O que a vigilância constante faz com o seu cérebro

A tecnologia cada vez mais rastreia nossos movimentos. Ser observado o tempo inteiro deixa qualquer um ansioso e é uma merda para nossa cabeça.

por Kaleigh Rogers; Traduzido por Marina Schnoor
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21 novembro 2018, 4:15pm

Imagem: Cathryn Virginia.

Você está sendo vigiado. Neste exato momento, cookies estão rastreando que sites você acessa e no que você clica enquanto está lá. Seu celular está logando sua localização. E se você está fora de casa, tem uma boa chance de uma câmera estar te filmando e pode até estar tentando identificar seu rosto.

Enquanto a tecnologia e aprendizado de máquina continuam avançando, integramos cada vez mais a vigilância no nosso cotidiano. É muito fácil ignorar as maneiras como estamos sendo rastreados, mas, assim que você começa a prestar atenção, esse fato logo se torna perturbador. E você pode ficar imaginando: que efeitos ser observado o tempo todo tem no nosso comportamento – e no nosso cérebro? Acontece que isso pode ser tão pesado mentalmente quanto um transtorno mental como depressão e pode até causar sintomas similares aos de transtorno de estresse pós-traumático.

Vamos começar tentando quantificar quanto um ser humano médio é rastreado porque nem sempre é aparente. Quando sai a notícia de um grande violação de privacidade, ficamos mais vigilantes por um tempo, mas especialistas dizem que a vigilância de que estamos conscientes é apenas a ponta do icebergue.

“Quando pensamos em vigilância, as pessoas geralmente pensam nas formas físicas disso como câmeras de segurança ou espiões colocando um grampo num telefone”, me disse Christopher Burr, pesquisador do Laboratório de Ética Digital da Universidade de Oxford, numa entrevista por Skype. “Mas isso não captura realmente o caráter geral do que está se tornando cada vez mais possível, e mais e mais eficiente.”

Burr estuda a filosofia da ciência cognitiva e inteligência artificial. Sua pesquisa investiga os tipos diferentes de dados que podem ser colhidos das interações humanas com as máquinas. Num estudo recente ainda não publicado, Burr e seus colegas usaram dados de competições de ciência da computação para tentar catalogar que tipo de informação pode ser tirada da nossa interação diária com computadores. E eles ficaram surpresos em descobrir a quantidade de dados que podem ser colhidos. Programadores já conseguem medir a satisfação de alguém no trabalho por meio de reconhecimento facial ou analisar uma postagem no Facebook para detectar sinais de depressão ou até determinar o ritmo cardíaco de alguém por uma webcam.

“O jeito como o sangue flui pela pele e o modo como a pele sinaliza isso pode ser detectado, não de maneira perfeita, mas pode ser algo detectável por meio de uma webcam”, me disse Burr. “Esse é meu trabalho. Passo um mínimo de 40 horas por semana pesquisando esse tópico e ainda fico surpreso com as possibilidades.”

Burr também apontou que dados coletados para um propósito muitas vezes podem ser minerados para informações que nunca pretenderam entregar, como o que aconteceu com o escândalo eleitoral da Cambridge Analytica, quando o perfil de 50 milhões de usuários do Facebook foram vazados e usados para informar publicidade direcionada durante a eleição presidencial americana em 2016.

“O medo e a incerteza gerados pela vigilância inibem atividades mais que qualquer ação da polícia.”

O impacto que diferentes formas de vigilância têm em cada um de nós depende de duas coisas: se sabemos que estamos sendo observados e qual achamos que é a motivação para essa vigilância, segundo Brock Chisholm, psicólogo que estuda os efeitos da vigilância no humor e comportamento. Chisholm me deu o exemplo de um estudo que ele fez com defensores dos direitos humanos fazendo campanha na Etiópia sob vigilância.

“De repente eles tinham imagens de sua família sendo presa, deles sendo presos, e algumas pessoas tinham sintomas de transtorno de estresse pós-traumático”, Chisholm me disse numa entrevista por telefone. “É o que geralmente chamamos de flashforwards, em vez de flashbacks.”

Tudo depende do contexto e, nesse sentido, nossa reação não é diferente da de qualquer outro animal, explicou Chisholm. Um filhote de rato sendo observado pela mãe vai se sentir confortável e seguro. Um filhote de rato sendo observado por um predador se sentiria estressado e ameaçado.

