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Drogas

Meu romance com um barão da droga colombiano

Uma mulher trans fala sobre sua experiência íntima com um narcotraficante mortal.

por Nick Chester; Traduzido por Marina Schnoor
11 Outubro 2019, 10:00am

Imagem cortesia da Gabriela.

Traficantes não são conhecidos por ter atitudes progressistas. Isso é especialmente verdade em se tratando de sexualidade, com várias organizações criminosas diferentes, da máfia italiana ao MS13, rotineiramente assassinando qualquer membro suspeito de ser da comunidade LGBTQ.

Com isso em mente, fiquei surpreso de ouvir de um contato colombiano, que cumpriu pena numa prisão do Reino Unido por tráfico de drogas, que ele conhecia uma jovem mulher trans em seu país que teve um romance público com um barão das drogas colombiano. Ela diz que ele era profundamente devotado a ela, e que a relação deles era aceita pela maioria dos colegas dele.

Esse também era um relacionamento nascido em parte da dificuldade de crescer como uma pessoa trans num lar conservador. Quando adolescente, Gabriela saiu de casa por causa do abuso que sofria nas mãos do pai cristão fundamentalista, e acabou nas ruas. Ela disse que um encontro por acaso com um barão das drogas local mudou sua vida, mesmo se o perigo e a violência do tráfico nunca desapareceram. Esta é a história que ela me contou.


Quando era mais nova, nunca imaginei que me misturaria com barões da droga e moraria nas ruas. Meu pai era advogado, e me colocou numa escola particular. Tive uma criação confortável do ponto de vista financeiro, e minha vida seria relativamente mais fácil se eu não fosse transgênero.

Eu sabia que era uma garota presa num corpo de menino desde bem nova, e costumava me vestir em segredo como menina na casa de um amigo gay. Eu desejava poder fazer o mesmo na companhia da minha família, e acabei decidindo que era hora de parar de viver uma mentira e contar pro meu pai que eu era transgênero.

Dizer que ele não aceitou bem é um grande eufemismo. Ele é muito religioso, e ficou furioso. Ele me bateu e me levou pra igreja no dia seguinte, onde eles queriam me obrigar a passar por um exorcismo para tirar a homossexualidade de mim. Achei ridículo e recusei, o que o deixou ainda mais bravo. A situação ficou tão ruim que acabei saindo de casa para morar nas ruas.

Na primeira noite, dormi num parque local, onde fui encontrada por uma amiga trans no dia seguinte, e ela me levou até uma cafetina que, segundo ela, me ajudaria a ganhar algum dinheiro. A cafetina era uma mulher trans mais velha que queria que eu vendesse meu corpo. Recusei na hora, então ela me deu uma faca e um spray de pimenta, dizendo que eu podia tomar conta das outras prostitutas para garantir que ninguém entrasse nas ruas onde elas trabalhavam fora os clientes. Também fiquei responsável por assaltos a bêbados que entravam naquelas ruas por engano. Eu era gótica na época, então Deus sabe o que as pessoas achavam daquela pequena adolescente roqueira patrulhando as ruas perigosas com uma faca. Devia ser uma visão e tanto.

Depois de um tempo, passei dos assaltos nas ruas para roubar lojas com uma arma. As coisas que tive que fazer para sobreviver infelizmente são comuns em certas áreas da Colômbia. As ruas onde eu passava a maior parte do tempo eram extremamente perigosas, e a polícia me perseguiu várias vezes quando eu estava com as prostitutas, tentando bater em nós. Foi um período muito tenso e incerto da minha vida.

A gente fazia passeios de moto pelas montanhas e ficávamos olhando as estrelas à noite. Ele tinha uma jacuzzi na casa dele, e costumávamos relaxar nela juntos, ouvindo jazz e deep house.

Felizmente, depois de alguns meses nas ruas, quando eu tinha 17 anos, minha sorte mudou. Um dia, uma SUV desceu a rua onde as trabalhadoras sexuais operavam, um cara desceu do carro e perguntou pra cafetina se ela tinha alguma mulher trans disponível. Ele me viu e disse que não conseguiu resistir a ficar e fumar um cigarro comigo. Ele me disse que era muito solitário e precisava de alguém para lhe fazer companhia. Continuamos conversando e ele me disse que seu nome era Carlos*, depois me levou para comer. Aí ele revelou que era um membro importante do mundo das drogas.

