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Histórias de pessoas que cresceram em casas onde havia armas de fogo

Os cidadãos de bem™ imaginam estar mais protegidos, mas quem viveu com um cano na própria residência sabe que a realidade é bem diferente.

por Amauri Eugênio Jr.
18 Janeiro 2019, 5:38pm

Foto: Larissa Zaidan/ VICE

Desde terça-feira (15), quando o presidente Jair Bolsonaro (PSL) assinou o decreto para a flexibilização na posse de armas, este foi o assunto da semana.

Enquanto meio mundo usou dados científicos, pesquisas, argumentos, depoimentos e ouviu especialistas em segurança pública para sacar por que a medida vai dar muito ruim, outros preferiram jogar os fatos no lixo e ficar com a convicção de que ter uma arma em casa será mais seguro porque… Bem, porque sim.

Para completar, houve alguns seguidores fiéis do clã Bolsonaro que ficaram bolados, pois não haviam dado um jeito de liberar o porte de arma. Segundo eles, não basta ter uma arma em casa: é preciso poder andar com a própria glock por aí — esses caras tiveram a capacidade cognitiva afetada por filmes de tiro, porrada e bomba, só pode.

Para entender melhor como esta história funciona na prática, a VICE trocou uma ideia com um pessoal que cresceu em lares onde havia armas de fogo. E, bom, vale a pena ler o que eles têm a dizer para sacar por que 61% dos brasileiros defendem a proibição da posse de tais artefatos e por que qualquer especialista sem ligação com interessados na flexibilização veem a medida com preocupação e desconfiança.

Carolina Herrera, 20, estudante

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Foto: Acervo pessoal

O meu pai é policial, então meio que sempre houve um aviso sobre não poder abrir a gaveta dele, pois havia uma arma lá. Eu não me lembro da primeira vez em que abordaram o assunto, mas isso sempre foi muito falado e meu pai andava armado para quase todo lugar. A única orientação era para não abrir a gaveta, que tinha tranca, mas não ficava trancada. Acho que nada nunca aconteceu comigo e com meu irmão por sorte.

Além disto, o meu pai é o melhor exemplo por que um cidadão não deveria ter arma em casa mesmo com treinamento: ele é bem estressado, o que pode ser por causa da profissão, mas sempre foi muito comum ele brigar no trânsito, por exemplo. E olha que ele é supercontra a legalização do porte de armas.

Certa vez, a família toda estava em uma competição de natação do meu irmão e voltamos para casa um pouco mais cedo. Quando chegamos, a porta havia sido arrombada e o ladrão estava lá dentro com as armas do meu pai - se não me engano, ele tinha duas. Ele nos rendeu, nos mandou entrar no quarto e ficava ameaçando matar todo o mundo se não colaborássemos. O ladrão iria trancar todo mundo no quarto, mas não achou a chave e só ordenou que ficássemos lá enquanto ele fugia, senão ele atiraria. Eu tinha 4 anos à época e até a arma estar apontada para mim, eu ainda estava muito confusa sobre o que estava acontecendo.

Quando vejo isso tudo [a flexibilização para a posse e pessoas defendendo a medida], sinto só desespero. Se alguém me perguntasse se acho uma boa ter uma arma em casa, eu diria que em momento nenhum isso foi uma "vantagem" para mim ou um ponto de segurança que já me salvou disso ou daquilo. Na verdade, na maioria das vezes que a arma estava envolvida, eu só desejei que não estivesse lá.

João Neves, 20, estudante de história e educador

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Foto: Acervo pessoal

A descoberta de que havia uma arma em minha casa foi natural. Não houve um momento exato, sempre soube, pois a notava, em alguns momentos, sob o porte de parentes. Eles sempre me deixaram claro que se tratava de algo perigoso e eu deveria manter distância daquilo. Além disso, o meu avô sempre me orientou calmamente sobre armamento, alertando que a arma era dele para segurança em caso de emergência. Como policial aposentado e trabalhador autônomo, ele possuía uma.

Para ser sincero, nunca a vi como um risco, pois confiava completamente em meus familiares — o que, infelizmente, não é a regra em nosso país. A que vi na infância, assim como a que vejo hoje morando em outra casa, fica em local seguro, sob acesso restrito do responsável. Eu sequer sei onde ela está guardada, mas mais até por razão de desinteresse.

