Pesquisadores querem formar "bancada da ciência" na política nacional

Pronta para concorrer nas próximas eleições, dupla da USP quer aumentar investimentos e melhorar a condição científica do país.

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31 Julho 2018, 2:39pm

Walter Neves, professor aposentado da USP e antropólogo especialista em evolução, afirma lutar para que a barbárie não se estabeleça no país. Foto: Divulgação

A cada ano, o orçamento do governo brasileiro destinado à ciência e tecnologia vem caindo sistematicamente. Em 2010, o gasto total foi de R$ 10 bilhões (em valores atualizados pela inflação). Já em 2018, esse valor será de apenas R$ 3,4 bilhões. Outro duro golpe aconteceu em 2016, pouco antes do impeachment de Dilma Rousseff, quando o ainda interino governo Temer anunciou o fim do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A pasta foi fundida ao Ministério das Comunicações. De acordo com a comunidade científica, a medida serviu para alertar que a pesquisa não seria prioridade para Temer.

O presidente virou assunto até da conceituada revista Nature, que em 2016 publicou reportagem sobre os cortes de gastos e a ameaça que isso representa para o desenvolvimento da ciência nacional. "Isto é uma atitude de guerra contra o futuro do Brasil. Cientistas vão deixar o país", disse à revista Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Uma vez empossado, o presidente foi desferindo mais golpes na comunidade científica. Outra medida danosa foi a chamada PEC do Teto, que condicionou o crescimento dos gastos públicos ao aumento da inflação. O único jeito de um ministério aumentar seus gastos é se a inflação subir. Se isso não acontece, tudo permanece como está.

Temer acelerou a marcha do que já não andava bem. A crise econômica atingiu em cheio o setor da pesquisa no Brasil ainda durante o governo de Dilma Rousseff. Nos últimos dez anos, o orçamento do ministério encolheu 30%. Em 2015, o extinto Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação teve sua menor verba em sete anos (R$ 4,6 bilhões). O CNPq tesourou em agosto 20% das bolsas de iniciação científica oferecidas a estudantes do ensino médio e da graduação. Pesquisadores da entidade acusaram o governo de reduzir em até 30% a verba destinada às bolsas de produtividade.

Desse cenário de terra arrasada nasceu um projeto político que quer colocar os próprios cientistas para brigar por suas demandas no lado de dentro da política. Os Cientistas Engajados, primeira "bancada científica" do Brasil, pretende começar a alertar a população para a importância do investimento em ciência e tecnologia e os riscos que o país corre se ficar para trás. Os pré-candidatos-cientistas são Walter Neves, professor aposentado da USP e antropólogo especialista em evolução, e Mariana Moura, doutoranda na mesma universidade, onde pesquisa a transferência de valores na cadeia energética. Neves concorre a deputado federal e Moura, a deputada estadual, ambos pelo estado de São Paulo.

Em conversa com o Motherboard Brasil em café na Avenida Paulista, a dupla explicou como nasceu o projeto. De acordo com Moura, o grupo dos Cientistas Engajados reúne mais de 110 pessoas de universidades brasileiras e do exterior. "A gente se reúne regularmente para discutir a participação política dos cientistas", relata. Neves define o projeto com "um grupo de cientistas que se encheu de ficar de braços cruzados esperando as coisas acontecerem". Dentre todos os deputados da Câmara, afirma o professor aposentado, "ninguém defende a bandeira da ciência e tecnologia".

Outro problema é a falta de iniciativa da própria comunidade científica, avalia o antropólogo. "Se fazer documento [denunciando a falta de verba para pesquisa e ciência] funcionasse, nós não estávamos com o orçamento mixuruca que teve para 2017 e, provavelmente, para 2018 também. Cansamos, a palavra é essa", diz Neves.

A escolha do partido, de acordo com a dupla, se deu de acordo com dois critérios: a incorporação da pauta de reivindicações dos Cientistas Engajados e não ter a reputação manchada por escândalos de corrupção. Neves e Moura serão candidatos pelo Partido Pátria Livre (PPL), fundado em 2011 e que se autoproclama de esquerda. A aspirante a deputada federal é, aliás, uma das fundadoras da agremiação. Nenhum outro partido procurou a dupla, afirmam.

