Triptykon. Foto: Christian Martin Weiss e Sylwia Makris/Divulgação

Tom Warrior fala sobre metal brasileiro, Celtic Frost, livros e Aerosmith

Conversamos com o lendário vocalista e guitarrista, que se apresenta no Brasil pela primeira vez nesta semana com o Triptykon.

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24 Maio 2018, 10:00am

Triptykon. Foto: Christian Martin Weiss e Sylwia Makris/Divulgação

A próxima sexta-feira, 25 de maio, será um dia histórico para o metal no Brasil. Isso porque a data marca a primeira vez em que Thomas Gabriel Fischer, mais conhecido como Tom Warrior, subirá em um palco no nosso país.

Um dos nomes mais influentes e importantes do metal extremo mundial pelo seu trabalho com o Hellhammer e o Celtic Frost nos anos 1980, o músico suíço vem a São Paulo com o Triptykon, banda que fundou há 10 anos — logo após o fim das atividades do Celtic Frost.

Com um som que traz ecos perceptíveis das suas bandas anteriores, o Triptykon também conta com o guitarrista V. Santura, que fez parte da última formação ao vivo do Celtic Frost, na época do disco Monotheist (2006).

Na entrevista abaixo, Warrior fala sobre esses primeiros shows na América do Sul, os próximos passos do Triptykon, como foi dividir o palco com o Sepultura nos anos 1990, a importância dos livros na sua vida, e como encontrou o baixista do Aerosmith, Tom Hamilton, no Maryland Deathfest 2015.

Noisey: Essa será a sua primeira vez no Brasil e na América do Sul, certo? Quais as suas expectativas para essa tour? E está planejando algo especial em termos de setlist?
Tom Warrior: Sim, essa será a nossa primeira vez na América do Sul, e isso inclui o Celtic Frost. Nunca abordo nossos shows com qualquer expectativa, além de esperar que a banda e a nossa equipe atuem profissionalmente, é claro. Após 36 na indústria, eu simplesmente chego e deixo as coisas caminharem como tem de acontecer.

Quanto ao setlist, os shows do Tryptikon na América do Sul estão acontecendo porque fomos originalmente convidados para tocar no festival Evil Confrontation, no Chile, e o produtor nos pediu um setlist que fosse o máximo possível baseado no Celtic Frost e no Hellhammer. Então é isso que vamos tocar em todos os quatro shows, para sermos justos com todos os fãs (Nota: veja aqui o setlist do show do México, que deve ser o mesmo tocado no Brasil.)

O mais recente disco do Triptykon, Melana Chasmata, foi lançado em 2014. Vocês estão planejando lançar um novo disco ou EP em breve? E a saída do baterista da banda no ano passado impactou o processo de composição de alguma forma?
Estamos realmente trabalhando no nosso terceiro disco. E certamente é verdade que ter de buscar um novo baterista atrasou significativamente o novo álbum. Mas ele será lançado no ano que vem.

Aliás, como é o processo de composição no Triptykon? Você ainda escreve a maior parte das coisas? Vocês todos parecem ter um relacionamento muito bom – e o guitarrista da banda V. Santura, que fez parte da última formação ao vivo do Celtic Frost, também produz os discos em parceria com você.
Sim, eu escrevo a maioria das músicas, como fazia no Hellhammer e no Celtic Frost. Afinal de contas, formei o Triptykon para continuar o caminho iniciado com essas duas bandas. Dito isso, o V. Santura também escreve, e a porta está totalmente aberta para os outros integrantes da banda se eles quiserem contribuir com música. E fazemos os arranjos de todas as músicas como uma banda completa. A força do Triptykon é definitivamente o eixo colaborativo entre eu e o V. Santura.

Você já disse que o Triptykon “soaria o mais humanamente possível próximo do Celtic Frost” – e os seus discos realmente parecem um tipo de continuação do que foi feito no Monotheist (2006), do Celtic Frost. Mas isso é algo em que você ainda pensa quando está compondo com a banda, em soar desse ou daquele jeito? Ou as coisas são mais abertas hoje em dia neste sentido?
Quanto ao Triptykon ter a sua própria identidade, penso nisso todos os dias da minha vida. O Celtic Frost era a minha vida, e a minha existência musical é inseparável da banda.

