Fotos de duas décadas de ativismo em Nova York

'Whose Streets? Our Streets!' reúne imagens de protesto entre os anos 1980 e 2000 nas ruas da Big Apple.

por Emily Manning; Traduzido por Marina Schnoor
01 Agosto 2017, 2:00pm

Esta matéria foi originalmente publicada na i-D .

Na manhã de 10 de dezembro de 1989, milhares de ativistas da ACT-UP AIDS cercaram a Catedral de São Patrício em Nova York. Muitos ficaram fora da igreja repetindo gritos de guerra, enquanto outros deitaram na rua para impedir o trânsito ao longo da 5º Avenida. Outros ainda invadiram a missa das 10h15, uma ação direta contra o então Cardial John O'Connor, que pregava contra a homossexualidade e era contra o uso de camisinha durante a epidemia de AIDS. "Alguns manifestantes se acorrentaram aos bancos dentro da catedral, enquanto outros gritavam ou deitavam nos corredores", relatou o New York Times. "Muitos dos manifestantes foram carregados para fora em macas depois de se recusarem a levantar." Foi exatamente isso que o fotojornalista Brian Palmer capturou enquanto documentava o protesto de São Patrício: um jovem ativista do ACT-UP sendo carregado numa maca por policiais do NYPD. Essa imagem — com outras mostrando protestos pelo direito ao aborto e manifestações contra a violência policial — foram expostas em 'Whose Streets? Our Streets!' New York City: 1980-2000 do Bronx Documentary Center.

Uma mulher passa pela fileira da polícia durante as rebeliões de Crown Heights no Brooklyn. A revolta racial de três dias aconteceu de 19 a 21 de agosto e jogou afro-americanos e caribenhos-americanos contra os moradores judeus. Brooklyn, 1991. Foto © Mark Peterson.

Coletando trabalhos de 38 fotojornalistas independentes, Whose Streets? é um registro único da Cidade de Nova York. As imagens impactantes, que nunca tinham sido exibidas juntas antes, capturam momentos da história moderna quando os novaiorquinos se uniram nas ruas que compartilhavam — seja no Tompkins Square Park ou em Bensonhurst, Brooklyn.

As causas das revoltas, comícios e atos de resistência mostrados em Whose Streets? variam. Talvez porque a exposição teve curadoria de novaiorquinos com perspectivas e especialidades variadas: Meg Handler, ex-editora fotográfica do The Village Voice; Tamar Carroll, historiador e autor de Mobilizing New York: AIDS, Antipoverty and Feminist Activism; e Mike Kamber, fundador do Bronx Documentary Center.

Protesto pelo direito do aborto, Nova York 1992. Foto © Sandra Lee Phipps

Algumas imagens mostram esforços de protesto combinados. A grande rede de ativistas em tempo integral da ACT-UP criou atos altamente visíveis e confrontadores — como a manifestação na Catedral de São Patrício, ou outros envolvendo lápides pintadas com a mensagem "Morto pela Intolerância". Whose Streets? mostra ações como essa, além de respostas espontâneas a casos de violência policial (como a morte de Amadou Diallo, de 23 anos), e decisões judiciais polêmicas (como uma de 1989 que limitou o direito ao aborto conseguido no caso Roe contra Wade).

Um grupo chamado "Mulheres em Luto Ultrajadas" mostra fotos de Amadou Diallo durante uma manifestação em frente a ONU. O protesto aconteceu depois que quatro policiais envolvidos na morte de Diallo, que estava desarmado quando foi baleado e morto, foram absolvidos no tribunal. 27 de fevereiro de 2000. Foto © Ricky Flores

Whose Streets? apresenta um retrato poderoso desses embates públicos muitas vezes violentos, mas também ilumina as lutas particulares do outro lado desses períodos voláteis. Além do protesto da ACT-UP que parou o trânsito, levando milhares de pessoas para a linha de frente, os fotógrafos também capturaram imagens de funerais, salas de hospitais, famílias e amigos se apoiando diante da dor. A exposição é um registro de uma cidade em fluxo durante duas das décadas mais transformadoras do século 20. Ela mostra novaiorquinos se expressando sobre o que achavam errado, e defendendo o que achavam certo. E em momentos como o nosso — com Trump no poder — a reunião de fotos de Whose Streets? não poderia ser mais urgente, dolorosa e motivadora.

Funeral político da ACT-UP para Jon Greenberg, que morreu de AIDS. East Village, julho de 1983. Foto © Donna Binder
Ocupas tentam defender seu prédio bloqueando a rua com carros virados e latas de lixo antes de um ataque esperado da polícia em East 13th Street, 1995. Foto © Andrew Lichtenstein
Manifestação da ACT-UP pedindo melhorias na habitação para pessoas com AIDS. Bronx, 1992. Foto © Meg Handler
Manifestantes de Nova York saem às ruas em resposta à absolvição dos oficiais envolvidos no espancamento de Rodney King. Alguns negócios asiáticos foram vandalizados. Abril de 1992. Foto © Linda Rosier
Protesto em frente a Bolsa de Valores de Wall Street, pedindo o indiciamento dos quatro policiais envolvidos na morte de Amadou Diallo. Manhattan, março de 1999. Foto © Frank Fournier/ Contact Press Images
Manifestantes pró-escolha em Manhattan em 3 de julho de 1989, marchando contra a decisão da Suprema Corte de limitar o direito ao aborto conseguido no caso Roe contra Wade. 24 manifestantes foram presas, incluindo a ativista Mary Lou Greenberg, enquanto elas ocupavam a Ponte do Brooklyn. Foto © Nina Berman
Protesto do Dia do Ultraje na estação de metrô Jay Street-Borough Hall depois do veredito de Howard Beach em 21 de dezembro de 1987, onde os três réus foram considerados culpados pela morte de Michael Griffith, espancado e perseguido por uma multidão branca até uma rodovia, onde ele foi atropelado. Foto © Ricky Flores
Amigos se consolam no funeral político de Jon Greenberg, que morreu de AIDS em 12 de julho de 1993. Foto © Thomas McGovern

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