reportagem

O país africano numa missão para legalizar o cânhamo

Um parlamentar do Malawi luta para regular a comercialização da fibra da maconha, que poderia mudar a indústria do país.

por Alice McCool; Traduzido por Marina Schnoor
28 Agosto 2017, 3:50pm

Esta matéria foi originalmente publicada na da edição impressa de março da VICE.

Em 18 de maio de 2015, Boniface Kadzamira, um membro independente do parlamento, ficou diante da assembleia nacional do Malawi para defender a legalização do cânhamo industrial (utilizado na produção de roupas e produtos). "A câmara inteira riu de mim. Fui literalmente vaiado. Eles começaram a dizer que eu tinha ficado louco", me disse Kadzamira em outubro de 2016, olhando para os assentos da câmara, então vazios. "Minha família e amigos também não ficaram contentes. Eles perguntavam 'Por que você, um homem temente a Deus, está falando sobre chamba?", ele riu, usando o termo local para maconha. "Mesmo minha esposa disse 'Estou tão envergonhada. Os vizinhos estão comentando, dizendo que você introduziu a questão na assembleia nacional!'"

Mas Kadzamira é um homem calmo e incrivelmente paciente, e não desiste fácil. Quase dois anos depois, ele está longe de ser uma vítima do ridículo. Depois dos julgamentos sobre o cânhamo industrial no país, o Malawi deve aprovar uma emenda legalizando o cânhamo, o primo de baixo teor de THC (não psicoativo) da maconha ainda este ano. Além da campanha incansável de Kadzamira e seus aliados, o principal catalisador da legalização proposta é a esperança de que o cânhamo consiga reavivar a economia do Malawi, que está numa situação difícil depois de uma seca grave no sul da África e do declínio no consumo global de tabaco, o produto principal do país atualmente.

Cânhamo é uma alternativa atraente porque milhares de produtos podem ser feitos com ele. Legalizar a planta no Malawi vai permitir que o país não só cultive plantações, mas também estabeleça uma variedade de indústrias baseadas nela — pelo menos em teoria. Também parece uma escolha natural para o lar do "Malawi Gold", uma cepa de cannabis considerada uma das melhores do mundo. Apesar de continuar ilegal no país, maconha é, supostamente, um dos produtos mais exportados do país; com quase dez toneladas apreendidas anualmente.

Os malawianos usam cannabis amplamente, então aqueles lutando pela legalização do cânhamo têm o desafio de marcar a diferença entre chamba e cânhamo industrial. "Aqui, [chamba] é associada com pessoas loucas", explicou Kadzamira, que me contou sobre a resistência de ONGs e grupos religiosos locais à sua campanha.

Quando estava em Lilongwe, a capital do Malawi, me encontrei com Kalimbamtima Chiotcha, da ONG local Drug Fight Malawi. Ela acredita fervorosamente que mais jovens começaram a usar maconha desde que a questão foi introduzida no parlamento, "porque as pessoas das áreas rurais não sabem a diferença entre as plantas. Então dizem 'O governo vai legalizar a chamba'".

A empreendedora britânica Tanya Clarke comanda a Invegrow, a primeira empresa a fazer campanha pela introdução do cânhamo em Malawi, em busca da primeira licença para cultivar a planta em outubro de 2015. "Qualquer nova planta ou semente que vem para o Malawi precisa passar por esse processo, não apenas o cânhamo", explicou Clarke. Isso incluiu testar variedades diferentes para saber o conteúdo de THC, observar reações às estações e conhecer as exigências de água da planta. "A Invegrow está financiando tudo", disse ela, rindo. "Mas o governo nos deu terras e um pesquisador, e temos a benção dele, o que conta muito."

Mas chegar até esse estágio não foi fácil. "[A palavra] 'cânhamo' em Malawi se refere tradicionalmente ao 'cânhamo indiano", a maconha, não ao cânhamo industrial", disse Clarke. "Então a terminologia tem sido uma questão, e estamos tentando reclamar a palavra 'cânhamo' para explicar a variedade industrial."

Mas não é apenas em Malawi que a indústria do cânhamo enfrenta esse desafio. Cânhamo foi a maior produção agrícola do mundo até o começo do século 19, favorecida por sua adaptação a diferentes climas, baixo impacto no solo e uso de água, e aplicações diversas. Ainda assim, em meio à onda de legalização de cannabis medicinal e recreativa pelos EUA, o cânhamo continua sendo severamente monitorado pelas leis federais norte-americanas — um retrocesso da campanha contra a cannabis "reefer madness" do final dos anos 30. Isso está impedindo que alguns governos africanos legalizem o cânhamo, já que eles "dependem muito de coisas como empréstimos e garantias do Banco Mundial, e financiamento da USAID", disse Tony Budden, ativista do cânhamo e cofundador da empresa sul-africana Hemporium. "Se sentem que isso pode ser comprometido, eles não vão aceitar o risco." Budden acrescentou que seu país tinha recentemente dado sinal verde para a legalização da cannabis medicinal, enquanto, bizarramente, a luta pela legalização do cultivo do primo de baixo THC da planta continua.

