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O 17 de Junho em Vitória: a Jiripóca Piou

A jiripóca piou, inalou gás de pimenta, chorou com o lacrimogêneo e ganhou hematomas de tiros com balas de borracha.

por Gilberto Medeiros; Fotos por Yuri Barichivich
19 Junho 2013, 8:28pm

The jiripóca is gonna pew-pew. O bem-humorado aviso estampando em cartazes exibidos por manifestantes em Vitória, na segunda-feira 17 de junho, era para ao Governo do Estado do Espírito Santo e sua classe política de que a passeata seria seguida por outras tantas quantas forem necessárias até o governador Renato Casagrande (PSB) aceitar receber e atender suas reivindicações.

Mas o que se viu foi a rapidez do governo em tomar para si o bordão e literalmente baixar o pau no lombo da cambada. A jiripóca piou, inalou gás de pimenta, chorou com o lacrimogêneo e ganhou hematomas de tiros com balas de borracha.

Concentrados desde as 17 horas de segunda-feira, quando ainda não passavam de mil, os manifestantes ganharam adesão rapidamente e, pouco antes de 18h30, quando saíram em passeata, já passavam de cinco mil. Não é exagero dizer — como até o governo admitiu — que, ao tomarem o vão central da Ponte Darcy Castelo de Mendonça, a Terceira Ponte, já somavam 20 mil.

Por onde passavam, ganhavam sinais de adesão. Moradores dos prédios da Praia da Costa e Vila Velha, incrédulos ao verem tanta gente caminhando sobre a ponte, piscavam as lâmpadas e até soltavam fogos de artifício, como se dissessem “essa rapaziada aí me representa”. Já quase descendo em Vila Velha, uma cena marcante. Um morador do condomínio reservado para militares do Exército que fica aos pés do Morro do Moreno, também piscava suas lâmpadas e soltava fogos.

Depois da ponte, já rumando pela Avenida Champagnat, principal ligação do centro de Vila Velha com a Praia da Costa, moradores do entorno desciam para oferecer água. Um deles, já na esquina com a rua da praia, a Avenida Antonio Gil Vellozo, se apressou em ajudar. “Olha, meninos, passaram oito viaturas da tropa da choque Polícia Militar indo para a casa do governador. Por favor, tomem cuidado lá”, disse, quase seguindo com a marcha. Ele parecia antever o espetáculo de horror repressivo ressurgindo no Espírito Santo.

“Queremos o governador”, disse tranquilo um dos manifestantes ao major encarregado de conduzir as negociações, minutos antes de a polícia executar o que já estava combinado pelo comando há tempos – e atacar a multidão com gás de pimenta, balas de borracha e bombas de efeito moral. Moral?

O desfecho fisicamente trágico para os estudantes e politicamente trágico para Casagrande foi detonado por vota das 22 horas pelo uso de uma perigosíssima arma de destruição em massa adotada pelos manifestantes: uma garrafinha de plástico ou latinha de alumínio vazia.

Percebi o vulto (estava anotando a negociação para depois redigir meu texto para publicar com as fotografias do Yuri Barichivich) poucos segundos antes de ser atingido pelo jato de gás de pimenta direto no rosto. Mais tarde, com a cara, as orelhas e os braços ardendo madrugada adentro, vi que pipocaram na web as reclamações de colegas da imprensa também atingidos. Tinha gente da TV Capixaba, TV Gazeta, IG, A Tribuna... Barichivich, coitado, levou jato de gás e bala de borracha. Na minha timeline, a turma me ensinava: “Giba, leite alivia a queimação”. Esta é parte da estratégia repressora: ataca logo esses “viados” da imprensa que eles param de registrar. Daí, mano, pode se divertir aplicando todo seu treinamento ninja.

A seguir, a rua que dava acesso à mansão oficial do governador na Praia da Costa — o metro quadrado mais caro de Vila Velha, segundo dados estatísticos do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Espírito Santo (Sinduscon) — virou um campo de batalha desigual. De um lado, uma centena de soldados másculos, portando cassetetes gigantes, escudos negros e roupitcha de super-herói. Do outro, milhares de manifestantes magrelos, gordos, pretos, brancos, gays, héteros, novos e velhos. Todos cansados. Depois da porradaria, vem mais por aí. Há relatos de estagiários do Governo do Estado que teriam sido dispensados ano passado após serem identificados durante os protestos.

De resto, as fotografias do Yuri falam mais do que posso descrever.

Não satisfeito com o desfecho da segunda-feira, o governador autorizou — publicamente, numa entrevista para TVs, rádios e jornais — que a Polícia Militar proceda exatamente da mesma forma em novas manifestações, como a de quinta (20), também com saída do campus e Goiabeiras da Universidade Federal do Espírito Santo. Basta googlar que você acha as postagens da mídia local.

A fala do governador foi ao ar até na emissora estatal, a RTVE-ES, mas também na TV Gazeta, na rádio CBN e outras mídias. De acordo com o governador, é assim que se faz. “A orientação da polícia, o protocolo a ser seguido é o mesmo, dar segurança a quem quer participar de forma pacífica, organizando o trânsito. Se houver excesso, a polícia vai agir para proteger a sociedade”, garantiu Casagrande na terça-feira. Vem mais porrada aí.

Apesar das tentativas da reportagem da VICE BRASIL, que fez contatos por telefone, e-mail e torpedos, a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) do Espírito Santo não retornou, nem agendou a entrevista com o secretário, André Garcia.

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