cinema

O dissabor do jovem trabalhador no filme 'Arábia'

Longa nacional conta a história de um desolado operário que narra as dores da vida através dos embates do cotidiano.

por Bruno Costa
06 Abril 2018, 11:00am

Foto: Divulgação.

A representação fidedigna do jovem trabalhador operário do Brasil. A inexistência da relação entre patrão e empregado. Angústias, melancolia, falta de um propósito de vida tomada pela urgência e necessidade de trabalho por sobrevivência. Um mundo que não ouve o clamor dos seus, pois está encoberto por urgências superficiais. Essa é a realidade retratada no filme Arábia.

Cristiano, vivido por Aristides de Sousa, é um operário de uma antiga fábrica de alumínio em Ouro Preto, sudeste de Minas Gerais, onde sofre um acidente de trabalho. O jovem André (Murilo Caliari) ajuda a tia de Cristiano a socorrer o vizinho acidentado. Por curiosidade, o garoto encontra um caderno que narra os relatos das andanças de Cristiano – numa perspectiva pessoal sobre suas relações familiares, amistosas, de trabalho, crime e sentimentos –, carregados de melancolia e solidão.

O filme chega nas telonas nacionais no dia 5 de abril, trazendo consigo os prêmios de Melhor Filme, Ator, Prêmio da Crítica, Melhor Montagem e Melhor Trilha Sonora do 50ª Festival de Brasília e prêmios dos festivais internacionais que rolaram em 2017.

Cena do filme Arábia. Crédito: Divulgação

Na mesma sexta, encontrei Affonso Uchôa e João Dumans, roteiristas e diretores do filme. Começo questionando o fato de o longa partir para o circuito de exibição nas salas comerciais com os prêmios conquistados. João conta que mesmo sido premiado como Melhor Filme no festival brasiliense, o que deu mais orgulho foi ver Aristides, carinhosamente chamado por Juninho, ganhar como Melhor Ator. “Foi a nossa maior vitória”, revela Dumans.

"A vida do pobre cada vez mais sujeita ao mercado e a mercadoria" - Affonso Uchôa.

Eles contam que Juninho não estudou para ser ator, teve uma vida turbulenta, foi preso algumas vezes, trabalhou em diversos lugares, viveu coisas impensáveis e que o prêmio é decorrente de seu puro talento e atuação. Affonso comenta que a importância de Juninho para o filme é inegável. “Dá para ver o potencial e poder criativo [dele] por aquelas imagens”, reafirma o diretor.

Ambos negam que Cristiano seja um retrato fiel da vida de Juninho e que ele foi um meio de inspiração. “Na verdade, é baseado noutra vida dele. A biografia possível, não a biografia real. É uma vida que ele poderia ter vivido porque o Cristiano tem muito a ver com ele. Agora, ele não é o Cristiano. Foi um convite para ele sonhar uma outra vida enquanto a câmera estivesse ligada”, explica Affonso. João relata que a mãe do ator, ao ver o filme, falou: "Eu achei o Cristiano muito sério", opondo-se à personalidade bem humorada e brincalhona do filho.

Gravado há três anos, Arábia projeta uma condição trabalhista semelhante ao que vivemos agora, pós-Reforma Trabalhista. “Essa conexão é triste, porque a gente vê que a realidade se tornou mais intensa do que estava construído no roteiro”, lamenta Uchôa, ao comparar a realidade da situação do trabalhador nos dias de hoje com a retratada no filme. Uma profunda melancolia espalhada em todos os cantos. “O que era uma questão individual, vira um questão trágica de um país”, complementa João.

Cena do filme Arábia. Crédito: Divulgação

Para Uchôa, a obra foi composta para simbolizar um mundo endêmico, que fosse daqui a 30, 40 anos, num sentido em que a humanidade segue mais sujeita da vida no mercado, pela sujeição dos desejos, a mercadoria e a supressão da individualidade pelo consumo. "Vemos que o Brasil está caminhando a passos rápidos para esse mundo, passos muito velozes. A vida do pobre cada vez mais sujeita ao mercado e a mercadoria", adiciona.

"Chegar nos Cristianos, chegar numa realidade mais próxima que o próprio filme trabalha" - Affonso Uchôa.

O longa aborda a opressão sobre o trabalhador que proporciona uma série de recusas morais, sociais e políticas. Affonso assemelha a narrativa ao caso Marielle: "Tem gente que não vai abandonar as suas próprias convicções e vai continuar vomitando no Facebook aquilo que vai botar em suspeição, em dúvida, as evidências [do caso]. As pessoas estão erradas, está acontecendo outra coisa e essa outra coisa, para ser encarada, precisa que você saia desse lugar".

Um complemento fundamental que dá mais requinte ao enredo e as belas imagens da região colonial de Minas é a trilha sonora. Em particular, a cena em que Cristino pega o violão e manda um rap. "Do sertanejo ao rap, do folk americano, são registros além da música, de experiências reais, de vivências, de pessoas que atravessaram a barreira e que educaram outras pessoas através dessas músicas", descreve Dumans, adicionando os dizeres de Juninho sobre a sua escolha: "O rap foi a minha escola. Eu não estudei, mas o rap foi onde eu aprendi certas coisas".

Por fim, indago os diretores se há alguma expectativa da recepção do público e Affonso espera que o longa saia um pouco da bolha e atinja novas pessoas. "Isso seria o filme chegar nos Cristianos, chegar numa realidade mais próxima que o próprio filme trabalha, que o próprio filme tematiza, para conseguir conversar com essa realidade. Não é um público domesticado, educado para ver. É um público que tem uma relação viva com aquilo que está vendo e que reage diretamente ao filme. E quando se identifica, é um negócio absurdo", finaliza.

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