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Jogar basquete na rua é um ato de resistência para as minas

As mulheres têm dificuldade para achar time, quadras e até mesmo tênis, mas elas não desistem do esporte.

por Gustavo Mesa
21 Dezembro 2018, 8:28pm

Todas as fotos por Eduardo Saraiva

Se você está afim de começar a jogar basquete, a primeira coisa a fazer é ir atrás de um pisante. Opções não faltam: quase todas as marcas possuem tênis de basquete, dos Air Jordans da Nike à linha da Under Armour para Stephen Curry, passando por Adidas, Puma, Reebook, And1 e por aí vai. Fácil, né? A não ser que você seja mulher.

É muito, muito difícil achar um tênis para basquete em tamanho inferior a 38. Na loja da NBA da Galeria do Rock, no Centro de São Paulo, não tinha. Em uma das principais franquias de venda de sneakers, que inclusive tem seis lojas na própria galeria, também não. Um vendedor diz que apenas alguns modelos são feitos “para toda a família”, ou seja, de infantil a adulto. Mas não havia nenhum deles no estoque.

Não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, a história de uma garotinha californiana de 9 anos chamada Riley Morrison viralizou recentemente. Ela estava prestes a começar a treinar basquete e pediu ao pai para comprar o tênis de Curry, seu jogador favorito. Eles entraram no site da Under Armour, foram à seção de calçados infantis femininos e não acharam o Curry 5. No entanto, ao checarem a parte de meninos, lá estava o tênis no tamanho dela, com opção para customizar e tudo mais.

E o que a garotinha fez? Escreveu uma carta do próprio punho para o jogador do Golden State Warriors dizendo que tinha ficado desapontada com a situação. A mensagem chegou a Curry, que se comprometeu a conversar com a Under Armour para mudar isso. O camisa 30 também disse que enviaria à menina um par dos tênis que ela queria. E ainda garantiu que Riley seria uma das primeiras a ter o Curry 6, modelo que sequer foi lançado.

Mas os tênis – ou a falta deles – são apenas um pequeno exemplo de como é foda para uma mulher ter o hábito de jogar basquete. Se esse fosse o único empecilho estava fácil: veste um calçado de corrida, se pá uma tornozeleira para uma proteção extra e toca pra quadra. Problema resolvido. Mas há questões mais complicadas: onde jogar? Com quem jogar?

A história das mulheres que batalham para jogar basquete por aí é quase sempre a mesma: a mina descobre o esporte na escola e toma gosto; continua praticando no colégio, às vezes até joga entra num time juvenil. Só que daí para frente já era. Não por vontade delas, mas pela falta de opções.

“Acho que a maior dificuldade é encontrar um ambiente feminino para jogar. Porque quando vamos procurar, encontramos mais meninos e eles não gostam de jogar com meninas, principalmente quando elas são pequenas. O jogo é um pouco violento também, para quem está começando se torna meio hostil”, diz a oficial administrativa Vivian Yoshie, de 29 anos, que conheceu o esporte na escola.

A publicitária Joana Mendes, 32 anos, tem uma história semelhante. Ela curte basquete desde os tempos do colégio, mas não tinha onde jogar. Morou no Rio de Janeiro por um tempo e nada de encontrar uma turma ou local para praticar. Em São Paulo, finalmente achou com um grupo de mulheres na mesma situação.

Joana botou banca para as minas poderem jogar em paz.

Elas passaram a jogar no prédio de uma delas, mas a receptividade dos outros moradores não foi das melhores. “Começaram a jogar bituca de cigarro, pedaço de cimento e aí o prédio proibiu que a gente jogasse para preservar a nossa própria segurança”, diz.

Com uma galera, mas sem local para dar uns arremessos, elas começaram a procurar quadras pela cidade. Acharam um novo prédio e foram expulsas mais uma vez. Garimparam espaços públicos, só que sempre faltava alguma coisa. Até que apareceu o lugar ideal: uma quadra pública no Centro de São Paulo que geralmente estava livre nas noites de segunda-feira, um bom horário para treinarem.

