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Colagem por Hunter French | Imagens via Getty and Shutterstock.
Games

Você está velho demais pra ser bom de videogames?

É mais provável que você não esteja piorando nos videogames, é só que o resto do pessoal está ficando muito melhor.
31 Outubro 2019, 10:00am

Tudo que Stan Horaczek queria era jogar Overwatch com o filho. Deveria ser fácil para Horaczek, que passou os anos da faculdade em festas de LAN de Unreal Tournament, acompanhar o filho de 9 anos num jogo que é basicamente inspirado em todos os videogames de tiro em primeira pessoa dos últimos vinte anos. Mas Horaczek estava passando um aperto.

“Num dado momento, ficou óbvio que ele era muito melhor que eu”, Horaczek me disse por e-mail. “Eu gostava muito de jogar com ele, mas comecei a sentir que estava atrapalhando quando jogávamos juntos.”

Como qualquer jogador experiente, Horaczek achou que a resposta era simples: “Git gud”, como o pessoal costuma se provocar em jogos online competitivos. E logo depois que o filho ia dormir, ele continuava jogando Overwatch por horas. “Especialmente se eu jogava muito mal numa partida com ele.” Quando não estava jogando, Horaczek lia guias sobre sua personagem principal, Moira, tentando fazer o melhor de suas habilidades de cura e apoio para compensar sua habilidade tosca para ofensiva.

Eventualmente, Horaczek conseguir chegar num ponto onde seu filho não precisava carregá-lo nas costas toda vez que eles jogavam, mas agora Overwatch é meio que o único jogo que os dois podem jogar juntos. Tentativas de jogar qualquer outro videogame competitivo de tiro moderno, como Fortnite, acabam com Horaczek tomando uma surra enquanto o filho observa frustrado – o pior medo dos pais gamers.

Vendo a habilidade do filho de pegar qualquer jogo e ser bom nele, e sua incapacidade de fazer o mesmo, Horaczek, que tem 36 anos, chegou a uma conclusão simples: ele estava velho demais pra ser bom em games.

“Meu filho consegue pegar qualquer coisa, jogar e aprender tudo”, ele disse. “Meu cérebro de velho não funciona mais com esse tipo de rapidez.”

Millennials cresceram com alguns dos desenvolvimentos que mais mudaram o mundo: a internet, celulares, a incapacidade do livre mercado de fornecer coisas básicas como saúde que eles possam pagar, e mais importante, videogames. Segundo um relatório do Nielsen divulgado no verão passado, eles agora representam 40% do público de videogames. Millennials jogam mais jogos online que a Gen X, assistem quase tantos streams do Twitch quanto a Gen Z, e gastam mais dinheiro em videogames que qualquer outro contemporâneo.

Enquanto os millennials vão entrando na faixa dos 30 anos, só agora eles estão vendo o tempo bater. Mas diferente das gerações anteriores, experiências pessoais e pesquisas recentes sugerem que eles encaram uma realidade única e difícil: eles não são mais tão bons de videogame quanto eram.

Alguns, como Horaczek, sentem isso intuitivamente enquanto a performance cai com a idade, apesar dos esforços para melhorar. Outros veem manchetes de que o vencedor mais recente da Fortnite World Cup, que ganhou US$ 3 milhões, tem apenas 16 anos, ou que a maioria dos profissionais de esports se aposenta antes dos 25, e acham que seu próprio declínio é devido à idade.

Mas pesquisas atuais sugerem que envelhecer pode ser a palavra errada para o que está fazendo os gamers millennials ficarem para trás de seus colegas mais jovens. Uma palavra melhor pode ser obsolescência.

Você está ficando velho demais pra essa merda

Se esportes profissionais são um jogo para jovens, então esports parecem ser para pessoas ainda mais jovens. Comparado com o MLB, NHL, NBA e NFL, todo grande atleta de esports, em média, é mais jovem que seus colegas de esportes tradicionais. A idade média dos últimos três vencedores do torneio de Counter-Strike: Global Offensive é de 23 anos.

