O WhatsApp não está dando a devida importância para a crise de fake news do Brasil

Sem representantes no país, empresa se limita a enviar notificações e menospreza o problema que afeta as eleições nacionais de 2018.

por David Gilbert; Traduzido por Marina Schnoor
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out 26 2018, 7:58pm

Foto: REUTERS/Nacho Doce

Na quarta-feira passada, depois de encarar cada vez mais críticas sobre o papel do WhatsApp na proliferação de fake news nas eleições presidenciais do Brasil, o CEO da empresa Chris Daniels escreveu um artigo de opinião para os brasileiros com a promessa de melhorar.

“Temos a responsabilidade de amplificar o bem e mitigar o mal”, escreveu Daniels para a Folha de São Paulo.

Cinco dias depois, quando funcionários do Twitter, Facebook e Google se encontraram com o TSE em Brasília para discutir o impacto das fake news nas eleições do país, o WhatsApp não compareceu.

Em vez disso, Keyla Maggessy, gerente sênior do WhatsApp que trabalha com aplicação de leis e segurança, fez uma videoconferência de seu escritório no Vale do Silício, nos EUA. A ausência física da empresa foi agravada pelo que os fact-checkers presentes na reunião descreveram como uma falta de conhecimento de Maggessy sobre o assunto.

“Todas as perguntas que fizemos para ela, ela não sabia como responder ou tinha que perguntar para outra pessoa”, disse Christina Tardáguila, diretora do grupo de fact-checking Agência Lupa, que compareceu à reunião.

Tardáguila era uma das duas pessoas presentes na reunião da segunda-feira em Brasília que descreveu Maggessy como despreparada. A outra, Rai Nalon, diretora da Aos Fatos, a mais antiga rede de fact-checking do Brasil, disse que Maggessy afirmou equivocadamente que o WhatsApp estava trabalhando em parceria com seu grupo.

“Você pode ter uma parceria comigo, mas eu não tenho uma parceria com você”, disse Nalon.

Maggessy não respondeu aos pedidos de comentário, mas o WhatsApp nega que ela estava despreparada, dizendo que ela trabalhou com o TSE no Brasil antes e depois do primeiro turno. O WhatsApp também disse que eles foram avisados sobre a reunião apenas 4 horas antes, apesar de se desculparem com Nalon pela gafe da suposta parceria. Um porta-voz acrescentou: “Respeitamos profundamente o papel dos tribunais eleitorais e temos trabalhado muito para explicar nossa abordagem e os passos que estamos tomando para apoiar os usuários no Brasil”.

Mas, para as agências de fact-checking presentes naquele dia, a ausência física do WhatsApp na véspera da eleição presidencial foi simbólica. Apesar de ter 120 milhões de usuários no Brasil, a empresa não tem funcionários oficiais no país. Todos seus empregados estão monitorando fake news no Vale do Silício.

“Isso nos dá um sentido de como somos importantes”, disse Tardáguila.

Tirando o corpo fora

Enquanto os brasileiros vão às urnas no domingo para decidir entre o homem forte da extrema-direita Jair Bolsonaro e o candidato do Partido dos Trabalhadores Fernando Haddad, o aplicativo de mensagens criptografado se viu empurrado para os holofotes. E a performance do WhatsApp no cenário de crise é o melhor exemplo de que a empresa não está levando seu papel no país a sério, segundo fact-checkers e pesquisadores no Brasil.

Na última quinta-feira, a apenas dez dias antes da eleição, um relatório explosivo da Folha de São Paulo afirmava que empresários de Bolsonaro estavam fornecendo doações ilegais de campanha, gastando milhões de dólares para espalhar notícias falsas contra seu rival Haddad no WhatsApp.

O cerne do relatório da Folha é uma operação estilo Cambridge Analytica de um grupo de empresas de marketing que coletavam bases de dados de números de telefone de usuários do WhatsApp e depois usavam para espalhar fake news anti-Haddad.

Uma das notícias falsas sendo espalhadas atualmente no WhatsApp é que Haddad distribuiu nas escolas mamadeiras com bico de pênis numa tentativa de lutar contra a homofobia quando ele era prefeito de São Paulo.

“É isso que o PT e Haddad querem pregar para os nossos filhos”, um homem declara num vídeo, enquanto mostra a mamadeira falsa.

Pesquisadores dizem que esses são apenas alguns dos últimos exemplos de como o WhatsApp está sendo usado por propagandistas para espalhar fake news e discurso de ódio durante a eleição. Eles argumentam que a empresa não está levando a situação a sério o suficiente e não está disposta a implementar mudanças. Mas o WhatsApp diz que muitas das alegações contra a empresa são sem provas e que, se houvesse uma operação assim, o sistema deles teria detectado.

