Foto: Flickr

Este pesquisador explica como funciona o exército de Bolsonaro no WhatsApp

O professor Viktor Chagas, da Universidade Federal Fluminense, se infiltrou por meses em 150 grupos bolsonaristas.

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26 Outubro 2018, 10:00am

Foto: Flickr

Durante seis meses, o pesquisador Viktor Chagas, da Universidade Federal Fluminense (UFF), esteve no meio da mais pesada artilharia de memes das eleições 2018. Ao lado de sua equipe, ele se embrenhou em 150 grupos de WhatsApp a favor de Bolsonaro. No meio da metralhadora de montagens coloridas, colheu resultados surpreendentes: notou diferentes tipos de atuação dos membros, analisou uma hierarquia quase militar e examinou como as mensagens se dissipam por vários canais profissionais antes de chegar aos grupos da tradicional família brasileira.

“Certamente Bolsonaro preparou essa estratégia com antecedência”, disse ao Motherboard. Segundo ele, a plataforma criptografada e opaca do WhatsApp foi o diferencial da campanha do presidenciável. Não fosse esse ambiente de alta proliferação de mensagem e baixa chance de verificação de informação, dificilmente o presidenciável do PSL teria conquistado eleitores num curto intervalo de tempo.

Para entender como funciona o exército de cabos eleitorais na grande máquina de campanha do presidenciável, conversamos com Chagas, que, além de coordenador do CoLAB e professor professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFF, é doutor em História, Política e Bens Culturais pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (Cpdoc-FGV). O papo, editado para fins de clareza, se desenrola abaixo.

MOTHERBOARD: Como começou a pesquisa?

VIKTOR CHAGAS: Nosso objetivo foi se infiltrar em alguns grupos de WhatsApp para entender como funciona a organização desse sistema. A pesquisa, nesse sentido, se distancia da tentativa de encontrar irregularidades, que é o que estamos vendo nas publicações jornalísticas desta semana. É um mapeamento que já dura alguns meses e temos bastante dados levantados.

Você diz no estudo que existem grupos profissionais de campanha. Na teoria, eles são responsáveis para gerar o conteúdo que será compartilhado nos chats privados e familiares. Como esses grupos bolsonaristas oficiais são organizados?

O que temos identificado é que existem grupos com funções diferentes. Você tem, em primeiro lugar, os grupos que são propriamente de divisão de funções da campanha com divulgação intensa de links, materiais e fake news. Eles também usam materiais que apontam para fora do próprio WhatsApp como links de matérias e vídeos do YouTube.

O outro tipo de grupo é o de mobilização. Eles funcionam dentro de uma lógica de distribuir uma informação para mobilizar os usuários em alguma atividade. Por exemplo, a divulgação de uma hashtag específica ou uma atividade de boicote a algum artista que se posicionou contra Bolsonaro. Também fazem ações online que são motivadas para ação offline, como a organização de carreatas, de coreografias e vendas de camisetas.

Também existem os grupos de discussão em que as pessoas estão ali trocando argumentos, ainda que a gente não tenha conseguido identificar os debates em profundidade, e sim uma tentativa de troca de argumentação.

Então temos diferentes modelos com diferentes funções, mas também uma organização que funciona por um esquema piramidal, ou seja, é um modelo de campanha que combina uma formação de grupos em rede juntamente com uma formação que se divide em perfis mais nacionais, regionais e locais.

Conseguimos identificar que as mensagens circulam como uma cadeia. Até chegar propriamente nos grupos privados, eles passam por essas etapas, não necessariamente de forma linear, mas com uma segmentação territorial.

Dá pra afirmar que Bolsonaro se preparou com antecedência usando essa tática?

Certamente. Até 2017, as ideias dele eram muito fundamentadas na lógica de campanha de Donald Trump. Eram baseadas nas publicações segmentadas nas redes sociais, no cruzamento de perfis e na microsegmentação focada em grupos.

No WhatsApp, a campanha se desenvolve de maneira bastante diferente. Então, nesse sentido, é um modelo razoavelmente inovador. Ele traz uma série de complicações pra gente, como a dificuldade de identificar o ambiente de circulação das notícias por esses grupos e quem está dentro deles. E o jeito para descobrir algo é fazer esse nosso trabalho de formiguinha mesmo.

