro bêbado me confundiu com um judeu. Caras legais mesmo. Na Hungria, os romani encaram protestos regulares em frente às suas casas porque, aparentemente, são a causa de todos os problemas da sociedade. Isso de acordo com o Jobbik, outro grupo de extrema-direita que devia ser apenas mais um bando de loucos gritando bobagens nas calçadas, mas que está prestes a se tornar o segundo maior partido político do país. Qualquer membro do grupo ficará feliz em contar as atrocidades cometidas pelos romani, até ser pressionado um pouco mais e confessar: “Bom, isso nunca aconteceu comigo, mas um amigo meu...”.


Membros da Magyar Nemzeti Garda, uma milícia nacionalista húngara. (Foto por Brian Whelan.)

Visitei Gyongyospata, um vilarejo controlado pelo Jobbick, no começo do ano. Lá, vi centenas de nacionalistas uniformizados marcharem com tochas pelas ruas de terra do distrito romani, acelerando suas motos e socando qualquer cigano que tentasse defender a área em que a comunidade vive há 600 anos. Empurrados para as margens da sociedade, o desemprego dentro da população romani húngara – que chega a um milhão – é seis vezes maior do que a média nacional. Então, eles tentam ir para Espanha, Canadá ou França – mesmo sabendo que podem nunca se sentir bem-vindos lá.

Logo depois da conclusão do caso de suposto sequestro na Irlanda, um ativista me disse que os europeus estavam confundindo a questão principal: “Os romanis são europeus. Eles não são um povo sem pátria, são cidadãos da Europa. Ponto final. E a menos que sejam forçados a saírem de suas casas, eles tendem a não ser nômades. Sério, o yuppie europeu comum é mais 'nômade' do que o romani comum. Essa última semana mostrou muito sobre a Europa – principalmente que lendas racistas continuam vivas e enraizadas na grande mídia”.

E vi onde alguns romani acabaram na Inglaterra. Conversei com eles num parque do centro de Londres onde eles dormem, vendo eles comerem sachês de açúcar pegos em cafeterias para poder se sustentar. Não é uma vida glamorosa. Eles não são gangues criminosas sofisticadas. São pessoas desesperadas por uma vida melhor.

“Ciganos são ladrões, eles vêm para o nosso país para roubar benefícios sociais, crianças, nossas carteiras e mandar os milhões de volta para seus países de origem” – esse tipo de estereótipo preguiçoso é o último reduto seguro do racismo descarado. Nigel Farage pode afirmar que gangues criminosas romani vão invadir o Reino Unido e ninguém o compara a Enoch Powell. Imagine se uma família negra fosse suspeita de sequestro de crianças, e só essa suspeita já fosse suficiente para iniciar investigações policiais de outras famílias negras na Irlanda. Essa é a medida do absurdo dessa situação.


Charlie Chaplin vive numa marcha do orgulho romani em Budapeste. (Foto cortesia de Redjade.)

Charlie Chaplin era romani e fez o discurso mais sincero e apaixonado contra o fascismo que já vi em O Grande Ditador: “Vamos lutar por um mundo da razão, um mundo onde a ciência e o progresso levarão todos os homens à felicidade”. As lições da história estão ali – se continuarmos a marginalizar e desumanizar os romani, coisas ruins vão continuar acontecendo com eles. Projete um crime em toda uma etnia e sua mão será a mesma mão do fascista que espanca um romani até a morte.

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Os Novos Guetos Romani

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