"Em Malawi, o debate acabou abordando as duas questões juntas", disse Kadzamira. "Estamos defendendo o cânhamo industrial, mas alguns dizem que não há diferença para a maconha, então não podemos permitir isso, enquanto outros dizem para permitir não só o cânhamo industrial, mas também a maconha, porque isso poderia mudar o status econômico do país." Como muitos defensores do cânhamo, Kadzamira está aberto a legalizar as duas cepas da planta. Essa ideia também não é nova em Malawi. Ela vem sendo discutida pela política do país desde os anos 70, quando, segundo Kadzamira, o líder do Governo de Independência, Hastings Kamuzu Banda, tentou estabelecer tabaco ou cannabis como principal produção nacional. Mas devido a sensibilidades locais, Kadzamira teme ampliar o debate para incluir a maconha agora. "No futuro teremos que pensar nisso", disse ele. "Mas por enquanto, é um assunto sério demais. É uma questão emotiva, e estamos tentando ao máximo não misturar isso com o cânhamo industrial."

Boniface Kadzamira, membro do parlamento mostrado aqui com seus constituintes, lidera a campanha pela legalização do cânhamo em Malawi. Ele vê o recurso como uma maneira de reavivar a economia do país.

Em seu distrito eleitoral, uma área rural chamada Ntchisi do Norte, Kadzamira é quase uma celebridade. Andamos pelo vilarejo cercador por uma pequena multidão, e ele me apresentou ao chefe do conselho da área, Keladon Chazama. Perguntei como ele via a cannabis, e ele disse que sua comunidade continua usando a planta para propósitos medicinais, além do recreativo. "As pessoas aqui não acham que isso é ilegal, porque usamos a planta para curar bebês que pegam sarampo", disse Chazama. Ecoando esse sentimento, o Dr. Gama Bandawe, um biólogo da Universidade de Ciência e Tecnologia do Malawi, mais tarde me explicou: "Cannabis é um remédio usado tradicionalmente para epilepsia até hoje." Ele acrescentou que, historicamente, idosos também fumam a planta. "Isso alivia dor, aumenta o apetite e ajuda os idosos, que são os guardiões da cultura, passando seu conhecimento para os jovens na tradição oral através de histórias e provérbios."

Mas apesar do uso tradicional tão difundido, muitos outros oficiais e líderes religiosos se opõem à legalização de qualquer tipo de cannabis. O Dr. Bandawe descreve essas atitudes como uma "ressaca colonial" depois de décadas de proibição impostas por colonialistas europeus, missionários cristão e a guerra às drogas global liderada pelos EUA.

Os rastafáris de Malawi, porém, não compram o sentimento antidroga. Num show de reggae em Lilongwe, o sacerdote rastafári Ras Bongo Maseko me disse por que quer que o país legalize o cânhamo industrial e, eventualmente, a própria chamba. "Queremos ensinar as pessoas aqui que ganja não é só sobre fumar. Há um valor medicinal na ganja, e das suas sementes, extraímos óleo. Podemos fazer leite de ganja, que tem alto teor de vitaminas e cálcio. Para os rastas, é nosso alimento." Maseko disse que como rastafári, se a maconha fosse legalizada, isso não faria muita diferença para ele — sua comunidade vai continuar a usar a planta como faz agora. Mas ele gostaria muito de educar seus concidadãos malawianos sobre a erva e seus usos. "Temos que fazer nosso papel de rastas para o desenvolvimento desta nação", disse ele.

Viajei com Maseko para as remotas montanhas de um distrito de Malawi conhecido pelo cultivo de cannabis. Ele falou com alguns fazendeiros em uma plantação ilegal. "Nasci numa família da chamba, assim como minha mãe e meu pai antes de mim", explicou um deles. "Cultivo outras plantações como mandioca e milho, mas meu negócio prospera da chamba que cultivo, e isso alimenta minha família. É nossa vida."

Apesar de a cannabis supostamente ser uma das maiores exportações de Malawi, os fazendeiros não são ricos. O que levanta a questão: Quem está levando a maior parcela dos lucros? Os fazendeiros não sabem (ou não estavam dispostos a divulgar), mas muitos em Malawi suspeitam que, apesar das notícias frequentes de batidas policiais em plantações, apenas o envolvimento de membros de alto escalão do governo explicaria como tanta maconha pode ser cultivada, e exportada, desse pequeno país.

Maseko pegou uma planta de cannabis, arrancada da terra e secando no sol. "Essa é uma das árvores desperdiçadas de que eu estava falando. É uma árvore forte, ela produz fibras", disse ele, desmanchando a planta morta, que os fazendeiros descartam porque só a cultivam pelos brotos, para fumar. "Se pudermos empoderar e educar esses fazendeiros sobre como produzir fibra com essas plantas, eles podem vender isso para que o governo use na nova indústria."

