Ilustração: Flora Próspero

O medo que o Brasil tem dos próprios negros

A colonização brasileira criou um fantasma que amedronta alguns governantes “conservadores” até os dias de hoje.

por Ale Santos; ilustrado por Flora Próspero
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dez 10 2018, 9:00am

Ilustração: Flora Próspero

Em coluna, o autor de sci-fi & fantasia afro-americana e pesquisador Ale Santos traz os contextos das causas raciais em questões culturais, políticas e até do entretenimento de nosso país. Esta coluna é um esforço de compartilhamento de conhecimento numa época em que o negacionismo cresce e influencia diretamente o imaginário das pessoas. Bem vindo ao Guia Historicamente Correto do Brasil.

É fácil entender esse fantasma: a escravidão era autodestrutiva. Só que não haviam teorias sólidas para avisar os europeus desse fato. Por mais que a escravidão já existisse em outros lugares do mundo, como a promovida por Roma, pelos vikings ou mesmo a que acontecia por guerras entre etnias na África, nenhuma delas chegou a consolidar um tráfico de humanos em larga escala entre continentes distintos com toda uma estrutura de comércio em vários países. Tampouco houve-se uma escravidão com viés racial, fundamentado nas ideologias eurocentradas construídas por teólogos que pregavam a condição inferior do negro, ou filósofos que defendiam que o preto não tinha condições de se educar.

Por conta dessa soberba portuguesa, de olhos fechados, o nosso país trouxe a maior quantidade de africanos escravizados das Américas. Claro que isso não ficaria em vão; negros não se dobram no primeiro açoite e começaram a minar as engrenagens dessa sociedade escravocrata. Primeiro com o Quilombo dos Palmares, o maior dos símbolos da liberdade em nosso país, uma resistência que se manteve por quase 100 anos, no séc. 17 e reuniu mais de 20 mil negros entre africanos e afro-brasileiros. Um verdadeiro demônio que roubava sono dos homens brancos no país. Todo negro revoltado com a condição miserável e violenta que sofria, olhava para Palmares como uma escapatória e uma vingança.

Liderado por nomes como Aqualtune e Ganga Zumba (bem antes de Zumbi) o Quilombo metia muito medo até nos estrangeiros que tentavam invadir o Brasil. Até 1640, Palmares foi considerado “um sério perigo” pelos holandeses, que enviaram duas expedições para destruí-lo, uma em 1644 e outra em 1645, ambas fracassadas. A resistência se tornou exemplo. Era o que os brancos colonos temiam. Quando começaram a ter algum sucesso, o governador Pedro de Almeida propôs um acordo, com receio de uma futura reorganização daqueles guerreiros.

Enfim, Palmares cedeu após os 15 bravos anos de liderança de Zumbi, mas o medo estava instaurado. Fazendeiros e governadores tinham sentido o gosto de derrotas e revoluções dos negros. A ficha deve ter caído; Palmares reuniu dezenas de milhares entre homens e mulheres pardas e negras, imagine se esse movimento de união e consciência negra chegasse à outras regiões?



Em várias cidades do país a desigualdade promovida pela escravidão se tornou um fardo. O Rio de Janeiro manteve 110 mil negros escravizados em senzalas, então imagine o poder que eles teriam se eclodisse uma revolta generalizada. Obviamente, após Palmares, várias medidas foram tomadas para evitar novas organizações e suprimir qualquer discussão que parecesse revoltosa, logo de início. O trabalho era suprimir antes que os pretos se reunissem novamente. Nem sempre deu certo, as rebeliões eram constantes: só na Bahia foram mais de 30 revoltas até 1835, quando os fazendeiros racistas conheceram um novo terror: a Revolta dos Malês.

Muçulmanos em sua maioria, os Malês eram bilíngues, bem articulados e geralmente trabalhavam como escravos de ganho. Os “senhores” invejavam sua inteligência, mais elevada que a dos portugueses escravocratas e seus descendentes. Cerca de 1500 negros participaram do confronto, que foi infelizmente suprimido, mas que deixou um dano absurdo no imaginário escravagista.

Francisco Gonçalves Martins, chefe de polícia de Salvador, descreveu assim no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, em 10 de fevereiro de 1835

“Em geral vão quasi todos sabendo ler e escrever em caracteres desconhecidos, que se assemelhão ao Arabe, usado entre os Ussás, que figurão terem hoje combinado com os Nagós. Aquella Nação em outro tempo foi a que se insurgio nesta Provincia por varias vezes, sendo depois substituida pelos Nagós. Existem mestres que dão lições, e travão de organisar a insurreição, na qual entravão muitos forros Africanos, e até rios.”

