Foto: João Wainer

As histórias das fotos que João Wainer fez no Carandiru

Cineasta e fotógrafo, o paulistano João Wainer revela fatos inéditos dos anos que passou fotografando o maior presídio da América Latina.

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out 2 2017, 7:46pm

Foto: João Wainer

Existe uma tríade importante que norteia a carreira do fotógrafo e cineasta João Wainer: o filme Pixo (2009), a idealização da TV Folha, em 2011, e suas imagens da Casa de Detenção São Paulo, mais conhecida como Carandiru, à época, o maior presídio da América Latina. Era 1998 quando Wainer botou os pés ali pela primeira vez. Foi logo conduzido ao Amarelo, andar no qual ficavam os presos jurados de morte que, temendo pelos próprios dentes, sequer saíam pra tomar banho de sol. O ambiente era abafado, insalubre. "Lembro que até a lente da minha câmera embaçou com o bafo que veio daquele lugar", rememora.

Duas imagens dominam a memória fotográfica da sociedade brasileira quando se fala em Carandiru: o massacre que aconteceu em 2 de outubro de 1992 (o impacto de ver os presos pelados no pátio, sangue no chão, as transmissões catastróficas na televisão brasileira) e a implosão do complexo em 8 de dezembro de 2002. Já a memória de João Wainer é povoada por muitos outros registros, como um desfile de moda em que as travestis foram aplaudidas de pé e o dia em que ficou escondido numa barbearia enquanto os presos ameaçavam fazer uma rebelião. "Nunca senti medo nenhum lá dentro. Nunca", afirma.

Detento do Carandiru. Foto: João Wainer

A VICE trocou uma ideia com Wainer sobre o período em que esteve no Carandiru dando vida a uma das séries mais emblemáticas do fotojornalismo brasileiro. Leia os melhores trechos abaixo.

VICE: Você lembra exatamente da primeira vez em que botou os pés no Carandiru? Quando foi?
João Wainer: Lembro. Foi uma matéria pra Folha de S.Paulo. Era 1998, mais ou menos. Entrei com um repórter e fomos conhecer o Amarelo. Nem imaginei que ia passar uma temporada tão grande frequentando o Carandiru.

O Amarelão era um dos lugares mais apavorantes da cadeia.


Quais foram as suas impressões nesse primeiro dia?
Foi muito assustador, principalmente por ter ido no primeiro dia logo ao Amarelão, que era um dos lugares mais apavorantes da cadeia, onde ficavam os caras jurados de morte. Lembro que o funcionário que tava com a gente resolveu fazer uma brincadeirinha. Chegamos lá e aquele cheiro horroroso, aquele bafo. Lembro que até a lente da minha câmera embaçou com o bafo que veio daquele lugar. E os caras não tomam sol nunca, não saem nunca. Aí o funcionário abriu a porta e disse: "E aí, galera, se alguém quiser descer, pode descer, tá liberado". E ninguém se mexeu, obviamente. Ele ficou dando risada.

O Amarelão é onde ficavam os caras que tinham brigado, treta de cadeia. Quem achava que estava ameaçado pedia seguro e ia pro Amarelo. Se não me engano, era o quarto andar do Pavilhão 5. Lá, ficavam os jurados de morte. E o Pavilhão 5 inteiro era o prédio do seguro. Ficavam as travestis. Mas, no Amarelo, no quarto andar, ninguém tomava sol.

Travestis no Pavilhão 5 do Carandiru. Foto: João Wainer

Durante qual período você fotografou o Carandiru?
Fiquei de 1998 até implodir [em 2002]. Logo depois, conheci a Sophia Bisilliat e juntamos com o André Caramante e com a Maureen Bisilliat. Começamos a fotografar sistematicamente. Eu ia duas, três vezes por semana.

Era isso que eu ia te perguntar. Nas suas primeiras idas até lá já havia a ideia de fazer o livro Aqui Dentro (2002)?
Quando começou, não era bem isso. A Sophia fazia um projeto lá que chamava Talentos Aprisionados, que ela levava cursos de arte pros pesos de maneira geral. Desse projeto saiu o 509-E e várias coisas legais que aconteceram. Ela que conseguiu gravadora. Era só eu e a Sophia, dois anos depois entrou o André e a Maureen, já com o foco do livro.

