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Ser diagnosticado com HIV me ensinou a viver

Posso viver. Mesmo que isso signifique viver com HIV, posso viver.

por Jeff Leavell
01 Dezembro 2016, 3:11pm

Jeff Leavell. Foto cortesia do autor.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US.

"Ei, cara, eu quero sua descarga tóxica."

"Desculpe, quê?", respondi.

"Quero essa descarga positiva. Sou soronegativo. Enterra essa descarga infectada dentro de mim."

Esse foi o começo de uma conversa que tive recentemente no Scruff, um aplicativo de namoro gay. Foi também o final daquela conversa, porque em vez de ensinar para esse cara algumas coisas sobre transmissão, ou falta dela, da minha "descarga" indetectável de HIV+, simplesmente o bloqueei.

Fui diagnosticado soropositivo em 2013, na ascensão de uma nova era do HIV — uma era de PrEP, superdrogas antirretrovirais e cargas virais indetectáveis (o que simplesmente significa que seus remédios para o HIV suprimiram o vírus no seu corpo até o ponto que ele não aparece mais em exames de sangue — e é altamente improvável ser transmitido para outros). Um tempo muito distante da era em que cresci, cercado pelos estragos da AIDS. Assisti a amigos da minha mãe morrerem, e vi de perto o estigma que acompanhava a doença.

Na maior parte da minha vida adulta, HIV era um monstro embaixo da cama — a pior coisa, relativamente falando, que podia acontecer comigo.

Mas então aconteceu. Era tudo que eu temia? Longe disso. Muitas vezes fico chocado com o impacto relativamente baixo que o HIV teve na minha vida. Mas isso mudou alguma coisa maior em como vejo o mundo, e como o mundo me vê.

Ou seja, descobrir que eu tinha HIV colocou minha própria mortalidade em foco. Percebi que se isso podia acontecer comigo, qualquer coisa podia: aneurisma, câncer, uma bala na cabeça no meio da rua.

Depois há aquela sensação sempre à espreita de que estou um pouco maculado, um pouco sujo. Outra conversa pelo aplicativo começou assim:

"Espera... Você tem AIDS?"

Os meus perfis nesse tipo de aplicativo dizem claramente que sou HIV+ com carga indetectável — é uma das primeiras coisas que as pessoas veem, assim não tenho que ficar falando isso sempre.

"Não tenho AIDS. Sou soropositivo indetectável", expliquei, talvez sendo gracioso demais.

"Cara, não tem diferença. Você continua doente. Eu posso pegar se você chupar meu pau?"

Nem sei como falar com gente assim. Tento me lembrar de ser paciente, que essas são oportunidades para educar.

Leia também: "Beto Volpe há 27 anos vivendo com o HIV"

Mas por que diabos eu tenho que ser o educador? Você tem o Google, com incontáveis estudos e matérias, documentários e blogs. Se você é um homem gay vivendo numa grande área metropolitana em 2016 e não sabe a diferença entre HIV+ indetectável e AIDS, você está sendo deliberadamente ignorante. E provavelmente merece ser bloqueado.

Mas tentei ser paciente e expliquei as coisas para ele.

"Sim, parece muito arriscado, cara", ele me respondeu. "Tipo, sua saliva pode entrar na minha uretra ou algo assim. Quando você melhorar a gente pode se ver."

"Eu não vou melhorar", escrevi, apertando "enviar" antes de perceber o quanto eu queria não ter escrito isso.

E às vezes fico puto com a injustiça da coisa. Descobri que era soropositivo quando tinha 44 anos, há dois anos sóbrio depois de uma luta de 24 anos contra o vício em heroína. Sei exatamente como aconteceu — foi com um amigo com quem eu transava. Alguém em quem eu confiava (e ainda confio). Não usávamos camisinha há anos. Nós dois sempre fazíamos testes. Eu era o ativo e acreditava honestamente que assim não havia perigo. Eu me sentia seguro. Ele se sentia seguro. Ele me ligou duas semanas depois dizendo que seu teste deu positivo. Ele teve azar com outro cara, e foi simplesmente uma daquelas tempestades perfeitas.

Lembro de pensar: não parei de usar drogas só para pegar AIDS. E lembro o momento em que me contaram, na van de exames parada na frente do bar gay onde trabalho, numa tarde de domingo. Voltei para casa chorando. Quando contei para o meu marido, Alex, ele me abraçou e disse que tudo ficaria bem. Que a gente ficaria bem.

E até agora, Alex tinha razão. Estamos bem.

Tenho sorte. Tenho o apoio do meu marido e do nosso namorado, Jon. E tenho o amor de toda minha família e amigos. E me recuso a esconder meu status ou negá-lo. Menciono isso no Facebook o tempo todo, e discuto isso usando todas as redes sociais onde estou. Tento ser o mais aberto e confortável possível, porque acho que é importante mostrar para as pessoas que tem medo da doença que tudo está bem, que estamos bem. Você pode se sentir um tanto manchado, você pode se sentir contaminado e feio, mas estamos bem. Você é forte. Somos sobreviventes. Ainda estamos aqui.

Lembro de um amigo da minha mãe, Tony. Ele era um dos homens mais lindos que já vi. Às vezes ele era babá do meu irmão e de mim, ele nos levava para almoçar e nos contava histórias completamente inapropriadas sobre suas aventuras sexuais na Fire Island. Esse cara era o responsável pela maioria das fantasias masturbatórias da minha adolescência, e ele fazia ser gay parecer glamouroso, mágico, cheio de sexo, amor e maravilhas. Quando o vi deitado na cama do hospital, doente, magro e morrendo, senti como se o mundo tivesse acabado. Toda a beleza, glamour e amor que descobri estavam desaparecendo com homens maravilhosos como Tony.

Tento me lembrar dele quando alguém diz algo grosseiro sobre meu status. Tento lembrar de ir tomar sundae depois do funeral dele com a minha mãe e seus amigos gays. Alguém ligou o rádio e dançamos no pôr do sol de Nova York e rimos. Quando perguntei para minha mãe porque estávamos rindo, ela disse "porque estamos cansados de chorar, rapaz. Porque é melhor rir".

É neles que penso quando outros tentam me colocar para baixo. Belos e fortes, todos mortos agora.

Quando descobri que era soropositivo, prometi a mim mesmo e a todos esses homens que morreram que isso teria um significado. Que eu faria algo disso.

Quando me deito na cama à noite e sinto medo, e penso que Oxy, heroína ou um baseado é o que preciso para silenciar minha cabeça, lembro dessa promessa que fiz. Quando sinto tanto medo de fracassar que me imagino fazendo as malas e desaparecendo, lembro que isso significa alguma coisa. Que vou fazer algo com isso.

Posso viver. Mesmo que isso signifique viver com HIV, posso viver. E vou viver o máximo que eu puder, porra. Por todos aqueles homens dançando. Pelo Tony. Por todos nós.

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Tradução: Marina Schnoor

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