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Outros

O que substituirá o hipster?

Listamos alguns grupos e pessoas que irão te irritar da mesma forma que você ficou puto com o hipster.

por Equipe VICE Brasil
17 Dezembro 2015, 12:56pm

Desde que o mundo alcançou o Auge Hipster, já passou tempo suficiente para podermos olhar para trás e enxergá-lo como um movimento, uma febre ou um meme, ou que porra tenha sido, e tentar fazer um balanço para entender o que significou, se é que é possível. Então é exatamente isso que vamos fazer com uma pequena coletânea de matérias.

A ideia do hipster deixou de existir. Apesar das pessoas ainda usarem barba, ninguém mais anda com uma vitrola portátil debaixo do braço, a galera não usa mais óculos de armação grossa, e colocar filtro sépia no post no Instagram está fora de moda. O termo hipster, hoje, é apenas sinônimo de "uma coisa nova que não entendo" ou "alguém que faz uma coisa que eu não faço".

Se você não usa drogas, quem usa é hipster. Se você não tem carro elétrico, quem tem é hipster. Vegano é hipster. Gente que é muito fã de carne é hipster. Gente de chapéu é hipster para quem não usa chapéu (e que também é hipster).

Dito isso, devemos guardar luto por esse arquétipo maligno. O hipster era um pária fácil: pretensioso, malvestido, iconoclástico, forçado. Era como aquele irmão mais novo querendo atenção, morrendo de vontade de ser notado e reconhecido, mas fazendo pouca coisa para justificar isso. Agora só existe uma imensa bola de esgoto de vários tipos de idiota, alguns "tendência", outros não, alguns na internet, outros na vida real. Conforme as pessoas vão ficando irritantes de um jeito absurdamente compartimentalizado, é importante para nós, neste momento de pesar pelo hipster, observar quem merecerá nossa ira nos meses e anos que virão, e ver quais de seus traços funcionam e quais não.

CUTESTER

O cutester é, em poucas palavras, o adulto que dá um pouco de atenção demais à criança interior. É, pelo que parece, uma pessoa chata. Como todos sabemos, a infantilização é uma epidemia que está varrendo a cultura ocidental sem sinal de esmorecer. Gente grande que compra livro de colorir, assiste programa infantil sem ter filhos, frequenta pré-escola para adultos, Adventure Time, aquela loja de cereais de Londres, bares com fliperama, etc., etc.

É essa atitude meio laissez-faire de atividade e consumo de mídia que faz com que agora existam pessoas crescidas com salário e contas para pagar que alugam pula-pula para a própria festa de aniversário.

O cutester provavelmente não tem muita vida útil fora do Vale do Silício. Felizmente, pela natureza competitiva desse mundo cão, essas pessoas vão desaparecer logo e, com sorte, teremos um grupo a menos de espectadores afetados de Doctor Who dizendo que tudo bem, aos 25 anos, ter bichos de pelúcia de personagens de desenhos dos anos 90.

HEALTH GOTH

Quando a página Health Goth surgiu no Facebook, houve um breve momento em que as pessoas perguntaram "será que esse negócio é de verdade?". E a resposta é, de modo geral, sim. A estética health goth (e é tudo uma questão de estética) é de um visual esportivo aerodinâmico. Equipamentos de cooper, jaquetas windbreakers e tênis de corrida. Tudo preto, talvez com um relance de cor, e texturas brilhantes como neopreno e PVC.

Mas será que o HG tem a mesma relevância que os hipsters e cutesters, isto é, será que tem representatividade suficiente? Bom, não, na verdade, não tem. O health goth é muito de nicho. Não existe na consciência do consumidor. Assim que virou nome, já ficou ultrapassado, tal é a natureza do #fashion e do #cool. É bem provável que nunca venha a ter apelo para o público mais amplo, nem mesmo como insulto, porque é distante demais de quem não está "por dentro". Deixaremos isso para o Tumblr e os estudantes de arte genderfluid.

SJW / Masculinista / #GamerGater

Gente-raivosa-da-internet é uma opção um tanto insólita, pois parece que essas pessoas só existem em uma comunidade bizarra e míope de total auto-obsessão, o que, de certa forma, serve para a ideologia hipster, mas de muitas outras formas, não.

Claro, de lados opostos, todos representam párias culturais sem os quais o mundo seria um lugar muito melhor. Mas para os moderados, os comentaristas de Disqus, eles são apenas radicais balindo baboseiras incompreensíveis e impenetráveis ao vento. Alguém fora da internet se importa com alguma coisa que esses bostas estão dizendo? Com os hipsters, é palpável, tem as roupas engraçadas, uma produção artística para consumir.

