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Será o Fim da Treta Entre Vicio Punk e Front 88?

O julgamento que absolveu Bruno Ribeiro de Brito pela tentativa de homicídio contra o skinhead Rogério Moreira em 2007 está ligado a uma série de acontecimentos posteriores que marcam a histórica rivalidade entre os dois grupos.

por Marie Declercq
09 Março 2015, 1:00pm

Ilustrações por Juliana Lucato.

Na tarde da última quarta-feira (4), Bruno Ribeiro Brito foi absolvido pela tentativa de homicídio contra Rogério Moreira por falta de provas. O caso, julgado pela 1ª Vara do Júri do Fórum Criminal da Barra Funda, no centro de São Paulo, poderia ser mais um dos milhares de homicídios ocorridos por ano na capital paulista, mas, na verdade, é a primeira peça num longo e não resolvido quebra-cabeça, envolvendo uma antiga contenda entre punks e skinheads fascistas na cidade. O caso ocorreu em 2007 na frente do Clube Outs (na Rua Augusta), resultando na morte de Ricardo Sutanis Cardoso, vulgo "Greguinho", apontado como um dos membros do grupo autodenominado skinhead neonazista Front 88. O processo envolveu três menores (na época), além de outros dois réus: Danilo Silva de Almeida (já absolvido) e Victor Alberto Araújo, vulgo "Anão", que foi condenado a 21 anos de prisão.

O processo é o primeiro registro jurídico da treta entre os grupos Vicio Punk e Front 88. Há outros grupos que também se dizem skinheads ou punks em que houve mortes, como a do jovem Johni Raoni Falcão Galanciak no show da banda britânica Cock Sparrer em 2011. O rastro de violência deixado pelas gangues inclui até mesmo uma covarde bomba disparada em 2009 pelos skinheads fascistas na Parada Gay da cidade.

A morte de Ricardo e a agressão a Rogério Moreira trouxeram uma série de retaliações que foram se arrastando durante os anos até se tornarem rotineiras, um legado subterrâneo que pode ser apreendido sutilmente pela trilha de processos judiciais e pelas eventuais reportagens da mídia nacional e local sobre o tema.

Seis meses após a briga no Outs, o skinhead fascista Guilherme Witiuk Ferreira, vulgo "Chuck",

foi espancado por 20 punks; dentre os nove indiciados pela agressão, estavam Johni e também Bruno Ribeiro Brito, ambos apontados na época como supostos membros do Vicio Punk.

Após a briga, Witiuk sofreu lesões graves e passou por uma cirurgia de reconstrução de face. Membro do grupo skinhead Impacto Hooligan (formado por ex-membros do Front 88), Guilherme voltou a aparecer diversas vezes nas páginas policiais graças aos crimes praticados, a maioria deles com requintes de crueldade. Guilherme foi um dos envolvidos no caso da bomba que feriu 13 pessoas na Parada Gay de 2009 em São Paulo, já foi preso por ter espancado moradores de rua na Rua Vergueiro em 2011 e também foi flagrado pelas autoridades em 2013 portando um revólver calibre 32 e algumas armas brancas quando pixava um monumento da Praça Ramos.

Se em 2010 os registros arrefecem, o ano de 2011 basicamente foi pautado por grandes confrontos e desgraças entre skinheads fascistas e punks de SP. Logo no começo do ano, em 26 de fevereiro, a Jornada Antifascista terminou com a agressão de pelo menos quatro pessoas. O evento prestava homenagem a um adestrador de cães morto por skinheads em fevereiro de 2000. Ele era gay. Um dos skinheads acusados pelas agressões na Jornada Antifascista é Rogério Moreira, vítima do processo de 2007, e outra pessoa que volta a aparecer no noticiário e nas cortes do Estado.

No mesmo ano, Moreira foi novamente pronunciado (termo que significa que o réu vai a júri popular) junto com mais três pessoas pela tentativa de homicídio de Danilo Vilela Macedo. O crime foi supostamente uma retaliação pela morte de Ricardo Sutanis, da qual Danilo foi absolvido por falta de provas. Em 2009, Rogério tentou assassinar o outro réu (menor de idade na época) Hugo Henrique Almeida Grabow. Segundo relatos, Grabow era morador de rua e um ex-membro do Front 88, porém rumou para o Vicio Punk. Em uma rápida busca pela internet, encontramos uma comunidade no extinto Orkut criada em 15 de maio de 2007 imputando a morte de Ricardo à Grabow..

O responsável pelo ataque a Moreira em 2007 é Fábio Amaral Nunes, vulgo "Snake," que recebeu uma medida socioeducativa pela tentativa de homicídio. Não há informações precisas sobre o paradeiro dele, mas Bruno Ribeiro postou no YouTube um vídeo em 2010 lamentando a morte de Snake.

Para coroar o ano de 2011 como o "ano do deu ruim", Johni foi morto a facadas por Guilherme Losano na frente do Carioca Clube após uma emboscada de skinheads (anunciada anteriormente pelas redes sociais), em um dos crimes mais notórios dessa treta. A principal gangue acusada pela morte de Galanciak é a Impacto Hooligan, da qual Guilherme Witiuk, um velho desafeto do punk, fazia parte.

Embora os autos do processo de 2007 apontem que Bruno Ribeiro Brito era um dos membros do emblemático Vicio Punk, Brito foi identificado como skinhead em 2013, quando foi encontrado ferido e largado na plataforma da Estação da Luz. O laudo de Brito não especifica se ele foi agredido ou caiu por acidente na linha do trem. Inclusive, segundo a promotora de justiça Solange Azevedo Beretta da Silveira, responsável pelo júri de quarta-feira, a data de um dos julgamento de Brito foi postergada por conta do acontecimento. A reportagem do R7 conta que Bruno se identificava como "soldado nazista". Pelas tatuagens no pescoço e uma ficha de identificação militar encontrada junto dele na ocasião, parece que Bruno realmente trocou de lado. O que não é nada incomum no meio, como vimos no caso de Grabow. De acordo com o mestre em Antropologia pela PUC-SP e doutorando em História Social pela USP Alexandre de Almeida, "tudo isso é muito difuso. Hoje, o cara é skin WP [white power]; amanhã, punk anarquista. Claro que a imprensa também erra, mas defendo que essas categorias (punk, skinhead, etc.) existem, mas nem todos são fiéis a ela".

A absolvição de Bruno Ribeiro Brito foi sustentada tanto pela promotora quanto pelo advogado de defesa, Antônio Sidnei Ramos de Brito. Segundo a Dra. Solange Beretta, "não havia nenhuma prova técnica ou testemunhal que imputasse Bruno pelo crime (...) quando há a dúvida no processo, é isso que se torna possível o pedido de absolvição". O Conselho de Sentença, formado por sete jurados, acatou a tese de ambas as partes.

O réu não esteve presente no julgamento, porém postou a sentença no Facebook em comemoração. Já Rogério Moreira, a vítima, apareceu para depor no Plenário e saiu antes do julgamento começar. Depois de Guilherme Losano ter sido condenado no fim de 2014 a 15 anos de prisão pela morte de Johni, talvez esse seja o último capítulo da história do embate entre Vicio Punk e Front 88 (e correlatos) nos tribunais brasileiros. E – quem sabe? – nas ruas. "Hoje, os órgãos repressivos estão mais atentos. E, por isso, o pessoal está mais na deles; além disso, muitos grupos estão se afastando da rua e atuando no campo metapolítico, com o intuito da hegemonia cultural, em vez do confronto direto", explica o pesquisador.

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