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Flash Mobs Macabros Revelam o Talento Capixaba para o Linchamento

A alta performance dos players da nova temporada tem muita paulada, pedrada, chute-voadora e um repertório de golpes prontos para adaptação com sucesso para videogames.

por Gilberto Medeiros
28 Maio 2013, 7:50pm

Está aquecida a temporada de linchamentos no Espírito Santo, estado de pequenas proporções territoriais que concentra os maiores números de riqueza per capita no Brasil, além de ser campeão na desigualdade social e primeiríssimo lugar na violência contras as mulheres e jovens negros. Uma rápida busca na internet revela pelo menos 13 linchamentos ou tentativas somente nestes pouco mais de cinco meses de 2013.

Mas os números podem melhorar, afinal capixaba é brasileiro e não desiste nunca — não é assim que nos ensinou aquele comercial de televisão? Pois bem, esforço é o que não falta, como o leitor pode conferir nesta reportagem que mostra o repertório de golpes dos linchadores: tem paulada, pedrada, chute simples, chute-voadora, chinelada, fogo e, claro, muita porrada.

O caso mais recente ocorreu na manhã de sexta-feira, 24 de maio, quando um caminhoneiro foi esfaqueado até a morte ao mesmo tempo em que era apedrejado e espancado por dezenas de moradores de Morada da Barra, bairro periférico na zona sul de Vila Velha. Ele foi perseguido por um quilômetro antes de ser alcançado na Avenida Castelo Branco, onde foi linchado e morto com 15 facadas. Uma pedra de 20 quilos esmagou-lhe a cabeça quando ele já estava caído.

Ela foi atirada pelo pedreiro Adriano Oliveira dos Santos, 27, que confessou o ato após ser preso em flagrante pela polícia. Antes da pedrada, Adriano havia sido o primeiro a agredir Querino, quando desferiu um golpe de machado em sua perna. “Você matou, agora vai morrer”, teria dito, segundo apurou o delegado plantonista da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Gianno Pizzani Trindade.

O caminhão dirigido por José Querino de Paula, 51, foi incendiado.

Para detonar o acesso de fúria coletiva, minutos antes, por volta das 10 horas, Querino atropelou e matou Ávila Fantini de Oliveira Borges, de dois anos, sobrinha de Adriano. Ainda segundo o delegado, não há evidências de que ele dirigia em alta velocidade.

Semanas antes, a ocorrência foi a surra que um ladrão levou dos passageiros de um ônibus que tentara assaltar na segunda-feira, 6 de maio. Nem mesmo a foice que ele portava livrou a cara do assaltante de passar por uma relaxante sessão de bordoadas no município de Serra, região metropolitana da Grande Vitória. Depois de meia hora, o sujeito — que não teve seu nome revelado pela polícia — já estava com relaxamento em dentes, articulações, nervos...

Maio começou quente para os capixabas adeptos de juntar-se em grupo para encurralar, espancar e assassinar indivíduos. Quatro dias antes do caso acima, uma mãe que perdeu um bebê morto por asfixia escapou da morte por pouco na cidade de Cariacica, também vizinha da capital Vitória.

K.S.F., 19 anos, foi salva pela polícia depois de a população passar a atirar pedras em sua casa, sob a acusação de que ela batia em seu bebê. O fato é que o delegado da força-tarefa da DHPP, Altair Ferreira da Silva, afirmou para a imprensa que o resultado preliminar do laudo de necropsia apontou que o bebê não apresentava marcas de agressão no corpo e a criança asfixiou-se com seu próprio vômito. “A médica legista disse que a criança não tinha marcas de agressão e que a causa da morte foi asfixia acidental”, afirmou. Contrariando a lógica da desigualdade, no Espírito Santo está sujeito ao linchamento o ladrão, o motorista, o drogado, o empresário, o tarado, a estudante e até a mãe.

Nem dinheiro ou sucesso profissional foram capazes de salvar o couro de um empresário de 28 anos proprietário de um bar em Vitória após ele bater em seis carros, ferir um pedestre e capotar o carro na madrugada de 16 de março, virada de sexta para sábado. Autuado por dirigir alcoolizado e sem portar carteira de habilitação, o empresário foi salvo por um morador de Jardim da Penha (Vitória) após provocar a confusão. Ensanguentado, conseguiu abrigo em um condomínio até a polícia chegar. Seu carro, um Palio vermelho, foi depredado pela multidão.

Daí que, como tragédia pouca é bobagem, a história do empresário ocorreu um dia após moradores de Conceição da Barra — município litorâneo do extremo norte capixaba, famoso durante os anos 1990 por abrigar a indústria do axé baiano durante o carnaval — incendiarem a casa de uma menininha de 11 anos no dia 15 de março, sexta-feira. Era a segunda tentativa de incêndio. A primeira, na quinta-feira, fora evitada por José Pereira, 47. José era pai de uma estudante de 13 anos assassinada na noite anterior por seu desafeto, uma menina de 11 anos. Enfurecida, a população rumou para o bairro Antônio Lopes e cercou a casa da família, que foi consumida pelas chamas.

Os vizinhos também foram responsáveis por fazer justiça com as próprias mãos e tentar linchar uma mulher que atirou água fervente no rosto de sua irmã e ainda a espancou no dia 10 de março em Cariacica. Isso mesmo, esse pessoal não respeita nem o domingo! Puxa, que produtivo esse mês de março!