Esses babacas são apenas imbecis presunçosos e narcisistas que agem de má-fé e se recusam a olhar de frente para a própria existência vulgar. Não são uma grande febre cultural, mas sim um sintoma confuso de um mundo horrendamente aberto em que nada é certo ou errado nem bom ou ruim. Foda-se essa galera, eles não merecem ser os novos hipsters.

NU-BRO

O nu-bro já deu a volta ao sol de foguete, passou por onde nenhum homem jamais passou e se tornou tão evoluído que acabou indo parar exatamente no mesmo lugar em que começou, com um senso maior de superioridade por gostar das mesmas coisas que todo mundo gosta. Sim, é playboy como um fã de Reagan e assiste futebol americano todo domingo, mas compra camisa polo através do comércio justo e torce para o Seahawks, então é mais ousado. Escuta Taylor Swift e Justin Bieber, mas de um jeito mais profundo que você. E aí ele murmura alguma coisa sobre como a melhor forma de subverter o sistema é assimilando e desmantelando por dentro. Mas também tem os brothers. E as brejas. E aquele jogo esquisito que se joga no gramado das fraternidades. E aí tem que trocar a tecla "a" do laptop porque tuitou "YAAAAAAAS" com muita força durante Scandal. Essa gente é tipo turista cultural das merdas de gente comum, e são as piores pessoas.

YUCCIE

Parte do problema do hipster era o que ele representava. Eram homens e mulheres que tinham dinheiro para fazer uma tatuagem de bigode no dedo indicador sem se preocupar na hora de arrumar emprego. Gente para quem usar uma roupa desgrenhada, como alguém na pior em um episódio de Boardwalk Empire, não era uma infeliz necessidade, mas uma escolha privilegiada feita por quem provavelmente conseguiria fazer carreira vendendo leite alternativo caro para idiotas.

Mas isso mudou e, para alguns, embora muitos dos clichês visuais ainda existam (como ter a aparência de um pirata durão do imaginário de uma criança), a mentalidade mudou. A ordem do dia é empreendedorismo, não vagabundismo. É aí que entram os Yuccies, os "young urban creatives", ou "jovens urbanos criativos", ocupando antigas casas de família com outros designers gráficos e publicitários de conteúdo de marca. É a ideia de um senso mais corporativo de tendência, em que ser "cool" é ser você mesmo, mesmo que isso signifique ser representante de um clichê ultracapitalista e nocivo na existência. Uma vida fácil e próspera que nem mesmo tem aquela luta de leve imposta sobre si próprio pelo hipster da última década, quando a pobreza era legal. Em seu lugar está um carreirista incondicional sem remorso, ainda combinado com o desejo de ser visto como parte da tendência, mas a tendência agora é festa open-bar paga pela Nike. É a divinização do mainstream, irônico ou não. O que nos leva ao...

SINCERO

O momento em que atingimos o Auge Hipster foi também o momento em que atingimos o Auge da Ironia. O Sincero acredita que existe muita coisa ruim no mundo, então a única resposta a se ter é viver genuinamente e no presente, em uma busca constante pela beleza e pela experiência real.

Foto de trilha no Instagram, #ABENÇOADO, suco detox, dançar como se ninguém estivesse olhando, sobriedade, discutir ambições sem pudor e falar no blog sobre os próprios sentimentos. A vida dele é uma zona livre de ironias.

Isso não se sustenta, obviamente. Ninguém é perfeito. Uma hora, a pressão vai ficar muito forte e a coisa toda vai desmoronar, culminando com a pessoa esfaqueando alguém em um ataque de fúria alucinado, como a Natalie Portman em Cisne Negro.

§§§

Então é isso. Em vez de ter um alvo para apontar nossos fuzis de desprezo, a sociedade agora tem uma cavalgada de tipos diferentes de gente desagradável. Elas continuam se admirando, continuam narcisistas e obcecadas por si próprias, ignorantes teimosas que reivindicam um senso de conhecimento cultural transcendental, mas agora todas essas qualidades estão espalhadas e amplificadas por diferentes tipos de pessoas.

Na minha opinião, o hipster era uma cristalização agradável e dócil dos males modernos da cultura ocidental. Agora que ele desapareceu e se transformou em uma centena de pelotões de panacas, meio que sinto falta dele. Agora, cadê meu disco do Sunn o))? Estou de saída para discotecar na abertura de uma loja que só vende cesta de vime.

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