HQs

Os 10 quadrinhos mais fodas do Stan Lee, segundo o LØAD

O youtuber LØAD enumerou as histórias mais marcantes do criador da Marvel.
Bruno Costa
conforme dito para Bruno Costa
16 Novembro 2018, 1:25pm
Homem-Aranha chorando
Imagem via Instagram

Uma caixa de gibis dada por um vizinho aos treze anos. Esse foi o primeiro contato com super-heróis, para um garoto que depois, aos 17, teve que largar os estudos e trabalhar, e de repente se viu representado nas histórias do Homem-Aranha.

Esse é só um rascunho da jornada do youtuber Gil Santos, conhecido nas ruas como LØAD, que hoje é dono de um canal no YouTube criado na intenção de reunir amigos para falar de HQs e que compartilha vários conteúdos do universo dos quadrinhos. "Os gibis me trouxeram onde eu estou hoje", conta Gil.

Para relembrar o legado de Stan Lee, falecido na última segunda (12), LØAD nos conta as histórias mais fodas do quadrinista. Saca só:

Primeira edição do Quarteto Fantástico

O Quarteto Fantástico é apenas o quadrinho que dá origem ao Universo Marvel que conhecemos hoje. Além de ser o primeiro gibi de super-heróis da editora, lançado em 1961, Lee introduz o conceito de continuidade. Ou seja, se Nova York é destruída numa edição, a cidade ainda permanece destruída na revista seguinte. Na época, foi uma grande revolução feita por Lee e Kirby, já que as histórias da DC Comics eram todas contidas. E após o grande sucesso do Quarteto Fantástico, todas editoras queriam fazer alguma equipe em seus quadrinhos.

Os X-Men

Em setembro de 1963 surgiu um dos grupos que mudaria muitas coisas nos quadrinhos: os X-Men. Criados por Stan Lee e Jack Kirby, eles apareceram na edição The X-Men #1. Até então, as histórias da Marvel eram diferentes das demais editoras na época, com um universo que desenvolvia características mais semelhantes as da realidade, sendo muito mais humanizadas e fácil de se identificar. A editora explorava bastante a caracterização dos personagens, principalmente em problemas pessoais. E assim surgiu o grupo X-Men, que originalmente trazia mais temas sobre o preconceito contra os mutantes.

Homem-Aranha: Nunca Mais!

Essa foi a primeira história do Aranha que li escrita pelo Stan Lee quando moleque. Ela foi publicada originalmente em 1967. Homem-Aranha: Nunca Mais! é uma das principais fontes de inspiração para o filme Homem-Aranha 2, de Sam Raimi (um dos melhores filmes do herói, diga-se de passagem). Nessa história, Peter Park quer abandonar sua vida como herói e tentar correr atrás de seus sonhos como um civil. Mas como já sabemos, grandes poderes trazem grandes responsabilidades, né? E nisso, Peter descobre que apesar de não querer assumir o manto do amigão da vizinhança, sua presença por lá é muito necessária.

É uma HQ muito bem escrita por Stan Lee e lindamente desenhada por John Romita, Homem-Aranha: Nunca Mais! Mostra como o Stan Lee sabia trabalhar bem o personagem e nós deixar cada vez mais próximo e sentir tudo o que Peter passava no seu dia a dia. O lado humano da Marvel que sempre falamos é bem forte nessa HQ, sem falar que traz também a clássica cena do uniforme do teioso no lixo, que foi recriada por Raimi no segundo filme de sua trilogia.

Surfista Prateado Parábola

Bom, Stan Lee e Moebius são duas lendas dos quadrinhos. O primeiro, como falei anteriormente, criou praticamente todo o universo Marvel que conhecemos, enquanto o segundo é um dos nomes mais importantes dos quadrinhos europeus. Eles se conheceram numa feira de quadrinhos e depois de um bom papo, resolveram criar uma historia juntos, e assim surgiu Surfista Prateado: Parábola, lançado em 1988 e protagonizada por um dos personagens preferidos de Lee.