Seja de motocicleta, a pé ou de carro, o que não falta para essa legítima onda de flash mobs do terror são nobres voluntários sedentos por corrigir distorções de comportamento que fujam ao contrato social que eles mesmos teimam em descumprir, na surdina da esperteza. Mas se puder rolar um sanguinho, whatever... Eis aí uma das formas do dano colateral de sociedades baseadas no acúmulo denunciado por Zygmunt Bauman.

E, nos vídeos desta reportagem, podemos conferir como eles são rápidos para se agrupar quando soa o gongo para mais um round, um banho de liberdade imediata sem considerações ou culpas. Afinal, lincham-se somente ladrões, estupradores, assassinos e bêbados que atropelam e fogem.

Clicando aqui você pode assistir a uma reportagem da TV Gazeta sobre a morte de um homem espancado com paus e pedras no dia 4 de fevereiro, uma segunda-feira, em Vila Velha, município que é uma das localidades mais antigas do Brasil. Quando a polícia chegou, não encontrou documento algum do homem que, segundo testemunhas, foi perseguido e linchado após tentar roubar um caminhão na região da Jabaeté, bolsão de pobreza na área rural canela-verde.

Na semana anterior, um homem de 26 anos foi linchado no bairro Jardim Botânico, em Cariacica, e morreu no quintal de sua própria casa. À época, o sargento Abissalão da Polícia Militar declarou à imprensa que a vítima havia chegado recentemente de Minas Gerais. "Segundo os populares, o homem foi seguido por um grupo de pessoas envolvidas com o tráfico de drogas. Acreditamos que a causa do homicídio seja acerto de contas", especulou Abissalão.

Mas o que leva uma multidão que une conhecidos e desconhecidos a castigar alguém que comete um crime? Por que tomam para si o prazer de aplicar uma pena de sangue a alguém, em vez de entregá-lo a polícia?

Segundo o professor do Departamento de Direito da Universidade Federal do Espírito Santo, Júlio César de Pompeu, uma das motivações detectadas em pesquisas é o que ele chamou de “efeito do processo de acumulação de violência” e que desse mal padecem todos expostos à divulgação constante e crescente de crimes e atos de violência — não somente os capixabas.

“E um discurso cresce apontando uma percepção de três fatores: os crimes estão passando dos limites, quem tem poder para conter os criminosos é impotente e não o faz e, por fim, se a situação passou dos limites, quem tem de cuidar da gente não cuida, então vamos resolver nós mesmos”, explicou Pompeu.

O professor ressaltou o outro lado deste comportamento agressivo. “É uma prática de grupos, ninguém lincha o outro sozinho. Estudos mostram que nessas situações há um afrouxamento moral, como se, por estar em grupo, fossem diluídas a culpa e a responsabilidade, pois o linchamento é um crime. Mas sozinhas as pessoas não são capazes de fazer isso.”

Pompeu contou que um linchamento é como um flash mob macabro. Ninguém combina com ninguém, mas todos entram para bater se pintar uma oportunidade. Se a ocasião for um achado, com sorte pode-se bater, em grupo, numa pessoa só e encurralada até sua morte. “Fenômenos de massa são assim. Acontecem de repente, sem orquestração”.

Provavelmente algumas dessas ideias ou o conjunto delas habitava a cabeça de mais de uma centena de moradores do bairro Maria Ortiz, em Vitória, que se juntaram para linchar ou assistir em júbilo o espancamento de um ladrão registrado em um vídeo amador em julho de 2012. A gravação mostra todo o processo, desde o cerco pela população, a captura da vítima e toda sorte de golpes sofridos até ser salvo por um dos linchadores que se arrependeu após desferir alguns sopapos. São quase cinco minutos de um espetáculo grotesco disponíveis no YouTube.


Vídeo amador de espancamento em Maria Ortiz, Vitória.

Júlio Pompeu revelou que são três os tipos de criminosos ou mesmo suspeitos preferidos como alvo dos linchadores. “Em primeiro vêm os crimes violentos letais intencionais (CVLI), depois os crimes contra o patrimônio e os crimes de trânsito, principalmente quando há atropelamento e fuga”.

Escalado pelo governo do estado para lidar com o tema, o comandante do Comando de Policiamento Ostensivo Metropolitano da Polícia Militar, o então coronel Edmilson Santos, hoje promovido a comandante-geral da Polícia Militar do estado, admitiu um dos motivos apontados pelo professor Júlio César Pompeu: a sensação da população de que o Estado é ausente. “Às vezes as pessoas esperam uma ação do Estado... E como não veem uma resposta como queriam, elas se revoltam diante de um fato que gera comoção social, como no caso da criança que morreu asfixiada. Mas eu digo o Estado como um todo, com Legislativo, Judiciário e não só o Executivo”, analisou.

O coronel alerta para os perigos de se envolver em linchamentos. “Quem comete um linchamento está sujeito a lhe ser imputada responsabilidade por um crime, que pode ser homicídio ou tentativa de homicídio. Além de responder a um processo criminal, o linchador pode sofrer represálias de comparsas de bandidos linchados ou de familiares das vítimas. A vingança é um dos grandes motivos para os homicídios no Espírito Santo”, revelou.

Diante de uma tentativa de linchamento, a orientação para os policiais é retirar a vítima imediatamente do local onde está a multidão enfurecida. “Nossa prioridade é a vida, mesmo que seja de um criminoso, o que muitas vezes a população não entende”, finalizou.

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