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O Miss Prostituta BH Começou Depois de Uma Grande Treta, Mas Hoje É Bem Legal

O evento integrou a programação do “Festival Nacional Sem Preconceito”, assim como o Miss Pantera Trans, o Miss Favela e debates sobre o racismo nos campos e nas ruas.

Isabel é o "nome de guerra" de uma profissional do sexo carioca, de 26 anos, que o Matias Maxx entrevistou há pouco tempo. No dia 23 de maio deste ano, ela passou pela situação mais tenebrosa de sua vida enquanto trabalhava num ponto de prostituição de Niterói. O edifício onde estava, conhecido como "Prédio da Caixa", foi invadido por policiais militares, que estupraram, agrediram, roubaram e humilharam várias garotas durante a operação.

A Isabel estava entre elas e ficou indignada quando a Delegacia de Apoio à Mulher se negou a registrar ocorrência. Ela resolveu explanar geral, até que conseguiu uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio que constatou as violações e abusos. Depois disso, Isabel foi sequestrada por dois homens, que ficaram com ela no carro, durante uma hora, ameaçando matar seu filho e assassiná-la caso não ficasse de bico fechado. "Eles mostraram foto do meu filho, tocaram o terror, me mandaram tirar tudo", conta.

Acontece que a Isabel não recua. É prostituta ativista, "a única que hoje representa o Brasil internacionalmente", como ela mesma lembra. É daquelas que desconstroem qualquer estigma babaca de gênero frágil. Na época do sequestro, ela se escondeu na casa de militantes e foi apoiada por movimentos sociais, como a Anistia Internacional, e por figuras como o deputado Jean Willys. "Engraçado que, das entidades, foram só as internacionais que ajudaram", pontua Isabel, que, em breve, participará de debates no Equador e na Holanda.

Mas a treta do "Prédio da Caixa" não tinha sido a primeira na vida dela. Em 2011, ela trabalhava na Guaicurus, rua que reúne vários hotéis "sobe e desce" no centro de Belo Horizonte. Ali perto, na frente da rodoviária, fica o Shopping Uai - uma mistura de feira e shopping (center e popular) -, amplamente frequentado pelas mais de três mil prostitutas que trabalham no Baixo Centro da capital mineira. Num salão de beleza de lá, fizeram uma "cagada" no dedo da Isabel, que infeccionou. Depois de seguidos desentendimentos com o dono, ela decidiu processar o salão (ação que veio a ganhar, levando R$ 12 mil).

Mas, no dia em que o cabelereiro foi notificado, Isabel descia a escada rolante do shopping com uma amiga quando ambas foram agredidas pelo sujeito, "que veio voando tipo o Jackie Chan". Os seguranças também chegaram "metendo a porrada" nas duas, que foram à delegacia dar queixa. Isabel moveu um processo por danos morais contra o shopping no valor de R$ 30 mil que, segundo ela, ainda está tramitando na justiça.

À época, com a repercussão do caso, o lugar ficou com o filme queimado entre as prostitutas, que tomaram as dores de Isabel e o boicotaram. Ela conta que foi daí que a diretoria do shopping teve a ideia de promover o concurso Miss Prostituta BH para reconquistar a clientela e virar a página da confusão. No começo, Isabel ficou bolada. "Achei que era hipocrisia; ainda estava muito chateada com a situação, nem queria participar. Era muito recente", lembra ela, que não desfilou no evento. Mas o atrito com o shopping parece ter mudado com o tempo. "Eles não foram coniventes. Fecharam o salão, que era aqui onde tá montado o camarim, e demitiram o segurança", defende a prostituta ativista.

Prova disso é que, no desfile deste ano, Isabel foi uma das 14 garotas que subiram à passarela montada entre bares e choperias. O evento integrou a programação do "Festival Nacional Sem Preconceito", assim como o Miss Pantera Trans, o Miss Favela e debates sobre o racismo nos campos e nas ruas. Patrícia Moreira, a torcedora gremista que cometeu injúria contra o goleiro Aranha, participaria de um bate-papo, mas informou, de última hora, que foi aconselhada pelo advogado a cancelar a agenda. O debate rolou com o jogador Tinga, do Cruzeiro (insultado por torcedores peruanos do Real Garcilaso), o ídolo do Atlético-MG Dadá Maravilha, representantes de movimentos como a Central Única das Favelas (Cufa), além do dono do shopping.

O lugar é bem quente. Eu suava um bocado enquanto andava entre as cerca de 200 pessoas, na praça de alimentação, bebendo alguns chopes e esperando pelo concurso, que só foi acontecer mais tarde. Antes do desfile das moças, rolaram apresentações de drag queens e travestis de uma escola de samba de BH, um concurso de gogoboys e uma dança do ventre exótica. Ao mesmo tempo, um DJ sapecava funk nas caixas fazendo uma turma dançar na beira do palco enquanto o pessoal das mesas enxugava jarras de cerveja e limpava tábuas de fritas.

