Semana Canábica

Pessoas estão usando maconha para lidar com luto

O papel que a maconha pode ter em processar a perda.

por Jessie Gill; Traduzido por Marina Schnoor
22 Abril 2019, 5:57pm

Ilustração por Elizabeth Renstrom, Kitron Neuschatz e Lia Kantrowitz.

Morte é uma bosta. Não tem outro jeito de falar isso. Da próxima vez que você estiver num enterro, procurando palavras profundas de consolo, apenas pare – e simplesmente reconheça que a morte é uma bosta para as pessoas que ficam e que o luto pode ser torturante.

A verdade é que o luto é um processo natural da experiência humana que a maioria é obrigado a encarar. Luto, o processo de passar pelas fases da perda, pode durar o resto da vida. Mas o que podemos fazer para aliviar a dor? A literatura especializada geralmente recomenda tempo, apoio da comunidade, conexão espiritual e um pouco de esforço para investir em fazer coisas que te façam sentir melhor. Mas enlutados experientes argumentam que a maconha, especificamente, deveria ser acrescentada à lista.

Dan Wolfson, um psicólogo de Nova York que trabalha com crianças e adultos que perderam alguém, descreve o luto imediatamente depois da morte como “algo muito cru. Ele abala suas estruturas, e é uma experiência muito tensa e profunda”. Ele aponta que “luto severo geralmente tem um limite de tempo... não ficamos nesse espaço para sempre”, mas também reconhece que “luto é algo que nunca desaparece completamente. Nosso luto é parte de quem somos e não há uma linha do tempo para o processo”.

Essa dor fica evidente quando Jessi Cox, uma mulher de 36 anos de Portland, Oregon, descreve a morte da mãe, que sucumbiu a um câncer cerebral três anos atrás. “Minha família inteira ficou abalada com a morte da minha mãe. Foi horrível”, ela diz. Ela me conta sobre os desafios de equilibrar seu luto com as responsabilidades como mãe de quatro filhos e o trabalho em tempo integral numa startup de tecnologia: “Eu caía no choro entre ligações... Mas eu não ia perder meu emprego além de perder minha mãe. Eu ainda tinha que atingir metas, e lembro de sentir tipo 'é tudo horrível. Só quero chorar pela minha mãe'”.

Antidepressivos tracionais geralmente não são recomendados para o luto. Wolfson explica que o luto e a depressão podem ocorrer ao mesmo tempo, mas são questões distintas. “Podemos esperar algumas sensações que podem parecer com depressão, a pessoa pode experimentar tristeza, pode experimentar um afastamento”, ele diz. “Mas ela ainda está num processo de adaptação à perda. Então eu não prescreveria antidepressivos durante esse período, nem medicamentos ansiolíticos.”

Alguns sugerem que cannabis pode servir como medicação para ajudar pacientes a aliviar e processar o luto. Na verdade, o especialista em medicina paliativa de Seattle Dr. Sunil Kumar Aggarwal aponta que “O falecido Dr. Tod Mikuriya, um dos pioneiros da cannabis medicinal do século 20, que tinha uma experiência extensiva com cannabis, propunha uma categoria especial para a droga – um facilitador. Ele escreveu que o uso de cannabis pode relaxar padrões cognitivos obsessivos e comandados pelo humor, e colocá-los numa perspectiva emocional”.

Essa é uma das razões para Cox ter escolhido usar cannabis para aliviar seu luto. Ela ilustra as maneiras como a maconha ajudou a adaptar sua vida sem a mãe. “O que mais gosto na cannabis é que ela me mantém positiva, focada na parte boa e não na ruim”, ela me conta. “Com certeza é um equilíbrio em vez de te fazer 'não sentir'. Acho que a maconha te ajuda a identificar o que são esses sentimentos e pensar neles de um jeito diferente.”