E lá foram elas à quadra do Rotary. Quando chegaram, tinham uns homens jogando futebol. Na base da conversa, convenceram eles a ceder o espaço. Parecia que o problema estava resolvido, mas quando as minas voltaram na semana seguinte, os caras embaçaram.

“Fomos para outra quadra, mas muito putas. Decidimos articular um movimento”, lembra Joana. Elas criaram um evento no Facebook, mobilizaram uma galera, foram até atrás da Magic Paula. Na semana seguinte, mais de 100 mulheres ocuparam a quadra, entre elas a ex-armadora da Seleção Brasileira.

Com a bênção de uma das maiores jogadoras de todos os tempos e depois de uma pressão pesada, nasceu o Magic Minas.

“Existem muitas meninas que pararam de jogar, mas que têm vontade e que não conseguiam um lugar onde pudessem se divertir. Acho uma ideia brilhante e que deve ser replicada para o Brasil inteiro, para que as mulheres se sintam à vontade para bater uma bola”, diz Magic Paula. “Vemos que na maioria das vezes as quadras públicas são ocupadas por homens jogando futebol e as meninas foram pioneiras no sentido de correr atrás e ter um lugar para brincar, jogar.”

O Magic Minas está na ativa há quase dois anos. Atualmente, as meninas treinam três vezes por semana, em locais diferentes, com técnica e tudo. Mas o objetivo do projeto não é formar nenhuma estrela ou descobrir talentos. A proposta é botar a mulherada – qualquer uma – para jogar.

“As Magic Minas são inclusivas. Qualquer mulher pode jogar, de qualquer idade. Não é um time para se tornar fodona no basquete, ele serve mais para praticar e ter uma rede de apoio”, fala Joana.

“Entendemos que essa convivência é muito importante. O espaço da mulher sempre foi a casa. Pode perceber que a mulher não ocupa o espaço público, a rua não é o seu lugar de prazer. Para os homens, sim. Eles estão jogando dominó e dama enquanto as mulheres estão em casa. Nós somos políticas neste sentido. Tentamos ser uma rede de segurança. Se a mulher não pode ir, a gente vai lá buscar. Se ela está doente, a gente vai lá cuidar. Se ela está mal, a gente vai conversar”, explica ela.

E basta colar em qualquer treino das Magic Minas para ver que tudo o que a Joana fala é real. Em uma segunda de dezembro, lá estavam cerca de 30 mulheres das mais variadas, como a baixinha Vivian Yoshie, a jovem e habilidosa Maria Eliza Costa, de apenas 21 anos, e Eunice Ferraz Penedo, em quadra aos 64 anos de idade.

A história de Dona Nice é um capítulo à parte e exemplifica bem a dificuldade das mulheres no esporte.

Como a maioria das garotas, Dona Nice começou a praticar basquete nas aulas de educação física, lá na década de 1970, em Jaú, interior de São Paulo. Devido ao talento e ao gosto de Nice pelo esporte, uma de suas professoras montou um time só para mulheres. Ela mesma admite que não era fácil achar adversárias para um amistoso, mas ao menos podiam praticar.

Mas ao fim do ensino fundamental, Nice precisou trabalhar. Se mudou para São Paulo e não sobrava tempo para que continuasse a jogar. Daí em diante, ficou por mais de quatro décadas sem basquete. Nesse período ela se casou, teve filhos, construiu uma família.

Dona Nice ainda manda melhor que muito marmanjo

Porém, três anos atrás o casamento de três décadas chegou ao fim. Nice ficou deprimida. O melhor remédio ela encontrou faz cerca de dois meses: voltar às quadras.

“Faziam três anos que estava em depressão e minha filha pediu que eu fosse praticar exercícios físicos. Ela sabe que eu gosto de basquete e achou esse grupo na internet. Eu amo estar aqui, fui muito bem recebida. Quando estou jogando, eu sou feliz, esqueço meus problemas lá fora. Estou me sentindo muito bem. Voltei a jogar basquete para melhorar a minha autoestima. Essas meninas são tudo de bom, pessoas muito queridas. Elas são os meus xodós”, conta Dona Nice.

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