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Seria o Queermuseu o Pizzagate brasileiro?

Como teorias da conspiração, fake news e a disputa por capital político conseguiram censurar uma exposição e unir mais ainda a direita no país.

por Marie Declercq
15 Setembro 2017, 8:15pm

Foto por Felipe Larozza publicada originalmente aqui.

Nessa altura do campeonato não há quase ninguém que não tenha uma opinião sobre o cancelamento da mostra Queermuseu em Porto Alegre. A exposição foi alvo de ataques de integrantes do MBL (Movimento Brasil Livre) e outros grupos de extrema-direita, que usaram notícias falsas e imagens que não faziam parte da exposição para acusar promoção de pedofilia e zoofilia. A movimentação na internet brasileira na última semana e o alastramento das notícias sobre o caso lembram uma teoria da conspiração recente: o Pizzagate.

O caso Pizzagate surgiu no final de 2016, durante a corrida eleitoral da presidência dos EUA. Em novembro daquele ano, o Wikileaks vazou uma série de e-mails do manda-chuva da campanha de Hillary Clinton e na pilha de correspondências uma mensagem virou o centro de uma teoria paranoica. O e-mail falava de James Alefantis, dono da pizzaria Comet Ping Pong em Washington e um democrata assumido que inclusive ajudou a levantar dinheiro para a campanha de Barack Obama e da própria Hillary Clinton. Foi aí que o 4chan entrou na história.

Os usuários do site conhecido por abrigar trolls e disseminar lixo radioativo na comunicação cibernética começaram a criar uma teoria da conspiração ligando Alefantis e os políticos democratas dos EUA com um suposto círculo de abuso sexual de crianças, tráfico humano e pornografia infantil. Foi um pulo para entrarem no Instagram de Alefantis e acharem "sinais" que indicariam atrocidades cometidas no porão da pizzaria.

Os boatos, as "provas" apresentadas pelos membros do 4chan e a irresistível repulsa natural humana ao se deparar com boatos de que crianças são abusadas e escravizadas com o apoio dos democratas foi o estopim perfeito para a história se disseminar. Num piscar de olhos, sites da alt-right começaram a comprar o caso e disparar notícias falsas contra os democratas. O apresentador maluco Alex Jones do Infowars (uma mistura Sheherazade e Datena), inclusive, foi o que mais abraçou o Pizzagate na ternura de conquistar mais espectadores.

Alefantis foi ameaçado de morte. Foi acusado de abrigar um círculo de pedofilia no porão do seu estabelecimento, ainda que o lugar sequer tivesse um porão. Seus funcionários também começaram a ser hostilizados e jurados de morte. A paranoia dominou a direita mais paranoica das fake news, unidas a favor das crianças, e chegou num ponto mais EUA possível: um homem chegou à pizzaria com uma arma e disparou no local após ser influenciado por sites de fake news..

Nem investigações policiais apontando que as acusações eram falsas e absurdas ajudaram. A thread do Pizzagate chegou a ser deletada no 4chan e diversos veículos escreveram artigos desmentindo as notícias. Não foi exatamente um grande destaque na imprensa norte-americana, mas serviu para mapear e unir todo o espectro da direita chegada numa paranoia e em teorias da conspiração.

O Queermuseu não é exatamente idêntico ao Pizzagate, claro. Primeiro que as revoltas contra a mostra começaram um mês depois da abertura da exposição e foram essencialmente travados por militantes e influenciadores da direita brasileira. Um dos primeiros a expor esse suposto antro de arte degenerada foi o gaúcho Felipe Diehl, cabo eleitoral do Bolsonaro, além do youtuber do MBL Rafinha BK. Ambos deram início às "denúncias" da mesma forma: foram à exposição com seus respectivos smartphones e hostilizaram e xingaram quem estava presente na mostra. Diehl chegou a gravar um vídeo perguntando se o curador Gaudêncio Fidelis (apelidado de Fudêncio pelo militante da extrema-direita) "era um tarado ou um pedófilo".