Contudo, a minha mãe foi assassinada em 2008, com três tiros. Desde então, as armas, que nunca foram algo que eu admirasse, tornaram-se objetos para se manter distância. Para completar, faz alguns meses que visitei um clube de tiro e atirei pela primeira vez. Esse episódio reforçou a minha posição: é um ótimo entretenimento, mas em clubes fechados, sob exame para os usuários e segurança para os frequentadores. Ainda assim, não é um aparelho válido para resolvermos a segurança pública.

Eu me sinto bastante ameaçado [com a flexibilização]. O aumento da circulação de armas pode gerar aumento dos casos de furtos de armamentos no país, gerando mais armas a potenciais criminosos. Isso não resolve também os problemas de segurança quando pensamos na ampla população brasileira: o preço caro do armamento impossibilita muitos de terem acesso. Deve-se questionar para quem e para o quê esse equipamento será comercializado.

Diversos estudos em vários países mostraram que o aumento da circulação de armas gera crescimento da violência pública. É assustador notarmos que não há base científica no projeto proposto pelo governo Bolsonaro. Acredito que devemos construir uma sociedade menos desigual e mais geradora de oportunidades a todos e todas. E essa meta não será atingida por meio do armamento.

Martharluam Conceição da Silva, 27, assistente social

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Foto: Acervo pessoal

Sempre soube, subjetiva e objetivamente, que havia uma arma em casa, pois o meu pai era PM e sempre voltava ou saia de casa fardado e armado. Sempre me dei conta de que não devia me aproximar também: não lembro exatamente quando ele me deu essa orientação, mas houve algo do tipo "não se aproxime disso aqui".

Nunca percebi, quando mais nova, os riscos de ter uma arma em casa. Acho que na cabeça de uma criança que viveu numa família de policiais, era como se aquilo fosse "normal", pois era um instrumento de trabalho do pai e dos tios. Nunca passei por nenhuma situação que me fizesse ser contra ter armas em casa, mas, por haver crianças lá, nunca achei que fosse confiável. Além disso, mesmo nunca ter ouvido de outros familiares nada muito explícito sobre ter uma arma em casa, eles só falavam para o meu pai ter cuidado por causa das crianças - no caso, esconder em um local seguro.

Fico muito preocupada com todo este movimento de liberalização futura das armas. Não vejo como saída a segurança, pelo contrário: coaduno com todao os dados e receios de quem é contra. O Brasil já é um país tão violento e não vejo como melhorar a liberalização da posse e do porte de armas.

Eu questionaria a quem defende essa medida se ela está preparada para ter uma arma e se acha mesmo que isso deixará ela e a família mais seguras, assim como se já pensou claramente nas necessidades dela.

Ravi Chvaicer, 19, estudante

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Foto: Acervo pessoal

Quando eu tinha uns 3 anos, invadiram a casa de praia do marido da minha avó, que era ex-militar, onde estávamos de férias. A minha mãe foi conduzindo a situação e acalmando os caras, falando que ninguém reagiria e eles poderiam levar o que quisessem. Um deles subiu a escada, viu um coldre jogado no canto do degrau, ficou nervoso e aumentou o tom. Se minha mãe não fosse maestra em desenrolo e tivesse convencido o marido da minha vó a entregar a arma, possivelmente teríamos todos morrido. Deu no jornal uns dias depois que um dos assaltantes foi preso por ter assassinado uma criança.

Não tenho memória nenhuma disso e descobri alguns anos depois — em 2008, acho —, quando minha mãe me contou sobre esse acontecimento. Imagino que, com exceção do meu vô-drasto, que é mais conservador, nenhum dos outros presentes tenha se sentido mais seguro. Muito pelo contrário. Nunca tivemos uma arma em casa e não lembro de ter voltado até a casa na praia em outro momento. Ela sempre achou [ter armas] um absurdo e me desencorajou de ter qualquer contato com elas, mesmo as de brinquedo.

Eu me sinto bem inseguro, mesmo a lei só permitindo a posse. Acho muito difícil que isso impeça alguém de levá-la para a rua. Conhecendo o histórico agressivo de brigas de bar, de trânsito e domésticas, acho muito irresponsável facilitar o acesso a ferramentas que podem matar com facilidade incrível. E se alguém me disser que acha uma boa ter arma em casa, eu diria para ela me lembrar de nunca ir lá [risos].

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