Ela prefere cannabis a beber. “Fumar maconha me ajudou a lidar com as emoções de um jeito construtivo. Quando bebo sou mais destrutiva, penso em como fui roubada da presença da minha mãe, como foi toda a indústria do tabaco que levou minha mãe, e começo a ficar com raiva”, diz Cox. “Mas quando fumo maconha, penso 'bom, minha mãe tinha livre arbítrio. Ela era uma mulher estudada e provavelmente boa demais pra este mundo'. Tenho pensamentos mais construtivos, mais equilibrados para o lado bom.”

Wolfson acrescenta que autorregulação é imperativo quando usando qualquer substância, especialmente em tempos de luto. “Você não quer se sentir entorpecido. Queremos que você faça um espaço para a experiência emocional e realmente note como seu luto está se desenrolando.”

E mesmo deixando claro que não aprova depender de qualquer substância como uma estratégia para se adaptar à perda, ele também reconhece que há coisas que podem ajudar a facilitar o processo. Wolfson encoraja os enlutados a “construir um espaço para experiências positivas... coma uma sobremesa, saia para dar um passeio pelo jardim, brinque com um bicho de estimação, visite sua família”. Ele acrescenta que se cuidar é importante para dar a si mesmo uma pausa da perda que você está experimentando. “E aqui, acho que algumas pessoas se cuidam fumando maconha. É algo que essas pessoas fazem por prazer.”

Também vale mencionar que a cannabis – como o álcool – tem potencial para vício, mesmo que o risco seja comparativamente muito menor do que com o álcool. Mas essa é uma questão para considerar, dado que o luto pode aumentar o risco de vício em qualquer substância. Os adultos que escolhem usar a cannabis durante o luto devem ter cautela. Chapar deveria melhorar sua vida, não ser uma fuga dela.

Se você quer fumar maconha durante o luto, fume com responsabilidade. Especialmente novos usuários de cannabis devem saber que ansiedade e ataques de pânicos induzidos por THC são riscos reais do consumo exagerado. Se possível, fale com um profissional de saúde imparcial sobre todo o processo de luto.

Cox diz que depois que implementou a maconha em seu ritual de luto, seu sono e humor melhoraram. Amigos da indústria de cannabis também ofereceram apoio a ela, e esse apoio ajudou a aliviar sua dor. Isso não é surpresa, com estudos mostrando que apoio social pode melhorar os resultados do processo de luto. “Não é só uma questão da cannabis física. Isso também vem das pessoas da indústria da cannabis”, ela diz. Além de grande apoio emocional e mental, a comunidade a presenteou com doações de sua cepa favorita, Tangie. “Às vezes brinco que as melhores flores que recebi quando minha mãe morreu foram flores de cannabis.”

Wolfson diz que durante o luto, é importante “experimentar emoções positivas, começar a planejar o futuro, e ter aspirações com as quais trabalhar para seguir em frente”. No caso de Cox, em vez de afundar no desespero, ela e o marido optaram por embarcar numa nova oportunidade, começando uma empresa de recrutamento para negócios voltados para a cannabis que agora opera em vários estados norte-americanos.

Além dos muitos benefícios físicos, a cannabis também pode aumentar a conexão espiritual dos usuários. “Um texto religioso antigo do subcontinente indiano – o Atharva Veda – expressa a crença tradicional de que a cannabis foi dada à humanidade como um alívio para o sofrimento”, explica Aggarwal. “Então essas propriedades podem mesmo ajudar os enlutados, além de buscar apoio psicológico profissional, da família e da comunidade, assim como participar de rituais de luto.”

Usar cannabis para uma maior conexão espiritual é exatamente o que Jo (que preferiu não usar seu sobrenome por questões profissionais) de Nova Jersey fez quando o marido faleceu. Ela tinha 41 anos. “A primeira vez que fumei depois da morte dele foi um dia depois do enterro. Eu estava com minha filha adulta e minha sogra”, ela diz. “A ideia é que aquele fosse um dia para celebrar. Apesar de ter sentido uma grande ansiedade no começo, depois de um tempo a calma se assentou, assim como uma sensibilidade maior sobre o que estava acontecendo, com um foco em estar em paz e celebrar a vida.”

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