Agora vale dizer que os grupos de Bolsonaro combinam muitas dimensões diferentes. Você tem uma combinação entre um modelo de rede e o piramidal. Há também uma combinação de ações provocadas a partir do ambiente online para serem efetivadas nas ruas e na internet. E há, por fim, a combinação de um núcleo duro de organizações mais profissionais junto com um núcleo de campanha orgânica por meio de voluntários, engajamento etc.

Recentemente, um antropólogo da Universidade Federal de São Carlos falou a Folha de S. Paulo que a comunicação de Bolsonaro usava uma tática militar. Tudo é muito organizado. Você concorda com isso?

Em grande medida, concordo. No fundo essa organização piramidal acaba refletindo em um certo nível de decisão hierárquica. Então, nesse sentido, é de fato uma organização militar. Você tem uma cadeia que compreende grupos de espectro nacional e abertos até chegar na ponta mais capilarizada que são esses micro grupos que facilitam esse processo de penetração da campanha dele.

Como é a linguagem usada dentro dos grupos? Como eles conseguem engajar tanto?

É muito difícil diferenciar porque você tem padrões que passam por várias dessas plataformas. Mas, sem dúvida, tem se caracterizado como uma rede de consumo muito ágil. Um elemento que acho muito importante nisso tudo é que boa parte desses grupos, até mesmo aqueles que caracterizei como grupos de discussão, estão pouco interessados na prática de argumentação.

Há um despejo de informação muito grande. Então você vê, por exemplo, uma pequena parcela de usuários sendo responsável pela grande maioria dos conteúdos disseminados nesses grupos. Esses usuários não têm resposta na base do diálogo. Só despejam informação.

O WhatsApp se caracteriza muito por isso. O que é diferente do próprio Facebook ou Twitter onde há uma base dialógica pouco maior. Então você tem essa característica do despejo da informação, tem a característica que aponta para plataformas externas e tem a característica de usar conteúdos que são em alguma medida superficiais e imediatos, como memes, imagens e pequenos vídeos e áudios encaminhados.

O que diferencia a campanha do Bolsonaro das demais?

Você tem vários elementos que diferenciam o modelo de campanha entre o Bolsonaro e seus concorrentes. Um deles é: na medida em que você não consegue identificar com clareza os fluxos de informação, de onde estão vindo as mensagens, quem está compartilhando e quais mensagens são vistas por quais pessoas, você favorece um ambiente em que é impossível mapear esses rastros. Essa questão dificulta o próprio processo de uma contra-campanha.

O WhatsApp então é a ferramenta ideal para a estratégia de Bolsonaro...

Sim. Na medida em que ele enclausura os grupos em um ambiente em que você não consegue obter transparência, fica muito mais difícil entender as mensagens trocadas ou regular efetivamente. É um problema que não é só de campanha, mas de regulamentação eleitoral. Você não sabe que tipo de controle está sendo captado de maneira profissional ou orgânica. A Justiça Eleitoral precisa olhar com mais atenção pra esse tipo de modelo de campanha porque a legislação eleitoral que temos hoje não dá conta.

E o que podemos esperar para as futuras eleições e campanhas?

Depende muito dos desdobramentos que vamos ter nos próximos meses. Encerrado esse período eleitoral, vamos precisar acompanhar com bastante atenção quais vão ser as diretrizes tanto do ponto de vista das ações que estão tramitando neste momento na Justiça Eleitoral quanto do ponto de vista da responsividade dessas plataformas. O WhatsApp e o Facebook tentam regular um pouco essas ações. A gente precisa entender como isso vai se dar daqui pra frente. Mas ainda é muito cedo para começarmos a prever qualquer tentativa de prognóstico de como vai ser o desenho em 2020 e em 2022.

Sem dúvida tivemos um processo bem conturbado em relação à transparência da campanha eleitoral que se desenvolveu no ambiente online.

Assista ao nosso documentário O Mito de Bolsonaro

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