Dexter e Afro-X na cela que batizou o grupo de rap. Foto: João Wainer

Li que vocês andavam sozinhos pelo presídio, sem o acompanhamento de funcionários.
Eu entrava às 16h na Folha, então, ia umas 8h pro Carandiru, saia às 15h, almoçava rapidinho e ia pra Folha, onde ficava até a meia-noite. Eu ia umas três vezes por semana. A Sophia tinha muita moral lá dentro. Então, isso abria muitas portas. Conseguimos uma credencial que você batia e entrava. Não precisava da companhia de funcionário, nem nada. Passamos um período com muita liberdade lá dentro.

Se você ficar pensando no que cada um daqueles caras fez você não conversa direito com ninguém.

Qual era a sua relação com os presos? Você chegou a ser hostilizado?
Não. Nossa relação sempre foi muito boa. Eu entrei ali com a Sophia, que todo mundo conhecia como uma pessoa que fazia um projeto pro bem da comunidade carcerária geral. Então, o fato de entrar com ela fez com que eu fosse visto de outro jeito. Ela trabalhava com cadeia há muitos anos. E acho que o grande segredo pra conviver com aquilo tudo, viver, conversar e ter um relacionamento com os presos era o fato de não julgar. Abrimos mão do julgamento. Não somos polícia, advogado, promotor, nada disso. Não tô ali pra julgar, mas pra tentar entender aquele lugar e o que aquelas pessoas sofrem, tentar ver o que acontece ali. Quando você tira o julgamento, fica tudo mais tranquilo. Se você ficar pensando no que cada um daqueles caras fez você não conversa direito com ninguém.

Fodeu, né.
Fodeu. Tirei o julgamento minha vida inteira. Se eu quisesse julgar alguém, eu tinha virado juiz, qualquer outra porra.

Jogo de futebol no pátio do Carandiru. Foto: João Wainer

Teve algum dia mais tenso que te botou medo?
Cara, teve um dia que houve um princípio de rebelião com a gente lá dentro. Eles tinham feito uma festa e queriam entregar umas cestas básicas pra alguém e a direção vetou. Aí começou a rolar uma movimentação de rebelião. Aí, foi todo mundo pro pátio, teve uma assembleia com os líderes. Eles pediram pra gente ficar dentro de uma barbearia, que era uma salinha, e passamos um período bem tenso, esperando a cadeia virar. E a cadeia quase virou. Mas eles resolveram não virar na última hora.

Se algo rolasse vocês seriam protegidos ou viraria terra de ninguém?
Teríamos total proteção porque tudo que fazíamos era muito conversado com eles e com a direção. Então, eu não sentia medo nenhum lá dentro. Nunca senti medo nenhum lá dentro. Nunca.

Tinha uma travesti operada dentro da cadeia. E era o maior segredo. Ninguém podia saber que tinha uma buceta lá dentro, senão, a cadeia ia virar de cabeça pra baixo.

O que você quer dizer com "direção"?
Com os funcionários. Tínhamos um acordo com os funcionários e os líderes da cadeia também. Eu me sentia muito seguro lá. Ali, o papo é reto. Não tem muito caô. O papo é reto. Aprendi muita coisa lá dentro. Nunca contei essa história, mas foi uma das maiores lições que tive ali dentro. Tinha o seu Valdemar, um funcionário mais próximo da gente, e estávamos trabalhando com as travestis. Chegamos a fazer um desfile de moda lá. Foi incrível. Até que eu soube que tinha uma travesti operada dentro da cadeia. E era o maior segredo. Ninguém podia saber que tinha uma buceta lá dentro, senão, a cadeia ia virar de cabeça pra baixo.

Pavilhão 5. Foto: João Wainer

Que fita...
Era uma travesti que operou no Marrocos e não tinha mudado o documento, que ainda era masculino. Então, ela foi presa com o documento de homem, direcionada pra cadeia masculina e ninguém foi olhar se ela era operada ou não. Eu enlouqueci com essa história e resolvi fazer essa matéria. Comecei a entrevistá-la, conversar. E, aí, o seu Valdemar chegou e ficou puto comigo. Ele perguntou: "O que você combinou comigo? Cê combinou que ia fazer essa matéria?". Eu respondi que não combinei. Ele perguntou, então, por que eu estava fazendo aquela matéria antes de falar com ele. Me deu um puta esporro e me explicou que, na cadeia, não existe isso de combinar uma coisa e fazer outra. Você tem que fazer o que combinou. Se eu quisesse fazer essa matéria, teria que ter acertado com ele, não poderia sair fazendo.