Na historia, num dia qualquer, uma nave gigantesca pousa em Nova York e dentro dela sai Galactus, o devorador de mundos. Ele chega aparentemente sem a intenção de destruir tudo. Ele simplesmente fica estático no meio da grande cidade, e começa seu discurso de tudo é permitido, nada é pecado. Uma nova religião surge para cultuar e adorar Galactus, enquanto tudo vira uma bagunça e o caos se instaura, e é aqui entra o Surfista Prateado vem para intervir na história.

Ela mostra como a humanidade tem um certo medo de caminhar com as próprias pernas, sempre procurando um ser superior no qual pode se apoiar e, porque não, culpar pelos próprios atos inconsequentes. De certa forma, é uma visão até pessimista dos humanos, já que mostra que a maioria das pessoas não se importaria de cometer atos terríveis desde que tenham a certeza da impunidade. O embate não é só entre o devorador de mundos e o Surfista Prateado, mas também com a população que começa a ver o Surfista como um anticristo e o Galactus como o salvador. Essa pegada religioso e esse toque de filosofia que Stan Lee dá pro material é muito bom de ler, junto com a arte maravilhosa de Moebius.

Homem-Aranha e a luta contra as drogas

Se tem uma edição que me chocou quando li foi Amazing Spider-Man #96-97-98. Uma trama comum do Peter e seu romance com a Gwen Stacy, e seus problemas com grana até que a trama da droga finalmente aparece na página dez, quando o Aranha resgata um jovem que está louco por drogas e salta de um prédio achando que poderia voar.

O nosso herói realmente diz que o garoto está chapado, e lembro disso me chocando quando li. Tinha meus 13 anos e já tinha visto muitos amigos usarem drogas. A forma como Stan Lee tratava o assunto parecia que falava diretamente comigo. A descida de Harry ao abuso de drogas é totalmente compreensível. Seu vício é apresentado como uma fraqueza do personagem e o comerciante como um predador desprezível, mas em nenhum momento vemos discurso sobre qualquer coisa. Stan foi capaz de deixar a história falar por si mesma, e com um tom muito natural, o que a torna mais poderosa.

Vale lembrar que essas histórias na época saíram sem o selo Comics Code Authority, que na época era exigido, mas Stan acabou publicando sem a explicação dada.

Homem-Aranha e sua humanidade (O Espetacular Homem-Aranha #33)

Os primeiros anos do Aranha foram onde Lee e Steve Ditko criaram muitos personagens e vilões. Um exemplo é a saga do Planejador Mestre, que era um candidato a rei do crime em Nova York. Nessa saga são apresentados Harry Osborn e Gwen Stacy, e Peter Parker ingressa na universidade.

Lee e Ditko trabalharam melhor o nosso amigo Aranha, colocando ele em desespero e ultrapassando obstáculos impossíveis. Foi o equilíbrio muito bom de drama e ação que trouxe o que é, possivelmente, uma das melhores cenas de todas as suas histórias já escritas e desenhadas: o cabeça de teia preso embaixo de uma tonelada de metal, em um laboratório que rapidamente é inundado e ele precisa sair de lá para levar à Tia May, internada com envenenamento radioativo, um remédio capaz de curá-la.

Nunca o traço de Ditko foi tão perfeito. O roteiro de Stan Lee foi certeiro e emocionante. Uma história com muita emoção, e que ajuda a entendermos o apelo do Homem-Aranha. Antes de herói, ele é Peter Parker e são suas motivações e limitações humanas que nos fazem amar o personagem. No fim, o que faz de Peter um herói é seu caráter, e não sua super força. Creio que poucas vezes isso fica tão claro quanto nessa história escrita pelo Stan Lee.