Quer o governo acabe legalizando a cannabis ou só o cânhamo industrial não-psicoativo, seus defensores exigem que esse recurso natural beneficie principalmente os malawianos. "Connoisseurs de maconha do mundo todo vêm para Malawi e levam nossas variedades locais, e agora o Malawi Gold pode ser encontrado em cafés de Amsterdã e Canadá, e até é uma variedade popular de sativa na Jamaica", disse o Dr. Bandawe. "Mas nenhum malawiano está se beneficiando desse recuso multimilionário. Criamos uma condição que permite exploração total."

Ele acredita que um jeito de combater isso, particularmente enquanto o cânhamo industrial se desenvolve, é "entender a genética e biologia das variedades locais, assim podemos gerar novas propriedades intelectuais". Isso também é algo que a Ivengrow busca a longo prazo. Com as leis atuais do Malawi, as sementes usadas nos testes do governo, ironicamente, são importadas. "Estamos testando todas as sementes a que temos acesso, mas muitas não se mostraram ideais para a latitude subtropical de Malawi", disse a diretora da Invegrow Tanya Clarke. "Precisamos de flexibilidade para gerar nossas próprias variedades industriais que se adaptem à latitude de Malawi."

Ras Bongo Maseko, direita, é um sacerdote rastafári em Malawi. Chamba, como a maconha é chamada lá, e cânhamo são integrais da cultura rasta.

Mas não é só uma questão de Malawi ter a posse desse "Ouro"; é uma questão de quem no país vai ganhar com isso. Maseko acredita que os rastafáris, uma minoria muitas vezes estigmatizada no país, devem ser centrais na indústria de cânhamo devido aos seus conhecimentos da planta e seus usos. "Isso é importante porque conhecemos a fonte. Sabemos quão poderoso o cânhamo pode ser — então a regulamentação é necessária, assim como as prescrições. É o mesmo com qualquer coisa, até água; isso vai te afetar se você consumir muito. Então estamos tentando dizer para as pessoas que não queremos o abuso da substância. Queremos que ela seja usada da maneira certa."

Mas os rastafáris frequentemente são empurrados para as margens da sociedade malawiana. Crianças de famílias rastas não podem frequentar as escolas do governo se tiverem dreads, e a polícia regularmente assedia rastafáris adultos. E Kadzamira disse que quando foi fotografado com líderes rastafáris no parlamento, a reação de outros políticos e da mídia quase minou toda a campanha pelo cânhamo industrial. Então o risco é que os rastafáris malawianos sejam excluídos das indústrias de cânhamo e cannabis, apesar de seu conhecimento e experiência. Nos EUA, minorias também estão sendo amplamente excluídas da indústria de cannabis legal no país.

De maneira mais ampla, há uma preocupação entre os malawianos de que essas indústrias vão ter um destino similar ao setor de tabaco do país. Conheci Seven O More, um jovem produtor musical, num estúdio de gravação improvisado em Lilongwe, onde ele estava dando os toques finais numa música sobre os benefícios do cânhamo industrial. Mas até ele estava cético sobre o que a legalização poderia trazer para os malawianos médios. "Eles diziam que o tabaco ia melhorar a economia, mas isso só beneficiou alguns poucos e empresas estrangeiras", me explicou ele. "As massas rurais e aqueles na pobreza não foram beneficiados."

"Eu adoraria não repetir o que aconteceu com o tabaco", disse Kadzamira, que tem bastante consciência desse risco, já tendo trabalhado na indústria antes de entrar na política. A liberalização econômica nos anos 90 abriu o mercado de tabaco do Malawi para companhias internacionais, que desde então exploram o país e seus fazendeiros por custos baixos de produção e tarifas do tabaco não manufaturado. Mas desta vez, Kadzamira espera que o Malawi tenha mais controle da indústria, com investimentos "acontecendo dentro do país, para que não exportemos o cânhamo cru, para que os produtos sejam feitos aqui em Malawi". Quando a emenda da lei fora aprovada, o governo pretende publicar diretrizes para aqueles planejando cultivar a planta e processos de licença para investidores. Clarke, da Invegrow, está ansiosa para fazer produtos de cânhamo que beneficiem os malawianos, com projetos de construção sustentável usando "concreto de cânhamo" e alimentos de cânhamo (com altos níveis de ômega 3 e 6), que ela espera que grandes agências como o Programa Alimentar Mundial e a UNICEF considerem adotar.

Está claro que sementes indígenas e conhecimento local devem estar no centro dessas indústrias se o Malawi quer reconquistar a posse de seu "Ouro Verde". "Malawi é um país que Deus abençoou com muitos recursos naturais. Temos um solo bom, um clima bom e pessoas boas. Só não estamos fazendo bom uso disso", disse Kadzamira. "Estou otimista que teremos um futuro para o Malawi, em Malawi."

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