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Policial do BOPE prende suspeito de trafico de drogas na Favela do Alemão. Foto: Fábio Teixeira/VICE Brasil

Tiroteios, mortes e invasões dominam o Complexo do Alemão

PorMarie Declercqfotos porFábio Teixeira

Quatro mortes foram registradas desde a última sexta-feira (21). Três delas por bala perdida.

Policial do BOPE prende suspeito de trafico de drogas na Favela do Alemão. Foto: Fábio Teixeira/VICE Brasil

*Todas as imagens são do Fábio Teixeira.

Os moradores do Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio de Janeiro, estão cercados por confrontos desde sexta-feira (21) por conta de uma operação da Polícia Militar para instalar uma torre blindada na Favela Nova Brasília. Sob forte tiroteio nos últimos dias, moradores têm evitado sair de casa com medo de balas perdidas e também porque há relatos de que os próprios policiais estão invadindo casas para revista-las ou usá-las como base. A operação já soma quatro mortos e inúmeros feridos - três deles são policiais.

O Complexo do Alemão foi pacificado em novembro de 2010 em uma operação cinematográfica da Polícia Militar, com um efetivo de 2,7 mil homens e transmitida ao vivo pela Rede Globo. Logo em seguida houve a implementação de obras do PAC que instalaram teleféricos e bases da UPP em locais estratégicos. A onda de mortes e violência chegou a diminuir um pouco com a ocupação das Unidades de Polícia Pacificadora, porém o Complexo do Alemão não se livrou da guerra particular entre policiais e traficantes da região. Especialmente a partir de 2013 com a troca de comando das Unidades. Quase sete anos depois, tiroteios diários e mortes ainda são uma realidade sangrenta do Complexo.

Policial corre para conter protesto na Favela do Alemão. Foto: Fábio Teixeira/VICE Brasil

A operação foi deflagrada para instalar uma cabine blindada na Nova Brasília, onde funcionará uma sede da Unidade. Os confrontos se intensificaram, ferindo policias e moradores e matando outras quatro. Bruno de Souza, 24 anos, foi morto dentro de sua casa por uma bala perdida e, na mesma manhã, Gustavo Silva de 17 anos foi morto pela mesma causa quando saiu de casa para trabalhar em uma padaria. Uma terceira vítima foi divulgada pela polícia, afirmando que se tratava de um homem com passagens na polícia. A vítima mais jovem até agora foi Paulo Henrique Oliveira de Moraes, 13 anos, morto na manhã desta terça-feira após ser baleado na barriga no dia anterior durante um tiroteio entre a Polícia Militar e traficantes do Alemão. A mãe de Paulo desmaiou duas vezes quando soube da morte do filho. Além das vítimas, três policias do Bope foram feridos em uma operação nesta segunda-feira. Dois não correm risco de vida por causa dos ferimentos. O cabo Matheus Bastos de Assis, de 33 anos, levou um tiro no rosto e está internado em estado grave.

Mulher passa chorando em frente a casa com furos de tiros de fuzil. Foto: Fábio Teixeira/VICE Brasil

O trabalho da polícia foi questionado e criticado pelos moradores do Alemão em uma audiência pública feita na segunda-feira (24) na Defensoria Pública do Estado. Segundo alguns moradores, policiais da UPP invadem casas de civis para a usarem como base. O Pastor Jorge Félix disse ter se mudado do Complexo justamente porque os PMs ocuparam uma laje de sua casa sem ter autorização, descumprindo o direito constitucional de moradia e se negando a saírem.

Mulheres fazem protesto contra a instalação de base blindada e também pela morte do menino de 13 anos por bala perdida. Foto: Fábio Teixeira/VICE Brasil

Na terça-feira, moradores do Alemão organizaram manifestações pedindo o fim dos confrontos do local. Lençóis brancos foram pendurados na janela de algumas casas e manifestantes ocuparam trechos da Avenida Itararé. A página do Coletivo Papo Reto denunciou que diversos policias continuam invadindo casa de moradores e debocharam do protesto realizado na terça-feira ao prender panos brancos nas pontas de seus fuzis. Escolas, creches e transportes alternativos como mototáxis e Komis que transportam os moradores estão suspensos na região por conta do clima tenso.

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