O poder do Pantera Negra

O Pantera Negra, criado pelo Stan Lee, foi o primeiro super-herói negro dos quadrinhos, aparecendo na revista Fantastic Four 52, em 1966, com a arte maravilhosa do Jack Kirby. Na época, o escritor aumentou consideravelmente a população negra nos quadrinhos.

Na historia, T’Challa é o rei do fictício país africano de Wakanda, herdeiro de uma linhagem de grandes guerreiros. O Pantera Negra fez sucesso e Lee não queria um papel simplesmente de coadjuvante para o personagem. Assim, mandou Roy Thomas colocá-lo como líder dos Vingadores, lá em 1968, substituindo o Capitão América.

A importância desses personagens que Stan Lee criava influenciava diretamente o mercado dos quadrinhos. Logo temos tivemos a estreia do Falcão, em 1969. E assim cada vez mais espaço para os negros nos quadrinhos foi surgindo.

O Surfista Prateado: a melhor experiência cósmica

Aqui é bom lembrar que as graphic novels não eram comuns na década de 70 e, na época, um produtor chamado Lee Kramer sugeriu para Stan Lee a produção um filme com o Surfista Prateado. Para isso acontecer, ele precisaria de uma história fechada do personagem. Por conta disso, Lee se juntou com Jack Kirby e criaram o que seria a primeira graphic novel.

O filme acabou não acontecendo, mas ajudou a criar um novo estilo de HQ e infelizmente foi último trabalho da lendária dupla, que revolucionou a linguagem dos quadrinhos. Embora continue sendo uma boa história, o que mais chama atenção é a arte feita pelo Kirby. Já Lee, neste caso, não aparece muito. Seus diálogos não estão à altura de sua fama, mas continua sendo uma história boa.

Este homem, este monstro (Quarteto Fantástico #51, 1966)

Essa historia é outra que considero especialmente importante na construção dos roteiros do Stan Lee, porque desde que o Ben Grimm apareceu pela primeira vez, ele sempre foi o amável O Coisa. Ele era poderoso, mas esse poder vinha com um preço. Ele passava a maior parte do tempo sendo torturado sobre seu corpo de monstro deformado e rochoso, enquanto o usava para espancar os inimigos do Quarteto.

Nesta história, um vilão que foi realmente apresentado durante a saga Galactus aparece e rouba o poder do Ben para si mesmo, fazendo com que ele se torne um ser humano novamente. Naturalmente, é apenas um plano para ficar no lugar do Ben, para que ele possa matar Reed Richards, mas para Ben surge um dilema interessante. Quando ele retorna ao Edifício Baxter como o antigo Ben antes da transformação, seus companheiros de equipe não acreditam que ele tenha voltado ao normal, já que eles têm o "coisa" ao lado.

Nisso, surge a escolha de aceitar o preço de não ser mais um monstro e perder sua família ou tentar recuperar as pessoas às quais ele era mais próximo, ao custo do que ele sempre viu como sua humanidade. Nessa história vemos o conflito psicológico do Coisa, que, ao ganhar seus poderes, perdeu sua aparência humana. Um drama de primeira, uma parada rara no mundo dos quadrinhos.

Homem-Aranha e sua crise de identidade

Nosso querido Stan praticamente se afastou de qualquer trabalho regular de quadrinhos nos últimos anos. Ele aparecia em ocasiões especiais. Uma das melhores coisas que ele escreveu no século 21 é uma pequena historia de 12 páginas ao lado do artista Marcos Martín em Amazing Spider-Man #600.

Essa não é a crise de identidade dos anos 1990 que tivemos aqui em quatro edições pela Abril. Essa Identity Crisis é sobre o Homem-Aranha explicando todos os seus problemas a um psiquiatra. Não os problemas habituais como supervilões. Na verdade, você entende os problemas de ser um personagem fictício, mesmo numa realidade que a continuidade pessoal está sujeita a ser ajustada sempre por seus criadores. Uma historia muito bem escrita por Stan lee e que é pouco falada quando nos referimos às histórias do Homem-Aranha.

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