Em algumas partes do mundo, a vigilância é constante para certos grupos – pense nos jornalistas e ativistas de direitos humanos vivendo sob regimes autoritários. É uma questão tão difundida que seus efeitos assustadores são considerados garantidos para os afetados, segundo Joshua Franco, pesquisador, consultor sênior e vice-diretor da Amnesty Tech da Anistia Internacional.

“O medo e a incerteza gerados pela vigilância inibem atividades mais que qualquer ação da polícia”, disse Franco numa entrevista por telefone. “As pessoas não precisam agir, te prender. Se essa ameaça está ali, se você sente que está sendo observado, você se autopolicia, e isso afasta as pessoas de lugares públicos. É difícil funcionar normalmente sob essas condições.”

Franco me disse que muitas pessoas vivendo sob estruturas autoritárias estão tão acostumadas a ter que sempre olhar para trás e ter cuidado com o que dizem, que isso acaba se tornando uma segunda natureza. E mesmo quando elas escapam dessas situações, a ameaça da vigilância pode ter efeitos de longo prazo na vida dessas pessoas.

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Imagem: Roel Wijnants/Flickr

“Para muita gente, esses efeitos são bem visíveis”, disse Franco. “Refugiados do Uzbequistão na Europa, por exemplo, podem ter medo que ligações que fazem em casa estejam sendo monitoradas, porque receber ligações de um número estrangeiro podia render problemas para eles com as autoridades locais. Então eles eram obrigados a cortar contato.”

E a vigilância do governo está se tornando mais ampla enquanto tecnologia invasiva se torna mais barata e disponível, disse Franco. Compare isso com a Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental antes da reunificação, que precisava de centenas de milhares de informantes para juntar informação sobre civis. Agora os governos podem comprar um software que lê e-mails e grava ligações para eles.

Mas mesmo em sociedades democráticas, aceitamos muita vigilância de boa vontade nas nossas vidas. Diferentes pessoas vão aceitar diferentes níveis e formas de vigilância também. Muita gente sabe que a Netflix rastreia nossos padrões quando assistimos algo na plataforma e usa um algoritmo para recomendar novas séries e filmes, mas ficamos confortáveis com essa vigilância porque a troca parece compensar; o tipo de dados que estamos compartilhando vale o benefício de receber recomendações mais acertadas.

“A reação da comunidade de saúde mental tem sido similar à da sociedade em geral, que é desistir de tentar nos proteger.”

Isso dita como nosso conhecimento de que estamos sendo observados – e se consentimos com isso – pode nos impactar, e se não estamos confortáveis com a quantidade ou a maneira como estamos sendo observados, ou não achamos que a troca vale a pena, isso pode causar ansiedade, e até uma forma insidiosa de ansiedade que é particularmente perigosa para nossa saúde.

“Há esse tipo de ansiedade de fundo cotidiana que vai se acumulando, que sabemos que está lá, mas meio que ignoramos e não percebemos como estamos no limite até ser tarde demais”, disse Chisholm. “Para essas pessoas, esse tipo de ansiedade de fundo que vai se acumulando – elas vão ter mais dificuldades em relacionamentos, mais discussões, elas se tornar exageradamente vigilantes, e estão sempre procurando ameaças.”

Mas o que fazemos então? Enquanto muita gente já fantasiou sobre esmagar todos os seus aparelhos com uma picape e fugir para a floresta para se tornar um ermitão (ou é só eu?), a realidade é que a maioria não pode escapar de pelo menos algum nível de vigilância em nossas vidas.

“A reação da comunidade de saúde mental tem sido similar à da sociedade em geral, que é desistir de tentar nos proteger. Quase parece que nada pode ser feito”, disse o Dr. Elias Aboujaoude, pesquisador de psicologia comportamental da Universidade de Stanford, nos EUA.

Se desconectar, e tomar o controle de qual informação é rastreada, pode aliviar algumas dessas ansiedades.

“Um aspecto significativo quando se trata de segurança tem a ver com controle, então se você consegue encontrar momentos em que sente que não está sendo vigiado, isso pode ajudar”, disse Chisholm. “Acho realmente que um dos principais problemas é que as pessoas não pensam o suficiente sobre isso, e as empresas conseguem se safar com coisas que são prejudiciais no final das contas. Acho que há benefícios nas pessoas se sentirem um pouco inseguras.”

Se desconectar pode criar um alívio temporário, mas também precisamos usar esse sentimento de insegurança para criar mudanças, elegendo oficiais mais transparentes que aprovem leis mais severas de privacidade e regulamentações para empresas privadas e o governo. Podemos convidar muita vigilância para nossas vidas, sob o disfarce de conveniência ou segurança, mas isso não significa que temos que continuar aceitando isso.

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