Publicidade
sexo

Por que tantas mulheres buscam por pornô ultraviolento?

Novos dados mostram uma alta de buscas femininas por pornografia com tags como "gangbang brutal", "forçado" e "estupro".

por Sophia Rahman; Traduzido por Marina Schnoor
05 Julho 2017, 6:34pm

Screeshot do filme 'O Diário de uma Virgem' / Varsity Pictures.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK.

Um quarto das buscas de pornô hétero feitas por mulheres estão à procura de vídeos que mostram violência contra seu próprio sexo. Cinco por cento das buscas feitas por mulheres são por conteúdo retratando sexo não consensual. Enquanto os homens ainda são os que mais procuraram por pornô, as taxas de busca por conteúdo sexual extremo são, pelo menos, duas vezes mais comuns entre mulheres do que entre homens.

Essas estatísticas surpreendem, assim como os fatos descobertos pelo Dr. Seth Stephens-Davidowitz, ex-cientista de dados do Google. O pesquisador teve acesso irrestrito às buscas e dados de visualização do PornHub e juntou as infos no seu novo livro, Everybody Lies: Big Data, New Data, and What the Internet Can Tell Us About Who We Really Are. "Se há um gênero de pornô onde violência é perpetrada contra uma mulher, minhas análises dos dados mostraram que isso sempre atraí desproporcionalmente mais mulheres", escreveu ele.

Mas por que tantas mulheres querem ver vídeos tageados como, digamos, "anal doloroso", "desgraça pública" ou "gangbang brutal"? Ou conteúdos marcados como "forçado" ou "estupro"? O movimento do pornô feminista — com foco em igualdade e empoderamento — prospera, nós sabemos, mas os dados mostram que, proporcionalmente, as mulheres também consomem muito mais do material sexual extremamente misógino disponível online.

Não é incomum que mulheres tenham fantasias com sexo coercivo, como descobriu um estudo de 2012 sobre fantasias de estupro. A equipe de pesquisadores da Universidade do Norte do Texas e Universidade de Notre Dame tocou uma fantasia erótica de estupro — não um retrato literal de um ataque sexual — para 355 mulheres por fones de ouvido para investigar sua excitação.

O material da fita, derivado do tipo de narrativa geralmente encontrada em romances, conta a história de um protagonista fortemente atraído por uma personagem mulher. Ele expressa seu desejo por ela, mas ela claramente não sente o mesmo. Ele tenta convencê-la, sem sucesso, e ela continua a recusar seus avanços. O protagonista então a domina e estupra. Mas ela resiste, e não dá seu consentimento. No entanto, como o homem é atraente para ela e fornece estímulo erótico, ela experimenta gratificação com o sexo forçado.

Os pesquisadores descobriram que 52% das mulheres tinham fantasias de sexo forçado com um homem, 32% sobre serem estupradas e 28% com sexo oral forçado com um homem. No total, 62% das mulheres relataram ter pelo menos uma fantasia sobre um ato de sexo forçado. Os pesquisadores depois investigaram se as fantasias indicavam "evasão de culpa sexual", uma hipótese de que mulheres socializadas pela nossa cultura de slut shame escolhem temas de sexo forçado para negar sentimentos de culpa ou vergonha.

Mas a verdade era o contrário. Mulheres que diziam ser menos reprimidas sobre sexo tinham mais chances de ter fantasias com estupro, fantasias mais abertas no geral, mais chances de ter fantasias consensuais e, finalmente, mais chances de ter autoestima alta.

Se as mulheres que fantasiam sobre estupro e sexo coercivo na verdade são as mais liberadas, o mesmo vale para mulheres que assistem pornôs violentos? Não é tão simples assim. Há pouca pesquisa sobre essas últimas, mas um estudo de 2011 descobriu que mulheres com mais chances de assistir pornô — especialmente os tipos mais extremos — eram aquelas que sofreram ataques sexuais e violência psicológica nas mãos de familiares.

O Dr. Raj Persaud, um psiquiatra consultor e autor britânico, disse que diferentemente das mulheres do estudo sobre fantasia de estupro, não sabemos a situação das mulheres que buscam por pornôs violentos.

"Acho que é provavelmente o caso de mulheres que sofreram abuso e acabam com uma visão distorcida do sexo", ele me disse. "Pessoas que sofreram um trauma psicológico ou abuso muitas vezes acabam em relacionamentos abusivos — elas repetem o ciclo. Não sabemos se as pessoas que fazem essas buscas estão num relacionamento abusivo, e se estão fazendo essas buscas porque foram coagidas.

"Há muitas coisas que não sabemos, e sem falar diretamente com as mulheres que estão buscando esse tipo de pornô, não podemos saber se elas sofreram abuso. O que os dados da pesquisa mostram é que há um lado secreto na vida das pessoas, um lado que psicólogos podem ter dificuldade em alcançar."

"Não sabemos se elas estão fazendo essas buscas por interesse próprio, porque é o que seu parceiro quer ou se elas realmente se masturbam com isso."

A Dra. Gail Dines, professora de sociologia e estudos das mulheres no Wheelock College, Boston, e ativista antipornografia, me disse: "Até sabermos quanto tempo [essas mulheres] ficam nos sites pornôs, e termos provas empíricas do que elas fazem enquanto estão nesses sites, não sabemos se elas estão fazendo essas buscas por interesse, porque é o que seu parceiro quer ou se elas realmente se masturbam com isso".

No entanto, Dra. Dines pondera: "Se essas mulheres [que assistem pornô violento] sofreram abuso, elas estão afundando o trauma ainda mais em seus neurônios, levando isso mais além no sistema límbico, e o pornô entrega um golpe enorme no sistema límbico porque você está assistindo alguém passar pelo mesmo trauma que você passou".

Então, enquanto mulheres que fantasiam sobre sexo violento ou coercivo aparentemente são mais liberadas sexualmente e têm alta autoestima, não se sabe se o mesmo pode ser dito sobre mulheres que buscam por pornô violento. Os dados nos mostram que mulheres estão buscando esse tipo de coisa, mas até alguém fazem um estudo mais abrangente sobre o tema, não vamos saber realmente por quê.

Compre Everybody Lies: Big Data, New Data, and What the Internet Can Tell Us About Who We Really Are aqui .

@sophiarahamn

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter e Instagram.