Dada a natureza criptografada da rede, investigar como conteúdo abusivo é compartilhado na plataforma é virtualmente impossível. Enquanto a desinformação no Facebook é na maior parte aberta, no WhatsApp isso se esconde entre grupos privados, espalhando fake news entre famílias e amigos.

Senhorios ausentes

Presidential candidate Jair Bolsonaro reacts during a news conference at a campaign office in Rio de Janeiro, Brazil October 25, 2018. REUTERS/Ricardo Moraes
O candidato a presidente Jair Bolsonaro durante uma entrevista coletiva em seu escritório de campanha no Rio de Janeiro, 25 de outubro de 2018. (REUTERS/Ricardo Moraes)

Há anos, especialistas vêm alertando que a popularidade do WhatsApp no Brasil o torna um alvo ideal para ser sequestrado para espalhar fake news durante uma eleição. Uma pesquisa recente revelou que 44% das pessoas recebem suas notícias políticas do serviço e seu papel central na vida dos brasileiros o torna um meio mais confiável do que a mídia tradicional para muita gente.

Mais uma razão para a empresa ter uma presença física no país, argumentam as agências de fact-checking. O Facebook, dono do WhatsApp, por exemplo, tem vários escritórios no país.

O fato do WhatsApp não ter funcionários no Brasil não é uma situação incomum, disse um porta-voz da empresa. Mesmo sendo um serviço global, quase toda a equipe do WhatsApp trabalha no quartel-general em Menlo Park compartilhado com o Facebook. Depois do escândalo de fake news na Índia, onde o WhatsApp foi culpado por linchamentos, a empresa anunciou que vai colocar uma equipe no subcontinente. Mas essa é uma exceção.

O WhatsApp diz que tem pessoas nos departamentos de engenharia, legal e de policiamento trabalhando na questão do Brasil desde janeiro, mas não deu um número exato de funcionários envolvidos.

Caixa preta

Facebook e Twitter aumentaram seus esforços contra as fake news em suas plataformas, mas isso teve consequências inesperadas, dizem especialistas.

Tradáguila disse que as pessoas já começaram a ter “muito cuidado com o que dizem no Facebook, no Twitter e por meio de links e matérias no Google”. Mas a ofensiva contra as fake news no Facebook e Twitter acelerou a migração de desinformação para o WhatsApp, disse Tardáguila.

“Claro, isso mandou as campanhas sujas direto para o WhatsApp”, ela disse.

No WhatsApp, a crise de notícias falsas no Brasil ficou ainda mais complicada. “Se temos um aplicativo que facilita conversas com seus parentes e comunidades, é esperado que o que circula no WhatsApp seja considerado mais relevante – mesmo quando é fake news”, disse Nalon.

Leia: Bolsonaro ganhou apoio da rede social Gab, o paraíso de neonazistas dos EUA

O problema está basicamente entrelaçado ao design. Simplificando, o WhatsApp não é uma rede social; é um aplicativo de mensagem, e sua principal atração é a comunicação criptografada que ele oferece a seus usuários. Essa característica é ótima para proteger a privacidade dos usuários, mas péssima quando se trata de policiar fake news, já que nem a própria empresa sabe dizer com certeza que tipo de conteúdo está sendo compartilhado na sua rede.

E dependendo da pesquisa, os resultados variam muito.

Uma análise publicada semana passada por pesquisadores envolvidos em rastrear fake news no WhatsApp concluiu que 56% dos memes mais populares compartilhados em grupos públicos eram enganosos. Mas uma pesquisa conduzida esta semana pelo Ibope afirma que 75% dos participantes não receberam nenhum conteúdo negativo no WhatsApp de nenhum candidato a presidente. E dos 25% que receberam, só um quarto disse que as mensagens impactariam como eles iam votar.

Depois das alegações publicadas na Folha, o WhatsApp enviou cartas para as empresas de marketing supostamente envolvidas no disparo em massa de mensagens – a prática viola seus termos de serviço. A empresa também diz que bloqueou centenas de milhares de contas abusivas, incluindo a do filho de Bolsonaro, Flávio, antes da eleição.

Agências de fact-checking como a de Tardáguila dizem que vão continuar pressionando as empresas de tecnologia para fazer mais, mas, no final das contas, eles reconhecem que esses problemas vão muito além do Vale do Silício.

“Fake news são como água: você não consegue segurar; elas escorrem pelos seus dedos. É como mentir. As pessoas não vão parar de mentir. Isso é algo que tenho não só que entender mas que aceitar. Mentir é algo que fazemos”, disse Tardáguila.

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