Ainda assim, enquanto as pessoas já esperam mesmo que suas faculdades declinem com a idade, elas também esperam compensar isso com experiência. Num nível profissional, jogadores mais velhos sempre conseguiram manter sua grandeza jogando com mais inteligência, não esforço – pense em Tim Duncan, Ichiro Suzuki e Serena Williams. Mas essa lógica não parece se sustentar quando se trata de gamers millennials. De algum jeito, mesmo com toda sua experiência de crescer jogando videogames, as gerações mais novas parecem superá-los ser esforço.

A resposta simples parece ser que jogadores mais velhos não têm tanto tempo todo dia pra jogar. Lá está você, um adulto responsável com um emprego, só tentando desestressar depois de um longo dia, e BONGLORD420 está estragando sua noite. Enquanto você está lá, trabalhando para se sustentar, BONGLORD420 tem o dia inteiro para melhorar seu jogo.

Competidores numa partida do torneio de esports epicLAN no Centro de Conferência Kettering, 12 de outubro de 2019, em Kettering, Inglaterra. Imagem: Leon Neal/Getty Images

Mas alguns meses atrás, de repente me vi com oito horas extras por dia para jogar videogames. Ótimo, pensei, posso finalmente ser bom de novo. Com mais tempo eu poderia finalmente sacudir a poeira de uma década jogando de maneira intermitente. Jogar só três ou quatro horas por dia, eu achava, melhoraria minha mira, refinaria meus movimentos e me daria familiaridade com os games, até o ponto em que eu pudesse jogar e não ter que ficar constantemente reaprendendo como. Quando eu estivesse com força total de novo, eu poderia focar em aprender conceitos mais complexos dos videogames, e colecionar as melhores práticas e estratégias, que são chamadas coletivamente de “meta” em jogos competitivos. Pense em desenvolvimento de personagem em Destiny, ou controle de mapa em Quake Champions. Em outras palavras, eu finalmente tinha tempo suficiente para voltar a ser um jogador descente, para voltar a ser bom.

Mas depois de um mês e meio gastando as mesmas horas em videogames que gastava quando tinha 14 anos, eu não tinha nada para fazer o verão inteiro a não ser jogar Counter-Strike, não vi nenhuma melhora notável. Eu estava perdendo tiros que sentia que acertaria quando era adolescente, e não sabia por quê. Treino sempre deu resultados antes, mas agora, do nada, isso não parecia mais fazer uma diferença significativa. Fiquei tão perplexo quanto frustrado.

A boa notícia é que enquanto os millennials podem estar ficando muito velhos para serem bons em videogames, eles estão ficando velhos suficiente para estar na posição de realmente estudar e publicar pesquisas sobre a relação entre idade e performance em videogames. A má notícia é que as descobertas não pareceram muito boas pra mim.

Pwning Dados

Em 2014, Joe Thompson, então estudante de Ph.D em psicologia na Saint Francis University, publicou um estudo que examinava dados de mais de 3 mil jogadores de Starcraft II, de idades entre 16 e 44 anos, e descobriu que o tempo de reação ficava mais lento com a idade. Não foi uma descoberta tão inesperada, exceto pelo fato que Thompson descobriu que o declínio entre esses jogadores começava aos 24 anos.

Talvez ainda mais perturbador para jogadores envelhecendo, Thompson “não descobriu provas de que esse declínio possa ser atenuado por experiência”, ele escreveu na conclusão do estudo. Mesmo os melhores jogadores mais velhos exibiram tempo de reação mais lento comparado com seus colegas mais jovens. E apesar de poderem “indiretamente” compensar por esse declínio com táticas melhores, não havia jeito de melhorar o tempo de reação quando ele começava a declinar.

Um ano depois, Shoshanna Tekofsky, pesquisadora de AI que estava trabalhando em seu doutorado na Tilburg University, publicou um artigo sobre a influência da idade no comportamento de jogadores em Battlefield 3. Tirando dados de mais de 10 mil jogadores de Battlefield, e examinando a relação entre idade e várias ações de jogadores – pense em coisas como pontos, capturas objetivas, habilidade do uso de classe – Tekofsky notou uma tendência interessante na proporção de mortes realizadas e mortes sofridas, sem dúvida o padrão de ouro para determinar a performance num jogo de tiro em primeira pessoa. Essa proporção era mais alta para jogadores no final da adolescência, começo da faixa dos 20 anos, depois declinava entre jogadores do meio para o final da faixa dos 20.

