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‘Brasil S/A’ na Vila Nova Palestina

O filme sinfônico do cineasta pernambucano Marcelo Pedroso que mostra a história de um cortador de cana foi exibido numa ocupação do MTST em São Paulo.

por Camilla Feltrin
09 Setembro 2016, 10:00am

O Brasil foi muitas vezes o país do futuro. Talvez a mais recente tentativa de ordem, progresso, emprego e oportunidades para todo mundo tenha sido vista durante o governo do ex-presidente Lula (2003-2011), uma lufada de esperança já varrida pra baixo do tapete com a atual crise. Foi sob aquele clima de "agora vai" que o diretor pernambucano Marcelo Pedroso criou o longa-metragem Brasil S/ A. Acompanhamos uma exibição do longa na Vila Nova Palestina.

Com trilha sonora no lugar das falas, o que já levou o trabalho a ser chamado de "filme sinfônico", o longa foca na história de um cortador de cana que se vê destituído do canavial após a chegada de máquinas agrícolas escoltadas, inclusive, com honras de Estado. Crianças submersas em espertofones e adultos tirando um cochilo no voltante também são cenas bem-humoradas e críticas sobre os rumos da sociedade brasileira.

Se o clássico São Paulo, Sociedade Anônima, lançado por Luís Sérgio Person em 1965, tem como pano de fundo o crescimento da indústria paulista alavancado pelo Plano de Metas do ex-presidente Juscelino Kubitschek, o material do cineasta pernambucano foca em mudanças da economia brasileira durante a última década sob a batuta do governo petista. "Não estava entre as minhas referências o filme de Person, mas os dois problematizam a questão da indústria na sociedade e o crescimento do País. Brasil S/ A é quase mais pretensioso quando escolhe falar do Brasil a partir do nordeste, o que também representa uma redistribuição geopolítica no Brasil", comentou.

O intuito de Pedroso é também propor uma reflexão sobre as esperanças da nação e as configurações econômicas. "Primeiro surgiu o pau-brasil, depois cana-de-açúcar, ouro, gado, indústria, sempre aparece algo que parece que será nossa salvação e nos deixa eufóricos. Brasil S/A foi filmado em 2013 e a concepção dele foi um pouco antes, num momento de otimismo. O filme também considera que havia uma sombra em cima disso tudo, representada pelo eclipse com a bandeira nacional", disse ele ao referenciar o crescimento de 7,5% do PIB (Produto Interno Bruto) de 2010 em relação ano anterior. E o eclipse, na época da gravação ainda uma possibilidade, se concretizou: o Brasil registrou retração de 3,8% em 2015.

O governo do presidente Michel Temer (PMDB), no entanto, já anunciou suspensão no subsídio de moradia para a faixa mais pobre do programa, com renda bruta mensal de até R$ 1,8 mil, do programa Minha Casa, Minha Vida. Justamente o perfil das três mil famílias que atualmente vivem no acampamento do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto).

Assim como alguns dos retratados em Brasil S/ A, gente pobre trabalhadora à espera do progresso, 160 integrantes da ocupação Vila Nova Palestina, organizada pelo MTST, lotaram, na noite do último sábado (3), um barracão para assistir ao filme lançado em 2014. A ocupação resiste às margens da Estrada do M'Boi Mirim e os integrantes esperam a construção de imóveis populares. A área já foi classificada como ZEIS (Zona Especial de Interesse Social) pela prefeitura, mas os contratos para construção não foram assinados.

A ideia da exibição de Brasil S/A na ocupação partiu da própria produção do filme com a intenção de descentralizar as exibições, levar cultura a quem não costuma ir para o cinema tradicional e propor um debate sobre os rumos do Brasil. Para acompanhar, rolou pipoca, salgadinhos e refrigerantes.


José João Souza, 48, motorista de ônibus. Foto: Jardiel Carvalho/R.U.A Foto Coletivo

O motorista de ônibus José João Souza, 48, se identificou com o proletariado precário retratado em algumas cenas. "De tudo que os personagens aparecem trabalhando, eu também já fiz, menos caçar caranguejo. Já cortei cana, dirigi caminhão, fui apontador de obra e até carreguei areia na praia. O importante é não ficar parado", disse o também pernambucano de Vitória de Santo Antão, cidade próxima à Recife, que sonha em pagar a casa própria para viver com a mulher e os filhos.


Marlene Alves Lima, 53, costureira. Foto: Jardiel Carvalho/R.U.A Foto Coletivo

No acampamento do MTST desde o primeiro dia de ocupação, em 29 de novembro de 2013, a costureira Marlene Alves Lima de Freitas, 53, estranhou a história conceitual de Brasil S/ A, com direito a efeitos pirotécnicos, uma dança colonial e uma bonitona de biquíni que comanda tratores com gestos sensuais. "Eu gostei, mas não entendi muito bem não. Entendi só até a parte em que o homem lá é substituído pela máquina da Hyundai", disse ela, que costuma dar mais atenção para novelas e Jornal Nacional do que para filmes. "Achei bem diferente".


Pedro Bispo dos Santos, 70, carpinteiro. Foto: Jardiel Carvalho/R.U.A Foto Coletivo

O carpinteiro aposentado Pedro Bispo dos Santos, 70, aproveitou o programinha que não faz há algumas décadas."Eu gosto de ver filme, mas não vou no cinema desde que tenho uns 30, 35 anos", disse o assentado que não conseguia se lembrar qual o último título a que assistiu. Ele foi à exibição, contou, como "representante" da ex-esposa, que também está na luta pela casa própria. O MTST mantém um sistema de controle e incentivo para que os militantes participem manifestações e eventos promovidos por eles.


Spephanie Vieira Silva, 13, estudante. Foto: Jardiel Carvalho/R.U.A Foto Coletivo

A estudante Stephanie Vieira Silva, 13, que nunca comeu pipoca numa poltrona confortável com vista para uma tela gigantesca, aproveitou o quanto pode a exibição de Brasil S/ A. "Na minha cidade eu nunca fui no cinema e em São Paulo também não", lamentou a jovem que há um ano deixou Palmeira dos Índios (AL), onde vivia com a avó para se juntar à mãe no acampamento do MTST na capital paulista. Questionada sobre o que gosta de assistir na televisão, disse ter preferência por Programa do Ratinho e Tom e Jerry.


Maria Eduarda Ramos, 11, estudante. Foto: Jardiel Carvalho/R.U.A Foto Coletivo

Fã de histórias de terror e de ação, Maria Eduarda Ramos dos Santos, 11, achou a exibição do longa de Marcelo Pedroso "legal", mas espera ansiosa pelo prêmio que ela e os colegas do sexto ano vão receber em breve após vencer uma gincana: ir a um cinema de verdade.

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