Fotografia

Odes de artistas para seus músicos favoritos

Pedimos a fotógrafos que criassem santuários para seus ídolos. Eis o resultado.

por Signe Pierce, Lauren Poor, Aileen Son, Paul Mpagi S
04 Janeiro 2017, 10:00am

Esta matéria foi originalmente publIcada na edição impressa de outubro da VICE US .

MADONNA
Por Signe Pierce

As pessoas gostam de pensar na Madonna como a mais pop do pop, mas, no fundo, ela encarna uma artista performática verdadeiramente punk. Quando suas nudes vazaram para a imprensa em 1985, ela revirou os olhos e lançou uma declaração pública: "E daí!" Em 1990, o papa criticou sua turnê Blond Ambition porque ela tinha devotado parte do show para masturbação pública. Ela cantava entre cruzes pegando fogo, beijou o Jesus Negro e Britney Spears, e centrou toda uma fase da sua carreira em sadomasoquismo.

E isso nem é a coisa mais punk nela. Ela fez tudo isso sendo mãe, enquanto a mãe da sua mãe provavelmente assistia. A maioria dos punks da época trabalhavam em porões sombrios, mas Madonna fez o que fez na televisão, para o mundo inteiro ver. Ela não tinha medo de sua identidade sexual, perverteu o mainstream e fez milhares de pessoas confrontarem suas ideias de gênero, religião e individualidade. Eu rezo no altar dela todos os dias.

KAREN CARPENTER
Por Lauren Poor

Esse é um altar para as músicas lindas de Karen Carpenter e seu irmão. Ouvi uma música dos Carpenters pela primeira vez numa peça boba em que atuei quando era criança. Era "Close to You", que parece que todo mundo conhece. Aquela voz lindíssima foi a música de fundo da minha vida até eu assistir a Superstar: The Karen Carpenter Story e descobrir os segredos terríveis dela. Por um tempo depois do filme, eu só conseguia pensar nela como a Barbie que a interpretava. Mas o tempo passou, e agora (esqueci por quê), voltei a ouvir Karen Carpenter e não consigo mais parar. Gosto de assistir aos vídeos dela sorrindo e cantando com uma atitude encorajadora. Provavelmente muito do que sei sobre a Karen veio dos meus sonhos acordada, mas não consigo deixar de imaginar como deve ter sido para ela no auge, com todos os olhos nela enquanto ela fazia o que amava, tão perigosamente consciente de si própria.

H.O.T.
Por Aileen Son

Eu ia para casa dos meus amigos Sora e Soheen praticamente todo dia depois da escola e a gente assistia a fitas VHS que os pais deles alugavam do mercado coreano local. A gente assistia a fita, rebobinava e assistia de novo os maiores programas de música da Coreia, semanas depois deles terem ido ao ar, e cantávamos juntos com "Candy" e "We Are the Future" do H.O.T. High Five of Teenagers. Era isso que o H.O.T. simbolizava. Era K-pop antes de sabermos o que era K-pop — alguns dizem que essa foi a primeira boy band da Coreia, algo como o Backstreet Boys. Eu estava tão sedenta de cultura coreana como uma coreana-americana que fiquei apaixonada por esses caras de roupa esquisita tocando para pré-adolescentes. O cabelo deles era tão bonito quanto a voz, e meu membro favorito era o Kangta. A cor favorita dele era verde. Essa é minha ode a eles. H.O.T. pra sempre.

EURYTHMICS
Por Paul Mpagi Sepuya

Lembro de "Sweet Dreams" do Eurythmics como a primeira música que decorei, e lembro da Annie Lennox como uma das primeiras imagens andróginas que via na mídia. Eu tinha quase um ano quando a canção saiu em 1983 e, na época, a música ficou nas rádios e na MTV pelo que pareceu ser anos. Em 1992, quando eu tinha quase dez, Lennox lançou seu disco Diva. Fiquei obcecado, mas não contei para ninguém, esperando ansiosamente pelos clipes dela passarem na TV. Quando "No more 'I Love You's" saiu em 1995, fiquei louco. Eu não entendia o que era drag nem tinha as palavras para descrever sexualidade e gênero, mas fiquei atraído pela autorrepresentação dela como não essencialmente uma mulher, mas uma mulher interpretando uma mulher ou uma mulher interpretando um homem. Nos últimos anos, tenho trabalhado com espelhos no meu estúdio, os incorporando em vários estágios da fotografia, performance e foto da foto. O clipe de 1992 "Money Can't Buy It" tem sido uma grande influência visual e temática para mim. Eu queria, através das minhas imagens, finalmente participar das minhas fantasias adolescentes e prestar uma homenagem à imagem de Lennox e seu efeito na minha arte.

KANYE WEST, D'ANGELO & GARY CLARK JR.
Por Xaviera Simmons

Ouço muito Kanye West, D'Angelo e Gary Clark Jr. no meu estúdio, e queria produzir uma imagem conceitual inspirada em seus projetos individuais, prestando atenção a cada som, letra e resultado criativo geral.