E não foi só na proporção de mortes realizadas/mortes sofridas que Tekofsky encontrou esse pico. Em várias outras medidas no jogo, ela notou essas curvas em U invertidas – onde os jogadores adolescentes eram OK, jogadores de 20 e poucos anos eram os melhores, e jogadores mais velhos estavam piorando com a idade – em várias medidas, como destravar pontos e pontos objetivos.

Kyle “Bugha” Giersdorf comemora sua vitória na final solo da Fortnite World Cup no estádio Arthur Ashe em 28 de julho de 2019, Nova York. Imagem: Mike Stobe/Getty Images

“Você tem muitas curvas em U invertidas, e todas se correlacionam com a idade”, disse Tekofsky. “E no geral, o pico estava mais ou menos na faixa dos 20 anos.”

Claro, tempo de reação não é a única coisa que faz um jogador ser bom. Em discussões sobre habilidades de jogadores profissionais, fãs de esports tipicamente resumem ser bom a dois elementos: execução e estratégia. Jogadores mais jovens geralmente dão tiros incríveis e têm outras conquistas de habilidade, enquanto jogadores mais velhos de algum jeito conseguem se colocar no lugar certo na hora certa.

“A hipótese pode ser que essa curva em U, não sabemos com certeza, mas talvez seja devido a diferentes influências trabalhando em direções opostas”, disse Tekofsky. “Em tempo de reação e velocidade cognitiva, eu esperava que essas coisas declinassem com a idade. Ao mesmo tempo, enquanto você envelhece, você fica mais experiente e mais estratégico.”

É geralmente aceito que nossas habilidades motoras declinam com a idade, mas que experiência e conhecimento acumulado só cresçam. Sendo assim, você esperaria que esse “senso de videogames” atingiria um pico muito mais tarde do que quando nosso tempo de reação atinge o pico, certo?

Bom, talvez não, segundo um estudo de 2017 que examinou a relação entre inteligência e performance em League of Legends e Dota 2. Na primeira parte do estudo, pesquisadores trouxeram jogadores locais de League of Legends, testaram seus níveis de inteligência fluída, basicamente sua capacidade de pensar em estratégias na hora, e compararam isso com seus ranqueamentos matchmaking (MMR), uma pontuação no jogo que deriva de quem um jogador ganha ou perde – quanto mais alto é o MMR, melhor o jogador. Sem surpresa, jogadores com os maiores pontos de inteligência fluída também eram os melhores ranqueados no jogo. A segunda parte do estudo comparava dados de MMR de quatro jogos – Destiny 2, League of Legends, Battlefield 3 e Dota 2 – e idade. Athanasios Kokkinakis, o líder do estudo, viu o mesmo pico que Thompson e Tekofsky encontraram. Jogadores com os MMRs mais altos estavam no começo e meio da faixa dos 20 anos. Em outras palavras, parece que fisiologicamente, jogadores mais jovens são simplesmente melhores que seus colegas mais velhos.

Esperando o respawn

Baseado numa leitura superficial da pesquisa, parece que jogadores mais velhos estão condenados a perder para o resto da vida. Mas os três estudos apresentam um fator de confusão em suas descobertas: o efeito de coorte.

Toda geração cresce diferente. E videogames não estão aqui a tempo suficiente para demostrar qualquer coisa definitiva sobre idade e performance. Alguém que começou a jogar com Unreal Tournament na faculdade teve uma experiência drasticamente diferente do adolescente de hoje que está literalmente crescendo jogando Fortnite. Dizer que a diferença entre os dois é idade omite muitos fatores e influências.