Mariana Moura, doutoranda na USP, onde pesquisa a transferência de valores na cadeia energética. Foto: Divulgação

A plataforma eleitoral da "bancada da ciência" gira em torno, claro, de aumento de investimentos na área. No nível federal, alçada de Walter Neves, uma das ideias é recuperar a autonomia do ministério e desvinculá-lo do Ministério das Comunicações. Além disso, explica o candidato, sua proposta é aumentar o gasto com ciência em 0,5% ao ano, até chegar ao patamar de 3,5%. A partir disso, explica, esse piso mínimo seria "constitucionalizado".

No estado de São Paulo, avalia Mariana Moura, a infraestrutura de pesquisa tem um bom nível, mas é preciso integrar os diferentes institutos, universidades e entidades para que haja um melhor aproveitamento do que está disponível. "Não existe uma política pública que estimule a integração", afirma. Para isso, Moura quer "fomentar as áreas mais importantes e estratégicas para o estado de São Paulo". "Tem que ter fonte de financiamento regular. A pesquisa e o ensino têm que chegar na sociedade; a extensão é uma parte importante disso. E utilizar a infraestrutura existente para poder produzir inovações e fazer com que a ciência traga resultados para a sociedade", defende.

De acordo com Neves, existem algumas prioridades. "O que me fez aceitar o convite é [lutar] pela erradicação da miséria", diz. "Se não tiver comida, o povo nunca vai entender o que é ciência e tecnologia. Hoje nós temos 13 milhões de pessoas passando fome todo dia no Brasil. Isso é pornográfico", avalia. Por isso, além de defender os interesses dos cientistas, o pré-candidato quer se dedicar a essa bandeira prioritariamente. "Proponho como estratégia emergencial estender o Bolsa Família para esses 13 milhões e a gente voltar por aquela bandeira do Suplicy, a da renda universal, que eu acho fundamental se a gente quiser pensar em um mínimo de redistribuição de renda. E taxação das grandes fortunas e dos grandes salários", diz.

Neves e Moura admitem que um dos principais empecilhos de suas campanhas será chegar ao grande público. Ele se diz pessimista "exatamente pela questão da distância entre a comunidade científica e a população em geral. A Mariana é mais otimista [risos]!" Ela vê um espaço para que a pauta tenha mais penetração no eleitorado brasileiro, principalmente entre os mais jovens: "[Pesquisa da Finep] perguntou aos jovens que importância eles [estudantes de 12 a 17 anos] davam para ciência e tecnologia. O resultado foi que três em cada quatro jovens achavam importante esse investimento [na verdade, três em cada quatro acham que o ensino de ciência e tecnologia deve ser obrigatório nas escolas; a proporção de quem defende mais investimentos na área é ainda maior: 82,6%]."

A campanha, acredita Moura, será uma oportunidade para mostrar para as pessoas que investir em ciência é investir em saúde, é investir em educação, em segurança. "O que aprendi nesses 40 anos fazendo divulgação científica é que as pessoas não têm só fome de comida", acrescenta Neves. "Por mais simples que seja uma pessoa, ela tem uma fome imensa por conhecimento. [É necessário] colocar conhecimento na mesa do povo. E não acho que deva haver uma relação hierárquica entre essas coisas, uma ser mais importante que a outra."

Para os Cientistas Engajados, alcançar a comunidade científica de São Paulo já será uma vitória importante, ainda que pequena em comparação com o eleitorado total do estado.

Quando perguntado a respeito de como será uma futura atuação da bancada no dia a dia dos dois parlamentos, Neves diz que pretende "lutar para que a barbárie não se estabeleça no país". "Essa é, na verdade, a minha grande bandeira", diz.

O candidato a deputado federal pretende estabelecer um diálogo mínimo com "as pessoas que não têm as mesmas bandeiras que a gente". "Acho que vai caber a mim tentar resgatar o pouco de humanidade que ainda sobrou e usá-la para esse diálogo. Mas, às vezes, não sobrou humanidade nenhuma, como é o caso do Bolsonaro. Esse não tem o que salvar. Aí, o que você tem que fazer é ir para uma estratégia de enfrentamento." Se for necessário brigar contra as forças que considera reacionárias, o antropólogo diz estar pronto. "Meu apelido vai ser 'caçador de trogoloditas'", imagina.

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