Nessa época, o Império estava muito impactado com as histórias que chegaram do Haiti, que expulsou da ilha das Antilhas quase toda a população branca e instaurou um reino negro livre. Por isso, a vigilância e a violência empregada na contenção de revoltas era cada vez maior. Em 1835 estourou a maior que o Vale do Rio Paraíba já conheceu, liderada por Manoel Congo e Marianna Crioula, porém contida antes da formação de um quilombo.

Todo esse doloroso processo de escravidão forçou o Império a pensar maneiras de ir gradualmente libertando os escravos e, quando assim aconteceu em 1888, o temor gerou um negacionismo sem fim. Negar a escravidão era proveitoso para quem havia subjugado e violentado os pretos por tantos séculos. Nunca fomos como os EUA — lá os negros realmente são minoria, chegando perto de 15 ou 17% da população. Mas aqui nas terras tupiniquins no final do século XIX haviam 58% de pretos e pardos declarados.

Expressar abertamente o racismo iria criar uma guerra civil; o medo de ser expulso como os brancos foram do Haiti era imenso. A melhor forma de lidar com isso foi negar, como fizeram em várias ocasiões, tipo a polêmica queima dos documentos por Ruy Barbosa e o Hino da proclamação da República que dizia “Nós nem cremos que escravos outrora/Tenha havido em tão nobre País…”. Fico imaginando o governo e seus militares sorrindo por fora e se rasgando por dentro com medo de uma união negra organizada.

Entre 1920 e 1930, o Brasil teve um dos períodos mais racistas de sua história com o surgimento do movimento eugenista e a institucionalização das políticas de embranquecimento, que se deram por todo o governo militar posterior. Mas a propaganda que faziam era outra, falava da harmonia entre as raças e da mestiçagem. Mas a mestiçagem só era aplaudida para embranquecer e se alimentava dos planos descritos no boletim da eugenia para exterminar a raça preta. Precisavam fazer isso em silêncio, sem confronto. Nosso país não teve leis que oficializavam o racismo, mas manteve políticas pedagógicas, sanitaristas e policiais que assim faziam.

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Boletim da Eugenia, 1929. Foto: Reprodução

Foram várias leis que oficializaram os ideais do movimento eugenista brasileiro. No geral, essas leis trabalhavam em duas dimensões: no embranquecimento da população, e no abandono e tensão que fariam os negros morrerem por conta própria.

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Boletim da Eugenia, 1929. Foto: Reprodução

A República conseguiu convencer as pessoas da mentira sobre a mestiçagem harmoniosa, graças ao projeto negacionista que até hoje insiste em não tratar da escravidão e do passado eugenista com detalhes, sórdidos como são. Logo, as leis e a polícia não poderima quebrar esse mentira com argumentos raciais. Por isso trocavam os termos, mas não as intenções.

Em 1941 uma lei declarava vadiagem “entregar-se alguém habitualmente à ociosidade, sendo válido para o trabalho, sem ter renda que lhe assegure meios bastantes de subsistência, ou prover à própria subsistência mediante ocupação ilícita.”

Com as políticas do movimento eugenista, portugueses e outros estrangeiros brancos estavam chegando ao país, recebendo salários, subsídios e criando associações para trabalhar. Ninguém queria pagar para um homem preto ocupar o lugar de um branco, assim até 1970 a maior parte das pessoas presas por esse crime ridículo eram negras. No governo militar, segundo a Comissão da Verdade, rolou uma forte perseguição aos movimentos negros, bailes blacks e grupos como o Ilê Ayê, que impediram a criação de instrumentos jurídicos para denunciar o racismo naquele período.

Nas ruas da periferia, o cabelo era um dos grandes símbolos de resistência, e a polícia insistia em raspá-los como forma de humilhação. A história de Tony Tornado e Elza Soares são exemplos da herança de medo que os militares ainda carregavam de ver o povo negro unido. Até hoje, na revista do Clube Militar é possível encontrar defesas infundadas e um projeto ideológico negacionista que tenta apagar da nossa história os nomes e o orgulho dos ancestrais que lutam pela liberdade. Mas as vozes na senzala, e fora dela, não esquecem nunca dos seus verdadeiros defensores.

Estamos prestes a entrar em governo com um presidente, vários ministros e deputados que carregam esse fardo do medo. Vão negar até às últimas consequências que não existe racismo e que somos tão miscigenados que é difícil identificar um negro no país. É tudo medo — no fundo eles sabem que as estatísticas mostram um país extremamente racializado, mas o que vão fazer se percebermos que somos a maioria e que isso pode mudar tudo?

Acho que os próximos passos da história do Brasil vão nos oferecer essa resposta.

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