O melhor exemplo disso é o efeito Flynn, explicado por Kokkinakis. “Basicamente, no último século, as gerações mais jovens continuam superando as gerações mais velhas em testes de QI”, disse Kokkinakis. “Alguns dizem que é a nutrição. Outros que eles apenas são melhores em fazer testes.” Podemos ver algo similar acontecendo em outras medidas de performance humana: Batemos o recorde de menos de 2 minutos numa maratona. Jogadores da NFL agora correm 40 jardas mais rápido que os receptores rivais. O skate moderno hoje está mais perto de Tony Hawk's Pro Skater do que era nos anos 90.

Há tantas nuances em Counter-Strike que se você está jogando dia sim, dia não, você vai lentamente perdendo a meta.”

Kokkinakis acredita que algo similar pode estar acontecendo com os videogames. Millennials podem ter sido os primeiros a embarcar em partidas online, mas jogadores mais jovens podem estar se beneficiando de crescer numa época quando podem facilmente adotar todo o conhecimento duramente conseguido pelos mais velhos. “Se você perguntasse para alguém jogando [ _Counter-Strike_] 10 anos atrás, a pessoa diria 'Ah, é só atirar na cabeça'”, ele diz. “Agora... tem todas essas abreviações, e aí tem esse jeito de treinar o recuo com as armas.”

Isso é algo que Eric “adreN” Hoag, um veterano de 29 anos de CS:GO que agora é técnico do Team Liquid, ecoa de sua própria experiência de jogar no alto nível por quase uma década. A razão para os melhores jogadores de esports tenderem a ser mais jovens tem dois lados: eles têm tempo e energia para colocar em horas de jogo, e mais importante, eles herdaram uma década inteira de conhecimento institucional, levando a uma explosão de talento jovem.

“Há tantas nuances em Counter-Strike que se você está jogando dia sim, dia não, você vai lentamente perdendo a meta”, disse Haog. “Quando é jovem, você está encontrando novos limites e novas coisas sobre o jogo.”

Pela estimativa de Hoag, é possível que veremos a idade média de um atleta profissional de esports aumentar, com prêmios subindo, e jogos como Dota 2 e CS:GO desfrutando de quase uma década no topo da cena de esports. Mas no momento, anos ganhando pouco e jogos mudando significou que a divisão geracional entre jogadores novos e velhos é especialmente pronunciada.

“Esses caras chegando agora, eles só conhecem CS:GO, então não têm os hábitos ruins de Counter-Strike: Source ou [ Counter-Strike_] _1.6 (uma das primeiras versões do jogo). Eles meio que foram criados no videogame que é jogado atualmente”, disse Hoag. “Há uma certa meta de como explorar o jogo e ser o melhor dentro desses mecanismos, que para alguns dos jogadores mais velhos é muito difícil de se adaptar.”

E tem mais, enquanto a popularidade dos videogames cresce, também aumenta seu conjunto de talentos. “A competição cresceu tanto que os melhores jogadores de 10 anos atrás não chegam nem perto de ser tão bons quando os jogadores surgindo agora”, ele disse.

A mesma coisa provavelmente está acontecendo no nível casual, disse Kokkinakis. Pode ser o caso de que estamos apenas nos tornando melhores em videogames no geral. Simples assim.

Isso apresenta uma crise existencial ainda mais difícil para os gamers envelhecidos. “Quando eu jogava DOTA, no começo, lembro que eu era bom”, disse Kokkinakis. “Pode ser que minhas memórias sejam falsas, que eu não era tão bom assim mas estava jogando contra oponentes ruins.”

Quem cresceu jogando online sabe como é fácil culpar performance ruim a fatores fora do nosso controle. Essa pessoa que está te destruindo no jogo? Ela obviamente está usando algum cheat code. E agora, com os millennials envelhecendo, eles têm outra desculpa conveniente: estou ficando velho demais pra essa merda.

Mas o cenário mais provável é o mais difícil de aceitar: não é você que está piorando nos videogames, é que todo mundo está jogando melhor. Enquanto uma geração mais jovem, maior e mais habilidosa finalmente emerge para tomar a liderança, você não pode simplesmente “git gud”. Na nossa lenta marcha para o esquecimento, precisamos escolher: tomar uma surra ou ir jogar outra coisa.

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