Quanto a rede social de extrema-direita Gab realmente cresceu

O Gab experimentou um pico de crescimento na primeira metade de 2019, um sinal preocupante do espalhamento de ideologias de ódio e radicalização online.
23 Agosto 2019, 10:00am
pepe gab

Horas antes de um atirador matar 11 pessoas dentro da sinagoga Tree of Life em Pittsburgh em 2018, ele postou um discurso antimuçulmano em sua conta no Gab, uma rede social pouco conhecida na época que se vendia como protetora da liberdade de expressão.

O Gab logo foi obrigado a sair do ar quando provedores de domínio, empresas de hospedagem e algumas companhias de pagamento retiraram o apoio para o site. Muitos viram isso como o começo do fim de um site conhecido como uma “ fossa online” de antissemitismo, discurso de ódio e racismo.

Mas o Gab não morreu. Na verdade, ele prosperou.

O site voltou ao ar em uma semana e, apesar de imediatamente ter sido inundado com comentários antissemitas, continuou online. Em julho, o Gab migrou toda sua infraestrutura para uma plataforma descentralizada, como um jeito de evitar ser tirado do ar, do mesmo jeito que o 8chan fez duas semanas atrás, depois que um texto racista supostamente escrito pelo atirador de El Paso foi postado na plataforma.

Com o 8chan ainda fora do ar e seus proprietários intimados a comparecer diante do Congresso americano, seus antigos usuários estão procurando um novo lar, e o Gab está recebendo essas pessoas de braços abertos. Mas antes do influxo de usuários do 8chan, o Gab já tinha experimentado um pico de crescimento na primeira metade de 2019, um sinal preocupante do espalhamento de ideologias de ódio e radicalização online.

O tráfego do Gab entre janeiro e julho deste ano cresceu quase 200%, enquanto visitantes únicos do site estão acima de 180%, segundo números fornecidos pela SimilarWeb a VICE News. A empresa, que estima tráfego com base numa variedade de conjuntos de dados combinados com algoritmos de aprendizado de máquina, diz que o número de visitantes únicos no mês de julho foi de apenas 1 milhão.

O CEO do Gab Andrew Torba diz que o Gab teve 1,8 milhão de visitantes únicos em 30 dias até 7 de agosto, e que a rede agora tem mais de um milhão de contas.

A disparidade pode ser devido ao influxo de usuários do 8chan no começo de agosto, mas de qualquer maneira, o fato é que agora tem mais gente usando o Gab que as 330 mil pessoas que visitaram o site em janeiro – e Torba acredita que é só o começo.

“O Drudge tem 136 milhões de visitantes por mês. A Fox News tem 381 milhões. O Breitbart tem 64 milhões de visitantes por mês”, disse Torba, que mora em Scranton, Pensilvânia, a VICE News. “Você acha mesmo que não é realista que o Gab capture até 50% desse mercado? Porque está acontecendo.”

Na esteira do atentado de El Paso, o Gab tentou explorar o ataque que deixou 22 mortos para conseguir novos membros, com sua conta no Twitter destacando o que é percebido como um preconceito do Vale do Silício contra liberdade de expressão e visões conservadoras.

A liberdade na internet está sendo esmagada, com aplausos das elites e das ovelhas que inconscientemente são escravizadas por elas.”

Gab.

Bitcoin.

Armas impressas em 3D.

O futuro é descentralizado, de código aberto e cheio de liberdade.

Esse futuro está aqui hoje, mas a maioria não sabe ainda.

Então, jornalista, governos e corporações, melhor aceitar esse fato e rápido.”

Um dos alvos foi o filho do presidente Donald Trump, Eric, que começou a seguir a conta oficial do Gab no Twitter. Torba encorajou os membros de seu site de mandar mensagem em massa para o filho do presidente americano se juntar à rede social.

E enquanto especialistas discutem qual o tamanho que o Gab pode atingir, há o consenso de que ele provavelmente vai continuar crescendo por enquanto.

“Não duvido que o site possa crescer, não só com os extremistas sem plataforma que agora estão se mudando para lá, mas também com libertários e outros preocupados com restrições nas principais redes sociais”, disse Matthew Feldman, diretor do Center of Analysis of the Radical Right.

“O punho de ferro da censura”

Torba criou o Gab em 2016 depois de se desiludir com o Vale do Silício. Ele queria construir um refúgio para pessoas que foram banidas de outros sites e redes sociais por apoiar visões racistas ou antissemitas. Torba, que se identifica como um “cristão republicano conservador”, logo depois foi expulso da incubadora de startup influente de Vale do Silício Y Combinator, por usar linguagem profana e anti-imigrantes contra outros membros.

O Gab imediatamente se tornou um centro para atividade da extrema-direita online, mas Torba dizia que o Gab não era uma rede social de extrema-direita ou alt-right, mas uma “rede social de liberdade de expressão”.

Mas é só olhar o site, que parece uma versão do Twitter com o conteúdo que você esperaria encontrar no 8chan, e seus membros – alguns astros da direita como Ann Coulter, Stefan Molyneux, Milo Yiannopoulos e Alex Jones – para perceber que a maioria do conteúdo é focado em extrema-direita.

Agora Torba admite que o Gab tende para a direita.

