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Este simulador põe seu rosto em bebês virtuais pra te incentivar a procriar

É meio bizarro, mas talvez ajude a resolver o problema da baixa taxa de natalidade dos japoneses.

por Marissa Clifford
11 Agosto 2017, 2:19pm

Crédito: Divulgação

Quando entrei no estande Real Baby Real Family, uma das atrações da conferência SIGGRAPH sobre computação gráfica, nos EUA, recebi uma máscara cirúrgica com um código QR que me direcionava para um questionário. Era hora de escolher as características do meu bebê virtual.

Em questão de segundos, eu estava respondendo perguntas muito pessoais — e problemáticas — em uma tela virada para outros participantes da conferência. Coisas como: "você quer ter filhos?". Ou: "qual desses bebês mais te agrada?"— e por isso eles queriam dizer "quer que seu bebê seja de qual etnia: branco, negro ou asiático?"

Embora estranho, o projeto Real Baby Real Family é uma tentativa de solucionar um problema muito sério. A taxa de natalidade do Japão está despencando. Por conseguinte, o abismo entre idosos e jovens só aumenta. A esperança é que projetos de realidade virtual como o Real Baby possam reverter o declínio da taxa de natalidade japonesa.

"A ideia é que ver seu próprio rosto nessa criança deixa a experiência muito mais realista", afirma Jeremy Kenisky, diretor de Tecnologias Emergentes da SIGGRAPH 2017.

Uma vez escolhido meu "tipo" de bebê favorito, descobri que um erro no programa me obrigaria a ser uma mãe solteira. Fiquei decepcionada por não poder ter um bebê com minha colega de trabalho Sarah ou com o David de Michelangelo, mas não podemos esperar muito de um demo. Apesar de ter admitido que eu não queria ter filhos, acabei escolhendo Dolores, um bebê descrito como "sociável".

Em seguida, fui fotografada e colocada na frente de um berço de madeira, onde recebi uma boneca gordinha. Coloquei meus óculos de realidade virtual. Ao abrir os olhos, fui transportada para uma realidade virtual à la Jodorowsky, cheia de montanhas cobertas de neve. No segundo seguinte, eu estava sozinha com Dolores na minha casa virtual. Ela estava com fome.

Captura do processo de criar um filho virtual. Crédito: Divulgação

Um voz potente me mandou pegá-la no colo. Tateei o berço real à minha frente como se estivesse apalpando o nada e peguei Dolores nos braços. Estava claro que eu não sabia segurar um bebê, mas a voz não se importou. Pegue a mamadeira e alimente seu bebê, ordenou ela.

Peguei a mamadeira à minha esquerda (um controle de realidade virtual na vida real) e levei ela até a boca da Dolores. A mamadeira tremeu e o bebê deu algumas risadinhas. Quando vi, também estava rindo. Após alimentar, balançar e abraçar meu bebê, a voz me orientou a colocar o bebê de volta no berço. Minha maternidade virtual havia durado por volta de cinco minutos.

Depois de colocar Dolores para dormir, respondi novamente algumas da perguntas iniciais ("Você quer ter filhos?") e outras novas ("Você gostou do seu bebê?").

Não me senti confortável em dizer "não", então encarei o "SIM" que flutuava na minha sala virtual até que minha resposta fosse registrada.

Quando tirei os óculos, o professor Akihiko Shirai do Instituto de Tecnologia de Kanagawa, no Japão, que havia me ajudado durante a primeira etapa do simulador, parecia contente. "Viu?", disse ele, que havia assistido a toda a experiência em um monitor. "Essa simulação pode mudar sua opinião bem rapidamente."

"Muitos cursos de medicina usam bonecos anatômicos para simular cirurgias, mas a novidade é que agora eles podem usar a realidade aumentada para dar rostos a esses bonecos, o que dá uma sensação de que eles são pessoas de verdade", disse Kenisky.

Shirai sonha com o dia em que programa Real Baby será usado em escolas, hospitais e clínicas, tanto por casais que esperam um filho quanto por crianças e adolescentes. De certa forma, ele e sua equipe reinventaram a antiga técnica de usar ovos para ensinar crianças a cuidar de bebês, na esperança de não apenas ensinar o que é ter responsabilidade, mas também de desmistificar e humanizar a paternidade e a maternidade.

Voltando à minha experiência pessoal, não sei se a simulação me convenceu a ter filhos, mas eu estaria mentindo se dissesse que Dolores não me cativou.