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O medo e a orla: Nego Gallo traduz Fortaleza para o rap em 'Veterano'

O ex-Costa a Costa mistura reggae, trap e funk com o apetite de fazer "o bagui virar" com seu segundo trabalho solo.

por Peu Araújo
10 Janeiro 2019, 3:33pm

Foto: Mari Caldas/Divulgação

Alguns cantores e compositores já se aventuraram a descrever Fortaleza. Há um carimbó habilidoso do Pim que repetidas vezes enaltece a Praia de Iracema em seu refrão; há uma bela canção interpretada por Ary Lobo que também faz elogios à mesma praia e à cidade; Fagner teimosamente cantou sobre o Mucuripe e o Cidadão Instigado fez uma música e um disco inteiro com o título da capital cearense, que é uma homenagem pinkfloydzeppeliana do mais alto gabarito, mas até este momento nenhum artista cearense tinha conseguido trazer em versos o calor e o caos, a tensão e o mar, o amor e a raiva, a quebrada e a praia, a maldade e o baile, o crime e a paz, o medo e a orla.

Não TINHA: verbo no passado. Nego Gallo, um dos MCs mais honestos e talentosos do rap nacional chegou lá em Veterano, seu segundo trampo solo desde o Costa a Costa, que também deu a sua versão sobre as belezas e tragédias da capital cearense no clássico Sexo, Drogas e Violência de Costa a Costa (2007). No novo álbum, Gallo segue cantando sobre Fortaleza/Fortal/4town, mas agora com a maestria e a malícia de quem já viu demais da vida. De quem não precisa de speedflow, porque mesmo com calma, e em poucas palavras, diz a que veio. E apesar de sempre fazer questão de dizer que aprende com os mais novos, aos 44 anos, o MC dá aula quando rima e também quando fala.

Carlin voltou em Veterano no apetite de quem ainda tem muito o que contar. E como ele diz no primeiro interlúdio: “Calce seu tênis, enxugue seu rosto que já são 12 e o mundo não vai esperar.”

Nego Gallo fala sobre o disco. “Eu nunca tinha dimensionado, nem nas melhores expectativas. Isso aí tá tomando um vulto. Imagina que a gente sentou um dia e fez uma parada ali na casa do Côro MC (a mixtape foi toda gravada lá e ele canta junto em “Passado Presente”). Olha quantas pessoas estão envolvidas hoje, quantas pessoas estão juntas”. Ele, com a tranquilidade que lhe é peculiar, acrescenta. “Eu tô muito confiante mesmo. E tudo isso vai aumentando a responsabilidade.”

Uma das pessoas que correram pro bagui virar foi seu xapa Gabriel Don L. Nego Gallo explica. “Essa possibilidade de fazer o trampo, de levar para o Léo Grijó (co-produtor), isso tudo parte dessa coisa que o Gabriel construiu.”

Sobre a presença de Grijó, que ao lado de Côro MC assinam a produção, ele comenta. “A minha proposta era um reggaezinho, o maluco saca pra caralho disso aí”. Gallo, com um desapego saudável ainda acrescenta. “O meu olhar é um, se o olhar do outro puder contribuir vai levar isso que eu tô fazendo para um outro lugar. A música que eu fiz tá lá.”

O MC fala ainda com orgulho da caminhada de Don L no Sudeste. “Eu lembro quando o Gabriel foi na perspectiva de tentar em São Paulo e de todos os desdobramentos da ida dele pra quem ficou aqui.”

Don L, que canta junto em “No Meu Nome”, fala sobre a importância de Veterano e do veterano. “Pra mim esse disco tem guerra e paz em cada verso, tem dor e alívio em cada verso — você sente a verdade. É uma mixtape só pelas condições que foi gravado, mas isso também faz parte do que faz ele grande. Numa época de pasteurização de sonhos, de cópias de caricaturas, do fake it till you make it, e do vazio de perspectiva real, esse disco vem com o puro coração ali depois de todas as desilusões da vida te dizendo tipo, ‘tá tranquilo irmão, eu já vi isso tudo aí, agora deixa eu te falar um pouco do que a vida pode ser independente das suas condições, de como você pode se manter vivo com tudo conspirando contra e mesmo assim sentir que tá valendo a pena’.”

Ele ainda fala das condições da cidade no período em que Nego Gallo gravava as tracks. “É meio transcendental. Todas as músicas passam uma boa vibe, sendo que ele foi gravado literalmente no meio de uma guerra.”

Por isso, voltando ao papo lá do começo, Nego Gallo soube cantar a Fortaleza que passa longe, mas nem tanto, da Praia de Iracema. Ele fala do sentimento com a cidade. “Ar seco, sol rachando, um sol pra cada pessoa, mas tá todo mundo trabalhando, correndo atrás”. Ele ainda acrescenta. “Essa cidade impõe medo. Você não pode sair de um bairro pro outro pra visitar sua namorada, porque você corre o risco de alguém te parar, perguntar de que bairro que tu é e de repente dar uma merda. Eu quis fazer outra coisa”. Ele, com sua rara humildade, ainda diz. “Eu queria falar dessa cidade. Tá difícil, tá brabo em vários lugares, mas vamos viver.”

Anota aí. Veterano é um dos melhores discos de rap de 2019 e o sarrafo já tá lá no alto já em janeiro. Ele pode não ser o que terá mais hype, nem o que vai alcançar mais views, pode até passar batido na lista dos melhores do ano, mas isso diz muito mais sobre quem ouve rap e os críticos musicais do que sobre quem o faz o som.

Ouça a mixtape Veterano do Nego Gallo no Spotify e no YouTube.

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