Quando você começou com o Hellhammer e depois com o Celtic Frost, não havia uma cena metal de verdade na Suíça. Por isso, queria saber como as coisas estão agora, mais de 30 anos depois?Se você está falando de uma cena séria e profissional, as coisas basicamente não mudaram desde então. E, por essa mesma razão, eu raramente toco na Suíça.

Em 1996, você e o Martin tocaram a música “Procreation (of the Wicked)”, do Celtic Frost, com o Sepultura em um show dos brasileiros na Suíça – alias, há um vídeo ótimo que a MTV fez sobre esse encontro. Como foi dividir o palco com eles? E o que achou da versão do Sepultura para a sua música?
Foi uma honra e, obviamente, um grande prazer dividir o palco com uma banda que eu e o Martin respeitamos muito. Além disso, penso que a versão deles (do Sepultura) para “Procreation (Of the Wicked)” é absolutamente fantástica; melhor que a original.

Falando nisso. Você conhece alguma outra banda ou artista brasileiros além do Sepultura?
É claro, há muitas bandas que conheço. Atualmente tenho escutado bastante Nervosa e Fire Strike, por exemplo.

Além de música, você também é um escritor, já tendo publicado dois livros até o momento (“Are You Morbid?” e “Only Death is Real”), além de ter tido uma coluna em uma revista de metal e escrever regularmente no seu blog sobre os mais variados assuntos. Por isso, queria saber qual o papel da literatura/livros/escrever na sua vida? E poderia citar alguns dos seus livros favoritos?
Para mim, escrever é pelo menos tão importante quanto a música. Talvez até mais importante. É algo que buscava desde jovem. Em 2004, Martin Eric Ain sugeriu que eu começasse um blog, e esse blog continua muito ativo 14 anos depois. Deste modo, ele também é uma espécie de memorial para o Martin (Nota: o ex-baixista do Celtic Frost faleceu em outubro de 2017).

Pessoalmente, sou um colecionador de livros, e tenho uma quantidade enorme de livros. São todos sobre fatos e não ficção, todos os tipos de assuntos, desde história da arte até design, passando por música e exploração espacial. A minha casa basicamente parece uma biblioteca.

Falando nisso, vi algo no seu blog que me chamou a atenção. Era uma foto do Triptykon com o baixista do Aerosmith , Tom Hamilton, no festival Maryland Deathfest em 2015. Por isso, queria saber como o conheceu? E ele por acaso é fã do seu trabalho com Hellhammer/Celtic Frost/Triptykon?
Temos um grande amigo em comum, que espontaneamente nos apresentou no backstage. Não posso falar pelo Tom Hamilton e seu gosto musical, mas ele pareceu gostar de estar lá. Os primeiros trabalhos do Aerosmith nos anos 1970 foram uma grande inspiração para mim quando era um adolescente.

Por favor, me diga três discos que mudaram a sua vida e por que eles fizeram isso.
O primeiro é o Welcome to Hell (1981), do Venom, porque foi o disco de metal mais radical lançado na época e era exatamente a música que eu e o cofundador do Hellhammer, Steve Warrior, estávamos buscando.

Outro disco é o Angel Witch (1980), do Angel Witch, porque era como uma reinterpretação moderna e muito poderosa do Black Sabbath quando foi lançado em 1980.

Por fim, o Vol 4 (1972), do Black Sabbath. Esse foi o meu primeiro disco do Sabbath quando eu descobri a banda em 1975, e ainda penso que é o trabalho mais forte e sombrio deles.

Aliás, quando você começou a tocar guitarra e quais eram as suas maiores influências naquela época?
Comecei a tocar seriamente em 1981, e minhas inspirações mais significativas eram Tony Iommi, Kevin Heybourne, Venom, Motörhead e Discharge.

Do que você tem mais orgulho na sua carreira? E você tem um disco favorito entre os que gravou?
Orgulho é a palavra errada. Me sinto muito afortunado por ter tido a chance de passar a minha vida seguindo esse caminho. Gravei muitos álbuns, e diversos deles são muito importantes para mim, como os três primeiros trabalhos do Celtic Frost, além do Monotheist, ou o primeiro disco do Triptykon.

Essa é a última pergunta. Como você quer ser lembrado?
Não tenho pensamentos desse tipo. Não tenho importância alguma, e uma vez que me for, serei poeira cósmica novamente. E daqui a mil anos ninguém nem vai lembrar que eu existi. E não há nenhum problema com isso.

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