Eu não consegui escolher um artista, então decidi pensar neles visual e sonoramente como um todo. Fiz questão de não me focar em artistas obscuros de vanguarda, como provavelmente esperavam de mim, porque acho importante para o artista conceitual reconhecer o que está presente no som popular hoje. Cada um desses músicos existe simultaneamente nas culturas mainstream e underground.

Ouvindo eles, acho que podemos compreender uma boa parte da música popular atual, além das visões criativas de homens negros nos EUA. Cada um de seu próprio jeito, West, D'Angelo e Clark Jr. influenciam os sons e visões do planeta. Através do domínio do sampler, instrumentação, visão conceitual, sexualidade, ternura e desafio, esses três abordam masculinidade, sensualidade e criatividade. Coletivamente, eles formam uma lição de história em som.

KOUROSH YAGHMAEI
Por Sheida Soleimani

Um dos meus favoritos de todos os tempos, Kourosh Yaghmaei é um artista iraniano que foi proibido de fazer música durante a Revolução Iraniana de 1979. Depois da formação da República Islâmica, muitos acreditavam que seus discos de antes da revolução tinham se perdido, já que o governo considerava suas músicas psicodélicas "muito ocidentais". Quando eu era criança, meus pais sempre tocavam os discos dele para mim, e minha iniciação na música ocidental só aconteceu quando fiquei um pouco mais velha. Acabei aprendendo inglês ouvindo "Zombie" do Cramberries. Quando comecei a tocar, primeiro tentei aprender as músicas do Yaghmaei, aquelas que meus pais tinham compartilhado comigo.

CHUMBAWAMBA
Por Elizabeth Renstrom

"Tubthumping" do Chumbawamba começou a tocar em todas as rádios 24 horas por dia no final de 1997. Lembro exatamente da primeira vez que ouvi a música, porque eu estava saindo de uma maratona de 24 horas da versão em inglês da "Macarena" do Los Del Rio, e já estava enjoando. Quando "Tubthumping" começou a tocar, uma onda de alívio e empolgação passou por mim, algo que só podia vir de ouvir o sucesso de um one-hit wonder depois do outro. Também quero dizer que "MMMBop" do Hanson tocou logo depois, e teve o mesmo efeito em mim.

Depois de ouvir "Tubthumping", mergulhei no mistério da banda britânica e sua música. Tendo sete anos, achei que tinha topado com um sucesso indie. Escrevi o nome da música no meu diário depois que o cara do rádio anunciou a faixa, para usar no futuro. Meu pai levava meu irmão e eu para lojas de discos regularmente, e antes disso acontecer, eu nunca tinha tentado escolher nada. Eu ouvia o que meu pai queria. Agora eu finalmente tinha meu próprio gosto musical. Na vez seguinte que fomos para a loja, meu irmão foi direto para a seção de nu metal, e eu fui procurar o maior disco de todos os tempos. Lembro de ver a agora icônica (na minha cabeça) foto bizarra do bebê rosa contra o fundo verde na capa, e a imagem ainda não me deixou. Vinte anos depois, descobri que não era legal curtir tanto esse disco como quando era criança. Foda-se. "I get knocked down, but I get up again."

GARBAGE
Por Trey Wright

O disco autointitulado do Garbage foi o primeiro álbum que comprei. Achei o CD num bacião de uma loja de discos usados, numa parte da cidade onde hippies velhos congregavam em cafés e as ruas sempre cheiravam a pizza e alho. Lembro que fiquei imediatamente atraído pela capa de penas rosas com um monstruoso "G" preto.

Corri para o estacionamento, rasguei o plástico do CD usado e coloquei o disco no meu novo CDplayer. A música era perturbadora e suja, e eu me vi capturado por cada palavra gritada pela vocalista Shirley Manson. Ela era foda, abordando aqueles assuntos sombrios com total indiferença na voz, como alguém encarando uma onda prestes a quebrar. Eu quis tanto ser tão corajoso quanto ela.

A música do Garbage me fez perceber que se eu confrontasse o que me deixava desconfortável e criasse algo belo com isso, tudo ficaria bem.

MORRISSEY
Por Ryan McGinley

Acho que sempre fui fã do Morrissey. Acompanhei ele e seus fãs pelos EUA, Europa e México. Quando era mais novo, eu sempre subia no palco e dava gladíolos para ele, a flor que ele mais gosta. Eu queria mostrar como era assistir a um show do Morrissey como fã. Eu queria fotografar pessoas que pareciam estar experimentando um êxtase desenfreado — um êxtase que só pode ser descrito como "religioso". Quando eu fotografava a multidão, as pessoas raramente percebiam que eu estava tirando fotos, e muitas vezes eu conseguia capturar suas emoções autênticas. Essa era minha parte favorita. Era incrível poder fazer duas coisas que eu amava: fotografar e ouvir o Morrissey ao vivo.

Tradução: Marina Schnoor

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