A implosão do Carandiru. Foto: João Wainer

E, aí, abri mão da reportagem. Poderia ter feito e foda-se, mas, aí, não voltaria pro presídio nunca mais. E foi bem no começo. Resolvi abrir mão dessa pauta em prol da relação com o seu Valdemar e no que acabou rendendo um livro inteiro sem essa história. Foi uma lição que aprendi que é foda. Que é pra vida. O Caco Barcellos me disse uma vez: "Se eu vou fazer uma matéria sobre alguém e vou foder com a vida do cara, eu chego pro cara e falo 'Essa matéria vai foder com a sua vida'. Por mais que você faça a matéria, o cara vai te respeitar pra sempre porque você jogou limpo". E eu vejo muito jornalista que chega com caô, fala que vai fazer uma matéria e faz outra. Aprendi pra cacete com relação a isso e várias outras coisas.

Enfermaria do Carandiru. Foto: João Wainer

Qual era a relação de vocês com os chefes do PCC lá dentro?
Na verdade, quando começamos o trabalho, o PCC ainda não tinha essa força toda de dominar geral. E, depois de um tempo, eles entraram e tivemos de fazer uma nova negociação. Como já estávamos lá dentro, eles conheciam e sabiam que não éramos do mal, foi uma negociação um pouco tensa, ficamos uns três meses parados, sem poder trabalhar, até aparecer o aval, mas depois o aval acabou vindo e as coisas ficaram mais tranquilas do que já eram.

Teve uma situação curiosa. Já estávamos com esse aval e, um dia, fotografei o Pavilhão 8 inteiro, mas um dos caras não me deixou fotografar um andar. Quando eu estava indo embora, o chefão perguntou se foi tudo bem, mas comentei que um cara não me deixou fotografar num andar, mas que não tinha problema. O chefão ficou louco, mandou chamar o cara, deu esporro nele na minha frente e ainda pediu pro cara ficar comigo como assistente. "Agora você vai dar uma força pra ele. Tudo que ele te pedir, você faz." E o cara ficou meu amigo depois. [risos]

As fotos das celas são impressionantes. Muitos homens, muita roupa, sacolas, quase nenhuma cama ou espaço. O que você sentia ali?
Essas celas provavelmente são a triagem, que é uma cela mais de passagem. Ninguém fica muito tempo ali. Quando ele ia pra cela de convívio mesmo, já tinha um colchãozinho. Mas a triagem é trash, cara, é bem assustador. Mas não é mais assustador que os DPs. Eu já frequentei alguns DPs… Fiz uma matéria de DPs lotados no Espírito Santo, uma vez, que foi a coisa mais impressionante de cadeia que vi na minha vida. Nada no Carandiru chega perto daquilo. Aquele que os caras dormiam em camadas, se amarravam na grade pra dormir…

Sala de triagem no Carandiru. Foto: João Wainer

Saquei. Falei de uma foto específica, com uma televisão e uma garrafa de Dolly servindo de base de antena.
Era uma sala de triagem mesmo.

Você falou do cheiro. Algum cheiro te lembra o Carandiru?
Sim. É muito homem junto. Por incrível que pareça, o Carandiru era muito limpo. Eles sempre prezavam muito pela limpeza. Imagina oito mil homens morando juntos. Lembro de um bafo. Um bafo quente que você sentia quando chegava nos lugares mais cheios. E um cheiro de Pinho Sol que eles usavam na limpeza. Um pouco do recorte da comida que eles faziam. Porque a comida chegava azeda e eles diziam que precisavam fazer o recorte, que era recozinhar a comida. Chegava comida podre pra eles. Claro, preso não pode reclamar… então, toda comida que eles iam jogar fora, mandavam pra cadeia. Eles lavavam tudo e cozinhavam de novo, com temperos que as famílias traziam, que eles comercializavam lá dentro.

Você lembra qual equipamento usava na época?
Era de filme. Usava uma Nikon F4 e filme da Fuji asa 800.

O "correio" do Carandiru. Foto: João Wainer

Tem uma foto de um sujeito datilografando cartas. Quem era ele?
Era o cara da triagem das cartas. Era o correio. Ele pegava as cartas e distribuía lá dentro.

Era um preso?
Era um preso que cuidava das distribuições das cartas lá dentro.

As travestis ficavam em celas separadas? Como era a convivência com elas?
Elas eram a escória da cadeia. Então, ninguém dava bola pra elas. Fizemos um desfile de moda lá dentro com as travestis. Foi a primeira vez na história que as travestis foram aplaudidas de pé dentro da cadeia. Os presos aplaudiram de pé.

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