Enquanto o evento era conduzido pela drag mineira Kayete e pela ex-BBB e apresentadora Bianca Jahara, fui bater um papo com as meninas nos bastidores. O camarim, na loja vazia, tinha um espelho, cadeiras de plástico e um filtro de água. Algumas candidatas se arrumavam e passavam maquiagem para o concurso enquanto outras bisbilhotavam, animadas, o dos gogoboys. Presidente da Associação de Prostitutas de Minas Gerais (Aprosmig), a Laura Maria do Espírito Santo, 54, me apresentou às meninas.

A primeira com quem conversei foi a Ana, de 48 anos, que é de Manaus e foi com a filha, Marina, também garota de programa, para desfilar pela primeira vez. Prostituta há apenas um ano e meio, ela defende que o trabalho é como outro qualquer. "Arranjar emprego tá difícil, e tem que ter trabalho para pagar os estudos. Não tem porque ter preconceito, é tudo trabalho. Ninguém é melhor que ninguém", enfatiza. A Vanusa, 43, de BH, estava sentada ao lado, bem tímida. Ela falou pouco e acabou nem desfilando - deve ter desistido. Disse que fazia programa só quando ficava desempregada e que ninguém sabia. Para ela, o preconceito já foi pior. "Eu já sofri até um 'atentado'. O cara começou a me machucar e mordeu meu dedo com força, quase arrancou. Mas eu tava 'lá embaixo', né? Eu não sabia que o pinto sangrava tanto, menino. Era sangue pra tudo que é lado. Mas isso é assunto chato, pra outro dia", conta.

A Samanta, 39, era outra que estava preocupada. Desfilou com uma máscara para não ser descoberta pela família apesar de estar com os filhos no evento. "Ah, tô nervosa de amanhã virem falar, né? 'Te vi na TV!' Sabe?". Nessa hora, apareceu a Milena, 25, com pinta de modelo: alta, magra, bonitona, sorrisão. Alguém soltou: "Ó a que vai levar aí". "Acho que preconceito sempre vai existir, tem que lutar todos os dias", diz a jovem prostituta.

Do nada, pinta a Nicole, 24, nervosa com as meninas que iam desfilar de máscara. "O negócio não é contra o preconceito? Aí as bonitinhas vão subir de máscara, e só a gente bota a cara? Não, né? Se subir menina de máscara, vou dar barraco!", bradou. Acabou que algumas desfilaram mascaradas - e a Nicole ficou numa boa. Conversei também com a empolgada Jade, de 31, que rebolou até o chão no palco e foi até interpelada pela apresentadora. "Você é sempre assim?", brincou a ex-BBB.

Bem resolvida, Jade disse que sonha ser artista e que adora a profissão. "O povo vem falar: 'Ah, coitada dela por estar nessa situação. Acho que eles que são coitados, sabe? Vou te confessar que eu sou viciada em duas coisas: homem e dinheiro. Trabalho com o que eu gosto, uai", revela a prostituta. "Meus clientes me tratam melhor que os namorados que eu já tive. É médico, policial, advogado. É melhor trair com puta que com patricinha chata, que vai estragar o casamento", teoriza, hiperativa. "Tem uns que dão beijo, que saem pra beber comigo, andam de mãos dadas, sabe? Eu adoro. Prefiro ser puta que casar. É raro eu não gozar com cliente. Com uns gatinhos como você, imagina? Nossa senhora!", exclama Jade, massageando o ego do repórter.

Quando subiram na passarela, as meninas desfilaram com trajes "de balada", lingeries e roupas da Daspu, cooperativa de roupas criada por Gabriela Leite, a primeira prostituta ativista brasileira, que morreu no ano passado, aos 62 anos, vítima de câncer. A Milena levou R$ 1 mil com o primeiro lugar. A segunda posição ficou com a Efigênia, de 54 anos, prostituta há 20 anos. Ela ficou emocionada ao receber o prêmio de R$ 700, que vai guardar na poupança. Em terceiro, ficou a ruiva Mari, de 30 anos, que, sorridente e corpulenta, ganhou R$ 500.

Para a Isabel, o clima alto astral do desfile, mesmo mais vazio que o do ano passado, aponta que o preconceito tem diminuído bastante nos últimos anos. "Tem melhorado bastante, o homem não tem tanto preconceito mais. Mas ainda tem muita violência. É um processo cultural", pondera. Ela curtiu o evento assim como vários babões entre o público que correram para tirar selfies com as apresentadoras e com a vencedora, a Milena. "Nossa, fiquei nervosa! É difícil, né? O que você achou?", perguntou (me encarando) enquanto tirava o sutiã no camarim.

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