Eu e Carlos começamos a namorar e ele pagou para eu ficar no flat dele. Na verdade ele era muito romântico, e me levou para viajar pelo país todo com ele. A gente fazia passeios de moto pelas montanhas e ficávamos olhando as estrelas à noite. Ele tinha uma jacuzzi na casa dele, e costumávamos relaxar nela juntos, ouvindo jazz e deep house. Eu curtia muito house na época, e também frequentava raves com ele, com seus seguranças por perto. Você pode não saber, mas a Colômbia tem uma cena de raves muito boa.

Eu raramente via o lado sombrio dele, mas em uma ocasião fui confrontada direitamente por isso. Ele estava dando uma festa em sua casa, e uma mulher que tinha bebido muito e usado drogas começou a gritar coisas aleatórias. Carlos e seus amigos ficaram preocupados que ela pudesse falar sobre atos incriminatórios, então um deles me escoltou para fora da sala para não ver o que ia acontecer com ela.

Nunca mais vi aquela mulher. Carlos supostamente matou muitas pessoas e organizou grandes operações de tráfico de drogas envolvendo mandar cocaína para outros países de avião, então seja lá o que aconteceu com ela, com certeza não foi bonito.

Mas ele era muito gentil comigo, e nunca tentou esconder nossa relação. Ele me apresentou a todos os seus associados, que não tinham problema comigo depois de me conhecerem. O fato de eu ser transgênero se tornou só um detalhe. Mesmo que muita gente do submundo local ainda tenha visões negativas sobre pessoas trans, gosto de pensar que eu ter namorado o Carlos derrubou algumas barreiras e diminuiu o estigma associado com se envolver com uma mulher trans. Claro, algumas pessoas ainda nos olham feio, mas a mudança é um processo gradual.

Quando contei pro Carlos que estava saindo do país, ele surtou e começou a atirar dentro da casa. Foi assustador, mas eu sabia que ele não ia me machucar.

Três anos depois, em 2013, nossa relação chegou ao fim quando me mudei para Nova York para morar com a minha mãe. Ela descobriu que eu estava nas ruas e ficou muito preocupada. Ela me pediu para viajar e ficar com ela, e eu concordei porque queria melhorar meu inglês. Eu também queria uma mudança de cenário; eu nunca tinha ido aos EUA e estava empolgada com passar um tempo lá.

Quando contei pro Carlos que estava saindo do país, ele surtou e começou a atirar dentro da casa. Foi assustador, mas eu sabia que ele não ia me machucar. Acho que as pessoas têm jeitos diferentes de lidar com o fim de um relacionamento, e esse foi o jeito dele de lidar com o nosso.

Gostei de morar com a minha mãe, mas depois de um tempo ela voltou para a Colômbia e tive que me virar sozinha de novo. Durante esse tempo, usei as habilidades que aprendi nas ruas da Colômbia para vender benzodiazepina e anfetaminas para me sustentar. Logo descobri que o mundo das drogas nos EUA era muito menos perigoso que na Colômbia. Era algo relativamente mais relaxado, e acabei fazendo mais de US$ 1 mil por semana.

No começo do ano, usei o dinheiro das drogas para visitar a Colômbia e ver meus amigos e a família, e algumas semanas depois de voltar, notei sinais de que Carlos tinha mandado alguém me seguir.

Notei as mesmas três SUVs passando toda a hora com caras estranhos me encarando quando eu estava em raves. Imaginei que tinha algo a ver com meu ex, então liguei pra ele. Carlos disse que tinha mandado seus seguranças cuidarem de mim, que ele estava com saudades e queria me encontrar. Concordei, e ele me buscou em seu carro.

Carlos começou a chorar no minuto em que fechei a porta do carro, e me implorou para voltar pra ele. Ele disse que estava namorando uma pessoa terrível, queria terminar e voltar comigo. Eu tinha um namorado em Nova York, então disse que era melhor continuarmos amigos. Terminei com aquele namorado um pouco depois disso, o que significou que acabei não voltando para os EUA, porque não tinha nada para o que voltar, mas não voltei com o Carlos também. Dizem que nunca é bom voltar com um ex, e acho que esse é um bom conselho.

Mas ainda tenho muito respeito por ele; ele sempre me tratou bem e me ajudou muito quando eu estava numa situação desesperadora. Apesar de seu trabalho, ele ainda tinha muita bondade e nunca vou esquecê-lo. Agora que tenho 25 anos, penso no tempo que fiquei com ele como uma fase divertida da minha vida, cheia de glamour mas também com uma corrente de perigo. Foi uma experiência e tanto, e fico feliz em ter passado por ela.

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