Não demorou para o MBL abraçar oficialmente a causa disseminada pelos seus militantes gaúchos. Com direito a Kim Kataguiri gravando vídeo se descabelando com a tal tamanha falta de vergonha da mostra. O próprio fundador do MBL, Pedro D'Eyrot, parece ter esquecido do seu passado — quando foi autor de música sobre cocaína e sexo com menor de idade — para apoiar todo o repúdio pela mostra "degenerada".

O Queermuseu, portanto, pareceu uma ação mais planejada do que um mero thread impessoal no 4chan, como foi o caso do Pizzagate. Porém, a tática de pânico moral e conquista de narrativa se assemelha à teoria da conspiração norte-americana. Ambos tiveram uma grande ajuda de sites de fake news para crescer e se apoiaram no bem-estar infantil e na moral cristã para se estabelecer e ganhar capital político entre os cidadãos preocupados com o que seus filhos podem olhar acidentalmente.

É o clichê "think of the children" ("pense nas crianças", em português) na sua mais pura forma. Tanto que todo o movimento de repúdio à exposição teve apoio inclusive do prefeito tucano de Porto Alegre (que apagou o post do Facebook logo depois da polêmica) e a estranha iniciativa dos vereadores de São Paulo pediram uma investigação ao MPF sobre a exposição, mesmo ela estando fora da alçada dos mesmos. De repente, todos que se enxergam na direita começaram a surfar nessa onda.

Para o MBL, a polêmica parece ter vindo bem a calhar. Pouco tempo antes do episódio do Queermuseu, o grupo estava sendo zoado nas redes sociais graças ao fracasso documentado em várias manifestações a favor do Escola Sem Partido. Uma pauta, inclusive, que também pega carona na moralidade sexual. Com os boatos disseminados da mostra, logo o grupo viu uma saída para conquistar ainda mais pessoas. Afinal, quem em sã consciência não se revoltaria ao saber que uma exposição permitiu a apologia à pedofilia e zoofilia?

Não sobrou para ninguém. O Santander cancelou a mostra à revelia do curador Gaudêncio Fidelis e pediu desculpas. Um dos principais mascotes do MBL, o youtuber Mamãe Falei, chegou até a levar uma porrada na cara e foi escorraçado do protesto contra a censura promovida no último domingo em Porto Alegre.

O clã Bolsonaro chegou a compartilhar tweets acusando a mostra de ter um espaço onde crianças eram estimuladas a tocar o genital de umas das outras, fato que foi desmentido prontamente por sites de fact checking, outro fato convenientemente ignorado pela direita. Também foram compartilhadas imagens de obras que não existiam na mostra, acusadas de estimular a depravação infantil. Uma delas foi usada também no caso Pizzagate para "provar" que o local era um antro satanista de estupro infantil.

A narrativa principal tanto do Queermuseu quanto do Pizzagate não é a proteção da infância e o combate ao abuso sexual infantil (que inclusive é bastante grave no país). Muito menos de discutir o que é arte ou não. Trata-se de uma conquista de capital político. No caso local, como preparação das eleições de 2018 e também uma grande união das direitas do país. O caso envolvendo o Santander parece uma espécie de pesquisa de marketing para entender como velhos discursos perversos de atrelar a homossexualidade à pedofilia podem ser atualizados e mastigados para atingir uma camada generosa da população.

Essa narrativa conservadora é perfeita para a rede difusa de comunicação na internet de grupos da extrema-direita alcançarem o cidadão médio. Tanto é que na mesma semana um quadro foi removido de uma exposição em Campo Grande (MS) depois que pessoas o denunciaram como uma apologia à pedofilia. O quadro em questão fazia parte de uma exposição que retrava os males do machismo e a própria "pedofilia" era um dos males questionados. O Pizzagate foi um prenúncio da face da supremacia branca que dá na eleição de Trump e desemboca em Charlottesville. O que podemos esperar que o efeito Queermuseu cause no Brasil?

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