“Qualquer comunidade online que é explicitamente pró-liberdade de expressão vai imediatamente tender para a direita”, ele disse a VICE News numa entrevista. “Isso porque no livre mercado de ideias as ideias de direita ganham. Por isso vemos essas empresas de tecnologia de esquerda censurando. Ninguém mais está comprando a conversa fiada progressista e globalista deles, então eles precisam enfiar isso goela abaixo dos usuários e dissidentes precisam ser esmagados pelo punho de ferro da censura.”

Torba diz que o sucesso do Gab se resume ao seu foco em proteger a liberdade de expressão e o influxo de usuários banidos pelos “tiranos do Vale do Silício e seus silos de dados centralizados que são um pesadelo de privacidade”.

Mas especialistas alertam que deixar discurso de ódio passar, mesmo quando não é ilegal, causa problemas sérios.

“Discurso de ódio é perigoso porque pode influenciar ou até incitar outros, levando a riscos de abuso ou ataque”, disse Feldman. “Permitir discurso de ódio é como deixar uma ferida sem tratamento. Na melhor das hipóteses será algo desagradável. Na pior ela pode adoecer outras partes, e ao extremo até matar.”

O Gab depende dos usuários para denunciar conteúdo problemático em vez de empregar sistemas automatizados ou equipes de moderadores. O Gab proibe poucas coisas: ameaças terroristas, ameaças diretas de violência, pornografia infantil, pornografia e doxxing. Sua política significa que comentários racistas e antissemitas estão liberados no site.

Quando perguntei se o Gab tinha uma política para denunciar ativamente postagens de possíveis atiradores em massa, Torba disse que isso era como perguntar “se o Gab tem um sistema pré-crime estilo Minority Report? Que absurdo. Claro que não”.

Quando perguntei se o Gab tinha moderadores para monitorar especificamente conteúdo assim, ele se recusou a responder.

Feldman disse que “liberdade de expressão no contexto do Gab muitas vezes significa 'liberdade para se envolver em discurso e incitação de ódio' com curadoria mínima dos moderadores do site ou, aparentemente, dos donos”.

O modelo de negócio do Gab

Mas o Gab se tornou um especialista em ficar do lado certo da lei, e isso tem permitido a Torba lucrar com a nova popularidade de seu site.

O Gab já introduziu uma opção paga chamada GabPro, que dá aos usuários a chance de subir vídeos maiores, ter a conta verificada e um e-mail grátis do novo serviço de e-mail do Gab – que também será monetizado.

No começo do ano, Torba lançou o Dissenter, uma extensão de navegador que deixa os usuários comentarem em notícias, vídeos no YouTube e até em posts individuais nas redes sociais – mesmo se esses sites não têm seção de comentários ou estão com os comentários desligados.

O Gab também lançou uma campanha de marketing afiliada com serviços de VPN, além de seu próprio provedor de serviço Epik. Também tem o merchandise do Gab, e uma parceria que deve ser anunciada em breve com uma empresa de bitcoin, que “vai empoderar nossos usuários para comprar bitcoin através desse parceiro”.

“É melhor ver o Gab como um negócio, mesmo com essa ideia de liberdade de expressão”, disse Adam Hadley, diretor de projetos da Tech Against Terrorism, um grupo da ONU lutando contra o extremismo online, a VICE News. “Presumo que as pessoas por trás do site acreditam nisso, mas também é algo muito lucrativo pra elas.”

Torba se recusou a comentar quando perguntei se o Gab estava dando dinheiro, e se recusou a dizer se o site tem investidores e quanto dinheiro eles colocaram na empresa.

Torba recebeu bem a decisão da semana passada da Amazon de retirar o apoio para um site de levantamento de fundos deles, dizendo que a cobertura da mídia sobre o incidente trouxe mais atenção para o Gab, além de ofertas de investimento.

Não só o Gab está explodindo em termos de popularidade, mas eles também reformularam radicalmente a arquitetura do site usando um modelo centralizado. que supostamente o torna à prova de balas em termos de censura e ser tirado do ar.

O Mastodon foi desenvolvido como uma rede social mais tolerante, ou “o Twitter sem nazistas”. Essa era uma plataforma que permitia que qualquer um criasse sua própria rede social operando independentemente de outras redes, mas o todo estava interconectado.

Mas quando o Gab chegou em julho, o site enfureceu o universo Mastodon, e logo a rede cheia de ódio Gab foi bloqueada por outras redes, com um fã do Mastodon pedindo a expulsão permanente da rede de extrema-direita.

“O Gab já inspirou atentados em massa e assassinatos”, ele escreveu. “Vocês não entendem o tipo de ameaça que eles representam.”

Mas o Mastodon é uma plataforma de código aberto, o que torna difícil, se não impossível, que uma ação assim seja tomada. O resultado significa que não há como uma pessoa ou uma empresa tirar o Gab do ar.

Mas qual tamanho o site pode realmente alcançar?

“Acho que existe o risco dele se tornar bem grande”, disse Hadley. “Plataformas como o Gab estão se tornando muito mais mainstream. Acho que seria ingênuo dizer que o crescimento vai parar, pelo menos agora.”

Matéria originalmente publicada na VICE News.

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